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Nº 052 | Ano 6 | Jun 2001
ESPECIAL
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O fumo move a economia e a vida da cidade

César Fraga

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

João Carlos Viegas, 51 anos (aparenta mais), também mora em Amaral Ferrador e planta fumo há 30 anos. Durante todo esse tempo usou pesticidas. “Até quatro anos atrás aplicava de oito em oito dias, agora a gente aplica só na raiz”, conta. Antes disso plantava milho e feijão. Ele pode ser considerado um exemplo do que é a média do plantador de fumo na região sul do país. Dos cerca de R$ 10 mil que obtém anualmente pela safra colhida em seus três hectares (a média segundo a própria Souza Cruz é de dois hectares) R$ 4,7 mil fica com a empresa por conta dos insumos. Restam R$ 5,2 mil reais, que é de fato a renda anual de toda a família com o fumo. Considerando que, segundo as informações obtidas com a própria empresa, cada família de fumicultores envolve em média quatro trabalhadores e que são doze os meses do ano, o valor equivalente a um salário mensal seria de R$108,00 por pessoa, menos de um salário mínimo. Parece que esses números não condizem com a promessa de boa remuneração da safra, mas, por outro lado, oferece garantia de compra e “um dinheirinho certo” todo o final de ano. Conforme o gerente de assuntos corporativos da Souza Cruz, Saul Bianco, que também é engenheiro agrônomo, apesar de considerar o cultivo do fumo mais lucrativo para os pequenos proprietários, a empresa estimula o plantio de outras culturas como o milho e o feijão, além da criação de animais para que as famílias tenham outra fonte de renda. “No entorno de Santa Cruz do Sul temos conseguido resultados bastante satisfatórios com a diversidade”, afirma. “Em pequenas propriedades, a monocultura não é viável, por isso orientamos nossos fornecedores quanto ao gerenciamento de suas propriedades no que chamamos de manejo integrado”, defende o agrônomo.
Para o secretário da Agricultura do município de Amaral Ferrador, Luis Rogério da Silva, o fumo é um mal necessário. É responsável por praticamente todo o recolhimento de ICMs de Amaral Ferrador. “Essa cidade vive em função do fumo”. Ele garante que as pessoas que trabalham nesta cultura têm muita dificuldade de voltar a lidar com as demais, criam uma espécie de resistência. A forma como os trabalhadores passam a se relacionar com a empresa cria elos de dependência difíceis de serem superados. “As famílias simplesmente deixam de criar porcos e frangos para tornarem-se compradores de produtos industrializados”, argumenta. Os hábitos dos habitantes teriam se modificado completamente. “Até mesmo o pão caseiro cedeu lugar para as padarias. As pessoas não fazem o cálculo da relação custo/benefício e segregam as outras atividades em detrimento do fumo”, lamenta. “Atualmente, criamos programas na prefeitura para incentivar a diversidade da produção para tentar minimizar o problema.” Para o secretário, o pior são os problemas de saúde causados pelos agrotóxicos. “A incidência de atendimento por intoxicação no posto de saúde é recorrente ”, diz o secretário.
O médico plantonista, João Carlos Noal, reforça as preocupações do secretário. Ele explica que muitos agricultores acham que, para colocar veneno em uma pequena extensão de terra ou nos canteiros, não precisa usar proteção. Em geral isso ocorre em períodos quentes do ano. “A cena se repete, os colonos de peito desnudo, suando, transpirando e sem observar o sentido do vento. Já ocorreram várias intoxicações agudas, crônicas, inclusive seguidas de morte. E foram muitas. Há casos de psicoses associadas ao uso de organo-fosforados. Também registramos vários casos de tentativa de suicídio e alguns suicídios há coisa de dois anos”, relata. Quanto ao grande número de casos de câncer entre os habitantes, principalmente a incidência de câncer infantil, o médico suspeita que também sejam motivados pelo contato contínuo da população com esses agrotóxicos, mas confessa que seria leviandade afirmar isso com certeza. “Não tenho dúvidas que o uso destes venenos contribui para os quadros de depressão que temos encontrado no município”, conclui.

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