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Nº 051 | Ano 6 | Mai 2001
CULTURA
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Os padres soldados

César Fraga

Os Templários seriam os guardiães do Santo Graal? Os protetores dos mistérios do antigo Egito repassados às lojas maçônicas? Quem sabe, defensores dos descendentes de uma improvável união entre Jesus Cristo e Maria Madalena, ou até inspiradores das divisões SS de Hitler? Bobagem. Estas perguntas têm origem em mitos. Mitos estes que o livro Os Templários (Editora Imago, 368 páginas), de Piers Paul Read – que permaneceu cerca de dois meses na lista dos mais vendidos – se encarrega de desfazer, ao mesmo tempo que se beneficia da atmosfera de mistério que ronda seus personagens. Trata-se da insólita trajetória de padres, homens da igreja, treinados para matar e rezar.

 

Os padres soldados

Geralmente o tema e os episódios chegam ao grande público apenas pela ótica afetada dos autores esotéricos, encontrando finalmente lugar em outras prateleiras nas livrarias, que não as dedicadas a este tipo de literatura. Com uma narrativa fácil, embora não acadêmica, baseada em pesquisa, citando a cada parágrafo um sem-número de historiadores, Read busca juntar informações espalhadas por diversas obras e, com isso, dá um relato uniforme do que foram as cruzadas e o início do cristianismo. O que fica são os fatos devidamente documentados, entre eles, a introdução do sistema bancário e de letras de câmbio na cultura ocidental, além de terem constituído o primeiro exército multinacional organizado dentro de normas rígidas de disciplina.

Ao contar a história desta organização multinacional, cuja finalidade era policiar todos os lugares onde os cristãos fossem ameaçados, o autor faz um inventário detalhado das religiões formadoras dos pilares de nossa civilização na qual, durante séculos, o cristianismo, o judaísmo e o islamismo vêm cultivando suas tradições, não raro antagônicas e brigando cada um por sua parte na terra santa, sempre em nome de Deus.

Para contar a trajetória desta congregação de padres soldados, que existiram entre 1119 e 1114, o escritor – o mesmo de Alive que interrogou os sobreviventes de um acidente aéreo nos Andes – decide também relatar a evolução, não só dos primeiros anos do cristianismo, mas seu surgimento a partir do judaísmo. Explica também como surgiu o Islam, dando uma breve biografia de Maomé, seu fundador. Tudo isso nas primeiras 80 páginas, para só então entrar no assunto propriamente dito, os templários.

A mística do “templo”, de Salomão para os judeus, a Igreja do Santo Sepulcro para os cristãos e a Caaba, para os muçulmanos, foi pretexto e motivo real para muitas guerras ao longo dos tempos. A gênese destas religiões, de certa forma, nos ajuda a entender melhor os conflitos no oriente através da história e por que aquela região praticamente nunca conheceu a paz. Desde que nasceram os filhos de Abraão, o hebreu, Isaac e Ismael respectivamente fundadores das tribos das quais descenderam judeus e árabes, essas diferenças vêm se acentuando. Vale lembrar que o cristianismo primitivo era composto por judeus dissidentes e só depois de Paulo de Tarso é que outros povos eram aceitos na religião. Uma outra curiosidade é que justamente o Islam era mais generoso com as demais religiões, permitindo a judeus e cristãos acesso à terra santa, generosidade que não foi repetida pelos cristãos durante seu período de domínio em Jerusalém e também não é a mesma tolerância que se vê por parte do estado de Israel nas regiões ocupadas.

É preciso fazer uma viagem no tempo, e o principal, entender como pensavam os homens de então. Vivia-se, à época que precedeu as cruzadas uma atmosfera de fervor religioso, tanto entre cristãos, como entre os povos islâmicos. Também é preciso entender que nobreza e vilania eram palavras com significados diametralmente opostos aos que temos hoje em dia. Na época dos surgimento dos templários, os exércitos feudais eram formados por vassalos, cavaleiros de origem nobre, que serviam aos seus senhores na medida de seus interesses momentâneos e de seus graus de parentesco. “Aos nobres da época, os conceitos mais negativos eram imputados. A palavra nobre era sinônimo de crueldade, assassinato e estupro. Já vilões eram os cidadãos comuns provenientes das vilas. Ou seja ser nobre naquela época não era lá essas coisas”, explica a professora de História Medieval da Ufrgs e doutoranda em História Medieval na Universidade de Beilefeld (Alemanha), Cybele Crossetti de Almeida . Ela pondera que à época, o mundo islâmico e cristão do oriente era bem mais desenvolvido do que o mundo cristão do ocidente e principalmente o Islã, composto pelos povos árabes. “Os grandes intelectuais, matemáticos e pensadores eram todos do oriente. Foram os estudiosos católicos, como Agostinho de Hipona (387 dC), e Bernardo de Clairvoix (1098 dC) que deram as bases morais para a criação das ordens de cavalaria cristãs, e a disciplina, em muito baseada nos exércitos romanos, que também eram compostos por cidadãos livres”. Ou seja, para um plebeu acabava sendo um grande negócio transformar-se em membro da igreja, pois então era o único meio de obter alguma chance de ascensão social. Com as cruzadas transformou-se em verdadeira moda ser um cruzado, além de ser uma passagem garantida para o céu. “Mas o que foi ruim para o oriente, foi bom para o ocidente. A igreja tinha um problema sério de violência endêmica, grande parte dela causada pelos exércitos irregulares de vassalos nobres e ociosos. Nada melhor do que exportar o conflito. Foi mais ou menos o que Bill Clinton fez quando bombardeou o Iraque às vésperas da votação do seu impeachment no congresso americano”, compara a professora.

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