Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 054 | Ano 6|Ago 2001
POLÍTICA
A CAMINHADA ATÉ O PODER

Vai para o trono ou não vai?

Paulo César Teixeira

Foi dada a largada. A sucessão está nas ruas. Partiram pelo menos 17 candidatos se habilitando a ocupar a cadeira do presidente Fernando Henrique Cardoso. A maior parte se ocultará na poeira levantada pelos concorrentes que tomarão a dianteira, com chances reais de vitória. O cenário da corrida sucessória é sombrio: apagões, bancarrota da Argentina, dólar à beira de um ataque de pânico etc. Para a maior parte dos analistas, por enquanto há uma só certeza: o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, está praticamente garantido no segundo turno e, pela primeira vez, tem a possibilidade efetiva de se eleger presidente da República. Se vai aproveitá-la ou não, é outra história (vale lembrar que, um ano antes da eleição de Fernando Collor, em1989, Leonel Brizola era favorito em todas as pesquisas).

O candidato que pretenda sair vitorioso na eleição presidencial de 2002 terá que levar em conta o país que está retratado na geografia das urnas. A caminhada até o poder obedece a uma cartografia política, que o Atlas Eleitoral do Brasil, produzido por uma equipe de brasileiros e franceses, comandada pelo professor César Romero Jacob, da PUC/RJ, tenta desvendar. O estudo mapeou o comportamento do eleitor em 5,5 mil municípios nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. A análise mostra que, apesar de derrotado em três oportunidades, Lula não parou de crescer. Pulou de 17,1%, no primeiro turno de 1989, para 27%, em 1994, e 31,7%, em 1998. Mais: teve crescimento sistemático em 16 estados e 14 capitais no período. Entretanto, o invejável patrimônio eleitoral acumulado por Lula – dono de 1/3 do eleitorado – não é suficiente para colocá-lo no Palácio do Planalto. “É um crescimento endógeno, que não ultrapassa o muro da esquerda. O desafio é derrubá-lo para almejar, de fato, a vitória nas urnas em 2002”, afirma Jacob.

O calcanhar de Aquiles de Lula é crescer em São Paulo e Minas Gerais. Uma rápida vista de olhos no mapa eleitoral evidencia que a federação é refém dos dois maiores colégios eleitorais do país – SP tem 24% (praticamente ¼) do eleitorado e MG, 12%. Cada percentual conquistado em São Paulo é uma montanha de votos. Não por acaso, FHC aliou-se a Paulo Maluf, em 1998, para abocanhar 60% dos votos dos paulistas. “Ali decidiu-se a vitória de FHC no primeiro turno”, diz Jacob. Em 1998, Lula fez 28,8% dos votos válidos em São Paulo e 28,1% em Minas, ambos os percentuais inferiores à média nacional que ele obteve (31,7%). Cabe lembrar ainda que, em 1989, entre as 26 capitais que mais votaram em Lula, São Paulo ficou em 20o lugar com 27,7%, quase o mesmo percentual obtido em 1994, 27,2% – de novo, abaixo da média nacional do candidato petista.

O paradoxo petista para 2002
O dilema é batizado pelo professor da PUC/RJ como o “paradoxo do PT”. Como explicar as dificuldades de Lula no estado em que nasceu o PT e onde o partido tem maior estrutura e as lideranças mais conhecidas em nível nacional? “Talvez porque, aos olhos da classe média paulista, Lula será sempre um político que veio da periferia, de São Bernardo do Campo. A opinião pública demonstra incapacidade de assimilar um candidato da classe operária”, supõe Jacob. “A eleição da prefeita Marta Suplicy na capital paulista foi a vitória do PT de paletó e gravata, que muitas vezes se sobrepõe ao PT de macacão. As lideranças que saíram do movimento sindical vão sendo gradualmente substituídas por parlamentares oriundos da classe média.”

A matemática eleitoral indica que, para eleger-se presidente, ganhar em São Paulo é condição necessária, embora não suficiente – não custa lembrar que Maluf e Mário Covas, em 1989, sucumbiram exatamente porque seu eleitorado não ultrapassava a fronteira paulista. É preciso distribuí-lo por todo o território, o que Lula já fez. Além de expandir geograficamente sua votação, Lula precisa saber para onde avançar no mapa ideológico. O tom moderado do discurso, adotado este ano, indica que o PT tentará conquistar os “órfãos de FHC” – tucanos decepcionados com o governo. A “orfandade” se agravou com a morte de Mário Covas, que jamais engoliu a aliança com Marco Maciel e ACM.

Arrebanhar eleitores que preferiam antes o PSDB ou mesmo o PMDB é um jogo arriscado para Lula. Na medida em que ele apara arestas para tornar sua candidatura mais assimilável pela classe média, enfrenta a cobrança dos setores mais ortodoxos do PT. “O discurso de Lula fica mais abrangente e ele busca referências que, nas origens do PT, talvez tivesse reticências em admiti-las”, observa o Eduardo Corsetti, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS. Jorge Mattoso, professor de Economia Brasileira da Unicamp e secretário de Relações Internacionais da prefeita Marta Suplicy, participa da coordenação dos programas econômicos de Lula desde a campanha de 1989. “É abobrinha discutir se o PT ficou mais ou menos light. Se o Brasil mudou, o PT tem que mudar. Uma política conseqüente se faz a partir da realidade”, admite. E acrescenta: “Quando existe a possibilidade real de governar, pensamos nas transformações possíveis e necessárias, e não em promover uma campanha apenas de agitação e esclarecimento.”

O programa que ainda terá que passar pelas instâncias internas do PT até ser adotado na campanha de 2002 foi elaborado pelo Instituto da Cidadania, ONG dirigida por Lula, com a ajuda de economistas não ligados ao partido. Após um ano de debates, uma das conclusões é que há necessidade de preservar a estabilidade econômica e o equilíbrio fiscal. A tese foi reforçada em artigo publicado em O Globo, em 17 de julho, pelo ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, para quem a oposição deve partir em defesa da moeda nacional. “Somos responsáveis pelo pudor do real. (…) Não se faz um bom governo jogando fora as boas coisas que o país conseguiu.” Mattoso tenta amenizar a guinada do discurso: “Convenhamos que o PT nunca foi irresponsável quando exerceu o governo. Basta ver a administração de Porto Alegre. Outra coisa é subordinar as metas de inflação ao FMI e aplicar uma política econômica restritiva, como faz FHC.” O tema provoca faíscas no debate interno do PT. O presidente nacional do PT, deputado José Dirceu, para aplacar a ira dos que são contrários à flexibilização do discurso, garantiu que o partido é contra as metas de inflação, e as considera “fundamentalismo” do modelo neoliberal de FHC. Afinal, o PT se compromete com a estabilidade econômica ou não? Esta é uma das perguntas que Lula deverá esclarecer na campanha.

Tucanos à escolha de um herdeiro
No ninho tucano, ninguém duvida que Lula chegou à ante-sala do poder – FHC admitiu a hipótese em jantar com a nata do empresariado nacional. “Pela primeira vez, o PT não entra na briga só para marcar posição”, diz Aspasia Camargo, professora da Escola Brasileira de Administração Pública, da FGV, até pouco tempo atrás assessora especial do presidente. Ela alerta, contudo, que FHC tem bala na agulha. O ministro da Saúde, José Serra, assumirá uma postura discreta até passar a tempestade (apagão, Argentina, disparada do dólar etc.). “Não é um bom momento para mostrar a cara”, afirma Aspasia. “Mas ele está pronto para usufruir do êxito de sua ousada política no cenário internacional, enfrentando de peito aberto os laboratórios farmacêuticos e pregando uma política humanista em defesa dos países pobres da África, na questão dos genéricos e da Aids.” Há quem não aposte todas as fichas em Serra. “É um político experiente que não vai se arriscar a um fiasco nas urnas. Se perceber que não tem chance de suceder a FHC, deixará o amigo na mão e concorrerá a governador em São Paulo”, prevê o professor Elimar Pinheiro do Nascimento, do Centro de Desenvolvimento de Economia Sustentável da UnB.

Neste Caso, FHC ainda pode tirar da manga uma carta que guarda para 2006, mas que poderá ser usada em 2002 numa emergência – Aécio Neves, tucano que preside a Câmara Federal e é neto de Tancredo Neves. “Num impasse, pode ser opção do PSDB”, afirma Aspasia, com a autoridade de quem circula pelos corredores do poder. Não por acaso, o vice Marco Maciel foi obrigado recentemente a acompanhar a comitiva de FHC em um de seus habituais passeios pelo Exterior só para Aécio sentar na cadeira presidencial – como presidente da Câmara, assume o poder na ausência do presidente e do vice. “Foi ridículo. Maciel foi forçado a entrar no avião, para que Aécio se apresentasse como herdeiro do poder. Mas é pífio e, se for candidato, será motivo de piada”, diz Nascimento. Há quem não ache graça. “Ele usou a caneta do vovô Tancredo para assinar papéis e despachou com dona Risoleta. A simbologia do ritual não deixa dúvida quanto à intenção de FHC”, observa Jacob.

Minas é fundamental para FHC
FHC tem bons motivos para apostar num candidato de Minas. No quebra-cabeças da disputa entre as elites regionais, após 64 anos afastado do Palácio do Planalto (com exceção dos amalucados nove meses de Jânio Quadros), São Paulo emplacou dois mandatos consecutivos. No período, o estado recuperou em parte o fôlego da economia com a injeção maciça de verbas federais. O terceiro mandato de um paulista, como Serra, ou mesmo de alguém nascido em outro lugar mas identificado com o eixo do poder da locomotiva do país (vale lembrar que FHC é carioca), pode custar caro. “Se o candidato de FHC for de São Paulo, Itamar Franco levará de roldão os votos de Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país”, diz Jacob. Embora pareça uma questão pessoal, sobretudo pelos melindres do governador mineiro, a bronca de Itamar com FHC traz à tona uma encrenca histórica. “Os mineiros se sentiram traídos por São Paulo duas vezes no mesmo século – primeiro em 1929, quando Washington Luís rompeu a política do café com leite e lançou o paulista Júlio Prestes para sucedê-lo, em vez de apoiar o mineiro Antônio Carlos e dar continuidade ao rodízio. Getúlio Vargas se aproveitou da briga e fez a Revolução de 30”, lembra o professor da PUC/RJ.

Em 1994, Itamar pretendia que Antônio Britto o sucedesse, mas o gaúcho preferiu concorrer a governador. A alternativa foi lançar FHC na esperança de que, quatro anos depois, o sociólogo retribuísse a gentileza devolvendo o poder ao presidente fã do Fusca. Como se sabe, FHC conseguiu aprovar a emenda da reeleição e, com isso, Minas se sentiu passada para trás outra vez. Aécio Neves, neste quadro, para FHC, teria o poder mágico de rachar a elite mineira e aumentar a chance de um candidato tucano contra Lula no segundo turno.

Se FHC não conseguir o intento, restará às elites a aposta em azarões, que mesmo atirando contra o governo na campanha poderiam dar continuidade à atual política econômica. O primeiro é Ciro Gomes. “Ciro é uma espécie de PSDB do B. Também prega a inserção do Brasil no mercado global, mas tem pavio curto. O temperamento dificulta a formação de alianças”, diz a professora Aspasia. “Sem ampliar a composição partidária, o PPS corre o risco de ter apenas alguns segundos na televisão, o suficiente só para dizer: meu nome é Ciro Gomes!”, ironiza Nascimento, da UnB, fazendo paralelo com o eterno candidato Enéas. No vácuo, Ciro terá a concorrência de Anthony Garotinho, que pulou de 2% para 12% nas pesquisas em apenas três meses. O governador do Rio tem Ibope junto ao eleitorado conservador graças ao vínculo com as igrejas evangélicas e tenta seduzir a classe média com a imagem de um político jovem de grande capacidade de comunicação. O problema é a enxurrada de denúncias que o atinge desde que, guloso e precipitado, alardeou a vontade de sentar na cadeira de FHC quando mal havia sido eleito governador.

A grande incógnita é Itamar Franco. “Vai investir na imagem de nacionalista autêntico e dizer que é preciso retomar o caminho da roça”, afirma Aspasia. Mas a situação dele no PMDB é frágil. “Controla 30% da sigla. 20% são de peemedebistas históricos, como Pedro Simon. O resto é bandalheira – o PMDB se transformou numa sigla tão fisiológica quanto o PFL”, argumenta Nascimento. Sem Itamar, para onde iria o PMDB? “Se Simon insistir em concorrer, terá desempenho mais patético que o de Ulysses Guimarães em 1989”, prevê o professor da UnB. “É um partido com muitas divisões, mas tem enorme estrutura e não está descartado que produza um candidato de centro-direita”, opina o professor Eduardo Corsetti, da UFRGS.

Pefelistas querem candidato único
Já os caciques do PFL procuram ganhar tempo com a proposta de eleições primárias para a definição de um candidato único das bases do governo. “A idéia é escolher o nome em março de 2002. Até novembro, os partidos que apoiam o presidente indicariam seus pré-candidatos”, informa Saulo Queiróz, secretário-executivo do PFL. Jacob acha que a proposta é “diversionismo” para ocupar espaço na mídia. “Desde quando as bases decidem algo no PFL? Lá manda quem pode e obedece quem tem juízo.” Se a proposta de primárias for para valer, difícil será crer que o candidato defenderá sem restrições a política econômica de Malan. “No Brasil, há um preconceito que faz com que a direita tenha vergonha de se assumir, ao contrário do que ocorre na França ou na Inglaterra. Aqui, todo o mundo é de centro-esquerda”, anota Nascimento.

Contudo, o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, está convicto de que a maior parte dos candidatos defenderá a política econômica da qual foi um dos mentores, até se afastar do governo em 1999, por discordar da desvalorização do real. “Na substância, os problemas são os mesmos para todos e as soluções não serão muito diferentes. Os pontos prioritários da campanha são as reformas que todos conhecemos, apenas com diferentes designações.” Quanto ao discurso light de Lula, ele ironiza: “Discurso só ganha eleição quando o candidato acredita nele.”

Derrocada do governo FHC não interessa ao PT
As turbulências da economia serão decisivas na reta final. Jorge Mattoso, assessor da prefeita Marta Suplicy, se diz pessimista. “Vamos enfrentar um quadro difícil em função da vulnerabilidade externa de nossa economia. Não nos preparamos para a ruptura argentina, que virá. Encontrar uma saída será o desafio dos que desejam governar o país.” A maior parte dos analistas concorda que a previsão de uma catástrofe não interessa nem a FHC nem ao PT. “Se FHC apavorar o mercado com o fantasma de Lula, haverá uma debandada de investidores e ele não conseguirá terminar o seu governo. Para Lula, é importante que FHC não vá a nocaute, porque assumir o poder num cenário caótico é complicado”, opina Jacob. Elimar Nascimento acredita que o PT “tem que rezar para a crise não se agudizar” por uma razão eleitoral: “Se a situação econômica degringolar, a insegurança aumentará as chances de um candidato de direita e até de Itamar Franco, que fala grosso com o capital estrangeiro, mas não promove mudanças profundas na prática.”

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Em percentuais referentes ao eleitorado nacional

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