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Nº 052 | Ano 6 | Jun 2001
POLÊMICA
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FHC e FMI: as siglas da falta de luz

Paulo César Teixeira

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Fotos:René Cabrales

Fotos:René Cabrales

Privilegiado pela natureza, o Brasil tem 95% do consumo de energia elétrica da população garantido por águas caudalosas de rios e cachoeiras espalhados de Norte a Sul do território nacional. A exuberância do cenário natural contrasta, porém, com a falta de juízo de nossas autoridades. Agora mesmo, o governo federal tenta lavar as mãos e pôr a culpa na falta de chuva para justificar a ameaça de blecaute. O racionamento de energia elétrica revela uma crise sem precedentes, resultado direto da falta de investimentos. O governo federal contribui, juntamente com os veículos de comunicação, para uma verdadeira histeria coletiva em nome do tão falado “apagão”. Na década de 80, investimos em média US$ 14 bilhões ao ano no setor elétrico. Nos anos 90, apenas US$ 4 bilhões anuais foram despejados no sistema. Se a torneira dos investimentos secou, o consumo de energia subiu de 4% a 5% ao ano na última década. Para ter uma idéia do crescimento, basta dizer que é como se tivéssemos que agregar, a cada ano, uma demanda equivalente à de todo o estado do Paraná. Na década passada, ainda que em marcha-lenta ou mesmo em marcha-ré em alguns períodos, o PIB andou em média 2% ao ano. “Por paradoxal que pareça, o que nos salvou foi o modesto crescimento econômico”, ironiza o professor Carlos Lessa, que dá aula de Economia Brasileira na UFRJ. Se a economia acelerasse, o colapso de energia elétrica seria ainda mais violento. No total, a capacidade instalada de geração em todo o país gira em torno de 72 mil megawatts. “Faltam no mínimo mais 10 mil megawatts para atender a necessidade de consumo, o que corresponde a uma nova usina de Itaipu”, explica Maurício Tolmasquim, coordenador de Planejamento Energético da Coppe (Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Ufrj). Uma hidrelétrica de grande porte, entretanto, demora 20 anos para sair do papel. Leva-se uma década só para estudar as condições de um aproveitamento seguro do rio. “A saída pode ser a construção de pequenas hidrelétricas ou termelétricas a carvão ou gás, além de centrais movidas a energia solar ou eólica (impulsionadas pelo vento) e até bagaço de cana”, sugere o economista da Coppe.
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PECADOS – Não faltou investir apenas na construção de novas geradoras. “Num sistema continental e cooperativo como o nosso, é preciso também ampliar as linhas de transmissão. No ano passado, a ligação precária entre São Paulo e Curitiba fez com que desperdiçássemos o equivalente a 4% do consumo de energia do país”, diz Tolmasquim. A bem da verdade, recursos não faltam. A privatização parcial do sistema rendeu até agora US$ 30 bilhões aos cofres públicos. Se o dinheiro fosse aplicado diretamente na ampliação da geração de energia, seria possível construir, por exemplo, 100 usinas a gás de 500 megawatts, o que implicaria num acréscimo de dois terços da capacidade de produção. Não investir em setores estratégicos, entretanto, faz parte da lição de casa imposta pelo Fundo Monetário Internacional. Em 1998, deixamos de aplicar US$ 17,6 bilhões no setor elétrico por recomendação expressa do FMI.

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