Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 054 | Ano 6|Ago 2001
ESPECIAL
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Sobrevivendo no inferno

mendes

AE

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Em São Paulo, conseguimos entrevistar via fax, com consentimento do diretor da Penitenciária Estadual de São Paulo, Jorge Luiz Gonçalves, cujo pseudônimo é Luiz Alberto Mendes, autor de Memórias de um Sobrevivente – Editora Companhia das Letras. Cumpre pena há 29 anos. Como no Brasil o tempo limite de reclusão é 30 anos, deve sair em condicional no próximo ano. Sua trajetória não é diferente: ingressou na criminalidade ainda criança e de lá saiu para as grades. Porém seu livro não tenta explicar os motivos que o colocaram na vida do crime. Tenta não ser auto indulgente. Busca entender por que se deixou seduzir pela atraente vida criminosa enquanto outros tiveram opções diferentes. Na mesma semana em que nos concedeu esta entrevista, havia dado outra para um grande jornal da capital paulista. Desta vez, Mendes não estava mais nas páginas policiais. Tratava-se de uma matéria de cultura, por conta do lançamento de seu livro. Conquistara o status de autor, mesmo preso já não era mais tratado apenas com um marginal. Mas o que o distingue dos demais? A capacidade de se comunicar. Assim como Félix, Heloísa e Marli, Mendes foi cativado pela literatura. Infelizmente, só tem contato com jornais via fotocópias enviadas por carta. “Aqui não entra jornal”, explica.

Extra Classe – A que você atribui a motivação de escrever, apesar de estar preso?
Mendes – Os livros me salvaram e salvam diariamente de muitas angústias, depressões e desesperos cotidianos. Escrever foi uma conseqüência e saída para tudo o que acumulei de dor, sofrimento e conhecimento. Humanizo-me escrevendo, entendo-me escrevendo.

EC – Se você fosse um homem livre teria este mesmo interesse pela literatura e pela escrita?
Mendes – Como praticamente nunca fui livre, é difícil responder. Talvez escrevesse mesmo assim.

EC – Você considera seu estilo direto e seco uma conseqüência das condições em que desenvolveu suas habilidades?
Mendes – Sem dúvida é uma questão de estilo. Gosto de minha literatura nua, despudorada até, com pouca adjetivação e períodos curtos. Trabalhei este estilo por longos anos escrevendo cartas. Na verdade, considero meu texto limpo e não seco como o de Graciliano Ramos. Há quem identifique doçura no meu texto.

EC – Como surgiu teu interesse pela leitura?
Mendes – Cumprindo sanção disciplinar na cela-forte desta penitenciária.

EC – E em publicar o que escrevia?
Mendes – Em 1989, quando escrevi a primeira versão de Memórias de Um Sobrevivente.

EC – Qual o maior problema da cadeia hoje?
Mendes – A explosão demográfica nas prisões, se é que se pode dizer assim, completou o quadro de abandono a que foram relegadas as penitenciárias em São Paulo, que é o que conheço. Hoje, são meros depósitos em que as pessoas são enterradas de pé. Não há o mínimo investimento na ressocialização do preso. A cultura desapareceu das prisões. Restou a cultura do crime, em que o livro tem pouca penetração, já que é clandestina, marginal.

EC – Como foi teu processo de inclusão na literatura?
Mendes – Primeiro foram os romances, depois fui reunindo condições de entendimento para livros mais complexos. Hoje leio tudo, mas seleciono pela qualidade. Dou preferência à literatura atual, moderna. Conheço os clássicos, mas como leio somente por prazer, fico com o que me agrada. Sou apaixonado por filosofia principalmente dos existencialistas e do Grupo de Frankfurt.

EC – Que livros te cativaram?
Mendes – Escuta Zé Ninguém, do Reich; Ode à Liberdade, de Fromm; Eros e Civilização, de Marcuse; Um Homem, de Oriana Falacci; Os Mandarins, de Simone de Beavoir; A Peste, do Camus; Metamorfose, do Kafka; República, de Platão e O Pequeno Príncipe, do Exupéry.

EC – É possível, mesmo preso, abstrair totalmente da própria realidade e produzir uma obra que não faça referência ou carregue o peso da condição vivida pelo autor?
Mendes – Creio que sim. Escrevi muitos contos que nada tinham a ver com a minha condição. Faço ensaios, tentativas filosóficas. escrevo textos sobre rock, blues. Escrevo sobre tudo o que a leitura do mundo me sugere. Mas por outro lado, me fundamentei para discutir o tema sobre o qual conheço mais e minha condição está ligada a isso. Li tudo que pude sobre criminologia, penso e questiono sobre tudo o que vivi. O Memórias de um Sobrevivente foi um exame de profundidade que realizei em meu passado. Somente depois é que foi colocado de uma forma literária. Reescrevi três vezes. Mas acredito, sim, que é possível abstrair. Escrevi até contos infantis que um colega aqui da penitenciária ilustrou. O que acontece é que no momento não quero essa abstração. Sinto-me compromissado com a tragédia carcerária e com a gurizada da Febem.Olho para as janelas, grades; olho para a porta, ferro bruto com trancas. Como vou abstrair? Agora mesmo passou um guarda me contando como se fosse gado.

A rotina da prisão é como a de um
formigueiro. Restringe, atrofia e
reduz a vida a um espaço
comprimido. Ler mexe com a
sensibilidade, aguça o raciocínio,
alimenta a alma e a vida

EC – Quando você escreve, existe um sentimento de liberdade?
Mendes – De certo modo, sim. Criar é maravilhoso, particularmente no terreno da ficção total, invenção, dar asas à imaginação. Iniciei uma história esta semana que simplesmente está me eletrizando, me enchendo de motivação pela vida. Sinto-me em febre criativa, realizando-me no que escrevo. Se liberdade tem a ver com isso, então sim. Mas há muito mais que isso. Filhos, por exemplo.

EC – A literatura te faz um homem livre?
Mendes – Não. Até para receber meus direitos autorais está difícil, pois é extremamente dificultoso tirar o meu CPF. Viajo no que crio, mas é só no momento da invenção.

EC – Você considera importante que se façam oficinas e concursos literários entre a população carcerária?
Mendes – Mais que importante. É necessária a interação do preso com a comunidade e a arte enseja isso.

EC – A literatura liberta? Como?
Mendes – Liberta no sentido que amplia horizontes. A rotina da prisão é como a de um formigueiro. Restringe, atrofia e reduz a vida a um espaço comprimido. Ler mexe com a sensibilidade, aguça o raciocínio, alimenta a alma e a vida. É uma higiene mental para manter os canais mentais limpos e em funcionamento para desenvolvimento natural da inteligência. Minha vida tem sido meus livros, meus textos.

EC – Quais os teus planos?
Mendes – Agora, por exemplo estou em uma fase criativa. Ontem comecei mais uma história. Minha primeira ficção total e estou febril por definir personagens, espaços, pensamentos e ações. É meu quarto livro. O segundo já está digitado e na mão da editora para avaliação. O terceiro é de contos e está em fase de revisão e seleção de textos para a montagem. Passo o tempo todo lendo ou escrevendo, aguardando o domingo para ver meus filhos. Planejo uma carreira de escritor e professor. Quero escrever com profundidade. Defender teses. Investir todo o meu ser no que vier a escrever. Quero poder ensinar e participar de movimentos sociais, particularmente os que dizem respeito aos menores de rua.

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