Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 051 | Ano 6 | Mai 2001
L. F. VERÍSSIMO

Não precisa ser espanhol

Luis Fernando Verissimo

Meu pai tinha um amigo, nascido na Espanha, que culpava tudo no papa. Seria apenas uma amostra do anticlericalismo tipicamente espanhol se ele não atribuísse ao Vaticano também as pestes e os desastres naturais, além de todos os seus problemas pessoais. Não quero parecer o amigo espanhol e dizer que até o mau tempo é culpa do neoliberalismo – se bem que, sei não, El Niño não apareceu depois do Consenso de Washington? – mas a vaca louca é.

Foram os métodos de criação uniformizados e de grandes volumes impostos pela indústria de carne globalizada que acabaram com a pecuária tradicional e transformaram o gado europeu em carnívoro, e sua ração, feita com restos animais, em transmissora do contágio. Este é um caso em que os pastorais nostálgicos e ambientalistas românticos tinham razão.

Já a indústria farmacêutica serve de exemplo para qualquer argumento, a favor ou contra o culto ao lucro como motor da felicidade. A favor: se não fosse o fato de ser o terceiro melhor negócio do mundo, depois do petróleo e das drogas ilegais, a indústria de drogas legais não investiria o que investe em pesquisa e em novos produtos, inclusive alguns dos que me mantêm vivo (tudo, no fim, é vaidade). Contra: a competição e a rentabilidade que estimulam a eficiência e a criatividade da indústria também a transformam no maior exemplo mundial de amadorismo capitalista, da precedência do mercado sobre os escrúpulos. Não só concentrando seus negócios no mundo rico, onde gasta muito mais em publicidade e propina do que em pesquisa, mas cobrando mais no mundo pobre do que cobra no seu mundo e ainda sabotando as tentativas dos pobres de criarem alternativas baratas para suas patentes, como no caso do tratamento para Aids no Brasil e na África. Muitas das patentes comercializadas pela grande indústria farmacêutica nasceram de pesquisa do governo americano financiadas com dinheiro público, o que acrescenta uma boa dose de hipocrisia ao ideal liberal do Estado que não atrapalha.

Enfim, você não precisa ser espanhol para dizer que nem tudo é culpa do neoliberalismo, como nem tudo é culpa do papa, mas que o prontuário é longo assim mesmo.

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