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Nº 053 | Ano 6| Jul 2001
AMBIENTE
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Boi verde exige sistema cooperativado de produção

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O bife ecológico gaúcho terá certificação internacional para avalizar o produto 

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O boi ecológico alimenta a fome de lucros dos produtores, mas o sistema também tem desvantagens. A primeira delas é a redução em 30% da produtividade. O arsenal químico hoje disponível – que inclui a utilização de herbicidas, vermífugos, hormônios e antibióticos – mantém o gado livre de doenças e apressa o abate do rebanho. “Estamos levando o animal para o frigorífico com 14 ou 15 meses de idade. No novo sistema, teremos que esperar pelo menos até ele completar dois
anos”, diz Zago, do Sindicato de Bagé.“É evidente que um controle natural tem menor eficiência no curto prazo. Mas o preço de comercialização compensa.”, afirma Collares, da Embrapa. “A sociedade chegou a uma encruzilhada. Precisa escolher se quer rapidez no abate ou produtos de maior qualidade”, acrescenta o técnico.
Algumas dificuldades se colocam a nossos pecuaristas ecológicos. Uma é de natureza subjetiva e tem a ver com o temperamento individualista do produtor. “O gaúcho é meio arisco. Não gosta de parcerias. Mas, para viabilizar o projeto, ele terá que trabalhar em conjunto com os outros produtores e também com os frigoríficos, que precisarão comprovar sua assepsia”, diz o engenheiro agrônomo Gonçalves. O sistema cooperativo é necessário para dividir os custos da monitoração feita pelos técnicos da Skal em toda a cadeia produtiva. “O projeto do boi ecológico é excelente, mas não é para cabeças fracas. É uma chance de sair da mesmice e não ficar na mão dos frigoríficos, que ditam o preço do mercado”, adverte Gonçalves. A mudança do modelo, por isso, depende da conscientização dos pecuaristas e leva tempo para ser concretizada. “O produtor que não recebe a informação adequada termina gastando muito dinheiro para produzir uma carne problemática. O gado chega ao frigorífico com fígado e pâncreas estourados, de tanto consumir produtos químicos”, afirma ele. Outra dificuldade para a implantação do projeto é bem objetiva. Cada produtor terá que desembolsar US$ 300/ano para pagar os técnicos holandeses.

O ecologista José Lutzenberger – um dos pioneiros do movimento ambientalista, do qual recebeu críticas ao ocupar o cargo de ministro do Meio Ambiente no governo de Fernando Collor – aprova a iniciativa dos pecuaristas e lembra que, graças a seus costumes e sistema de produção, a paisagem do pampa não foi destruída. Mas teme pela lucratividade dos produtores e lamenta que a carne ecológica seja destinada apenas à exportação. “A proposta do boi ecológico é boa, mas é preciso verificar se, no final das contas, ela não acabará beneficiando só as grandes empresas do agrobusiness, que dominam o mercado internacional. E é uma pena que, em vez de alimentar nosso povo, a carne sem veneno esteja sendo dirigida exclusivamente ao estrangeiro.” O consumidor brasileiro, mais uma vez, ficará com água na boca.

 

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