Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 054 | Ano 6|Ago 2001
NEI LISBOA

A zona cinzenta

Nei Lisboa

Dediquei a coluna do mês passado a um tema – as denúncias na área da cultura – que me parecia importante que viesse à público e que, ao mesmo tempo em que o Extra Classe saía, explodiu e tornou-se o assunto da hora na cobertura política local. Gostaria de ser profeta e muito lido, mas a realidade me chama a quase lamentar a escolha ao perceber que a questão estava destinada a ir ao ar de qualquer jeito.

É claro que é ótimo que tudo venha à tona e seja investigado, mas também dói na alma (ou será na vesícula?) ver gente com os dois pés enterrados na ditadura vampirizando o PT num tom de porta-voz de convento. O PT, quando contradiz a idéia propagada de não ser um partido igual aos outros, arrisca um passado de honestidade e idealismo – que não é mentira. Mais ridícula me parece a posição de alguns plantonistas ansiosos por um indício de que o partido seja corrupto como eles próprios o foram a vida inteira.

Desde que deixou, e já faz tempo, de ser uma causa e tornou-se um dos grandes partidos políticos brasileiros, estava obviamente escrito que o PT passaria a sofrer dos males e dos vícios que o poder propicia. Não há surpresa nenhuma em encontrar desvios e irregularidades entre um contingente de seres humanos encarregados da administração pública, e o único problema da infeliz tese do Giannotti sobre uma zona cinzenta de amoralidade na política é que ela não é um diagnóstico – é uma prescrição. Também não custa lembrar que, ao menos enquanto não descobrirem que o Em Cena alimentava contas de milhões de dólares nas Ilhas Cayman, os escândalos do governo federal e do congresso continuam a merecer destaque e cobranças de explicações.

De mais a mais, ruim mesmo é assistir à conversão do Paulo Betti ao teatrólogo Fernando Henrique, com um cheque numa mão e a outra esgrimindo uma argumentação de moça ofendida, a de que o Lula não vai ao teatro, ou melhor, não vai ao teatro dele. Uma boa resposta do Lula teria sido a de que não é teatro, é cinema, esse filme eu já vi muitas vezes e tem um nome feio pra caramba. E, pra terminar, uma boa notícia: custei a entender o que o Caetano Veloso queria dizer com “a verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul”, até que li, na entrevista para o Arthur de Faria, a declaração dele de que nunca simpatizou com o comunismo por não concordar com a idéia do poder centralizado e monopolizador dos meios de comunicação. E aí… pimba, eureka! Ele quer se mudar de Salvador – e pode vir morar aqui!

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