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Nº 053 | Ano 6| Jul 2001
NEI LISBOA

Denúncias sussurradas

Nei Lisboa

Ao final do primeiro ano de gestão do governo Olívio, fui convidado a participar de uma insólita reunião onde virtualmente todas as áreas da esfera da Secretaria da Cultura estavam representadas por funcionários, artistas ou intelectuais ligados de alguma forma à administração. Queixavam-se, os que lá trabalhavam, da estrutura de poder autoritária com que eram obrigados a conviver e que os havia impedido de discutir o problema dentro do ambiente da SEDAC. O acesso e o encaminhamento de seus projetos ao então secretário Pilla Vares, diziam, lhes era barrado e ao mesmo tempo políticas que julgavam equivocadas lhes eram impostas de dentro do próprio comando do órgão.

Afora um documento destinado à circulação interna no governo, a reunião não produziu nenhum resultado prático. A administração não se sensibilizou e os descontentamentos foram arquivados, até porque entre militantes, simpatizantes e a torcida organizada há sempre um cuidado especial em não municiar a direita em anos de eleição. Passada a dita, já no final do ano passado, o assunto ressurgiu de forma pública ao anunciar-se a substituição de Pilla por Luiz Marques, o algoz de toda aquela reclamatória. Houve uma certa grita geral, é verdade, mas imbuída da mesma discrição militante. O assunto se arrastou por alguns meses e o resultado que se viu impressionou pela firmeza ou pela surdez com que o governo não se moveu um milímetro da decisão.

Trago esse assunto à baila, curiosamente, motivado por um episódio da área da cultura no âmbito municipal: a carta aberta de Nora Prado questionando o processo de seleção e a curadoria do Porto Alegre Em Cena. Tal como no caso da SEDAC, há anos circulam queixas, queixumes e resmungos variados sobre o trabalho de Luciano Alabarse na SMC, mas quase nunca são trazidos à público para serem discutidos – ponto para a Nora, então. Não é possível que se conviva com esse tipo de silêncio, com denúncias sussurradas, entre muitas outras coisas por respeito ao direito de defesa dos envolvidos.

A por vezes compreensível tese do “não é hora para fazer marolas”, ou “vamos dar um crédito a esse primeiro ano da gestão”, pode também servir de ótima deixa para práticas personalistas, intransigências, apego a cargos e a verbas públicas. Pode convir, ainda, aos que fazem da política um jogo de cochichos, intrigas e chá com biscoitos. E pode produzir o fenômeno pouco transparente e participativo de, entre anos eleitorais e de início de gestão, no estado e no município, calar a boca de um cidadão para todo o sempre.

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