Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 055| Ano 6| Set 2001
ENTREVISTA | MICHAEL HARDT

Michael Hardt – O império contra-ataca

César Fraga

hardt (1)

O Imperialismo pode estar mais próximo da globalização do que se supõe. Muito embora o Imperialismo como o conhecemos não exista mais, a idéia de império continua viva. Esta é a convicção de Michael Hardt, professor de Literatura da Duke University e Antônio Negri, cientista social e filósofo italiano. Eles escreveram a quatro mãos, Império, um estudo que mostra como a novíssima ordem mundial emergente não é tão diferente da dominação imperialista européia e da expansão capitalista ocorridas respectivamente no início do século XIX e século XX. Ou melhor, mostram que não só existem diferenças, como o novo Império é muito pior, mais abrangente a aterrador do que os conceitos que trazemos do passado. Mas por quê? Apenas o ‘império’ de hoje traz elementos do constitucionalismo norte-americano, com sua tradição pluricultural de expansão de fronteiras.

Para situar melhor os leitores, em Império, Hardt e Negri analisam as mudanças culturais, econômicas e jurídicas ocorridas nas últimas décadas e mostram como é mais simples identificá-las do que apreendê-las.

Mas não ficam por aí: eles consideram que essas mudanças só fazem sentido se dissecadas linearmente e comparadas à nossa própria definição de império ao longo das eras. Seria uma ordem universal que desconhece limites ou fronteiras.

O Império identifica uma feroz alteração nos conceitos que formam a própria base filosófica da política moderna – como soberania, nação e povo.

Hardt e Negri relacionam essa mudança filosófica a reviravoltas econômicas e culturais na sociedade “pós-moderna” – novas formas de racismo, novos conceitos de identidade e diferença, novas tecnologias de informação, comunicação e controle e às novas rotas de imigração. Os autores mostram, ainda, o poder das corporações transnacionais e a crescente predominância de formas recentes de trabalho e produção.

Mais do que uma simples análise, Império é um trabalho de filosofia política, que observa regimes de exploração e controle na nossa ordem mundial à procura de um novo paradigma político verdadeiramente democrático.
Michael Hardt é professor de Literatura da Duke University. Autor de Gilles Deleuze – Um Aprendizado em Filosofia e co-autor, com Antonio Negri, de Labor of Dionysus: A Critique of the State-form. Editou, com Paolo Virno, Radical Thought in Italy e, com Kathi Weeks, The Jameson Reader. Atualmente trabalha em uma pesquisa sobre a obra de Pier Paolo Pasolini.

Antonio Negri, cientista social e filósofo italiano, nasceu em Pádua em 1933. Condenado a 13 anos de prisão, exilou-se em Paris por 14 anos. Retornou à Itália e, desde 1997, cumpre pena na prisão de Rebibbia, em Roma, atualmente em regime semi-aberto. É autor de A anomalia selvagem – poder e potência em Spinoza; The politics of subversion: a manifesto for the 21st century; Communists Like Us, com Felix Guatarri e Constituent Power and the Modern State.

Infelizmente, Negri não pôde responder às nossas perguntas a tempo, pois se encontra preso na Itália e só poderia conceder-nos a entrevista depois do período de fechamento desta edição. Por isso, a entrevista que segue foi realizada apenas com um dos autores, Michael Hardt, diretamente dos EUA.

Extra Classe – Em seu livro, Império, o senhor considera a construção de um mercado global como um Império. Como este Império se constrói?
Michael Hardt – Pode-se, incialmente, considerar a relação contemporânea entre o Império e o mercado capitalista global como paralela à relação previamente existente entre o estado-nação e o mercado capitalista nacional. No espaço nacional, o desenvolvimento da produção capitalista e dos mercados requeria o apoio do estado-nação. Capitalistas individuais podem ter conflitado entre si e com o próprio estado-nação, mas o estado-nação esforçou-se para garantir o juros de longo prazo do capital coletivo. Isto é o que Marx e Engels querem dizer quando, no manifesto comunista, definem o Estado como gerenciador ou comitê executivo do capital coletivo. Na fase contemporânea do desenvolvimento capitalista, entretanto, o estado-nação não é mais o aparato de regulamentação da atividade do capital em seu próprio interesse coletivo a longo prazo. A atividade do capital agora estende-se para além das fronteiras nacionais. Mas isso não significa que o capital tenha, agora, subitamente, se tornado autônomo e capaz de regular a si próprio. O capital necessita, ainda, das funções do estado de forma a garantir seu interesse coletivo. O Império que está se formando hoje preenche este papel. Pode-se pensar o Império, como com Marx e Engels, como o comitê gerenciador do capital global.

Extra Classe – É certo afirmar que, após dois mil anos, é a primeira vez que o conceito de Império alcança sua forma mais completa e ilimitada? Por que isso?
Michael Hardt – O conceito de Império sempre se centrou em torno da regra ilimitada. Os romanos, os chineses e vários outros Impérios antigos reconheciam que sua regra não abarcava toda a Terra, mas eles o concebiam, no entanto, de forma a incluir todo o mundo “civilizado”. Aqueles Impérios, no entanto, eram limitados como foram também os modernos colonialistas europeus e os projetos imperialistas. O Império de hoje, que se expande por todo o globo e por todo mercado mundial, é, neste sentido, o primeiro Império a alcançar a forma completa e ilimitada que seu conceito implica.

Extra Classe – Quais podem ser as conseqüências disso?
Michael Hardt – Uma conseqüência da natureza ilimitada do Império é que as alternativas a sua regra devem brotar de dentro do próprio Império. Um dos lemas repetidos diversas vezes em nossos livros é que hoje não há mais o “exterior”. Formas anteriores da regra, por serem limitadas, tinham um exterior e alternativas a elas podiam se formar a partir de fora. Por exemplo, na virada do século XIX uma das estratégias dos revolucionários haitianos em sua luta contra a dominação colonial francesa era de se aliar primeiro com os ingleses e depois com os espanhóis. A maioria das lutas anti-coloniais tirou vantagem do jogo entre interior e exterior. Hoje, não há nenhum exterior para servir de apoio ao nosso combate contra o Império. Estamos todos dentro de sua regra. Devemos ser claros, entretanto: o fato de não existir nenhum exterior não significa que não haja nenhuma alternativa. Significa, antes de tudo, que uma alternativa deve emergir do interior. Vamos usar o pensamento de Marx novamente para ilustrar isso. Na visão de Marx, o proletariado está sempre dentro do capital: o proletariado só nasce da produção capitalista e, por sua vez, o proletariado continuamente produz capital. Sua natureza interna, no entanto, não quer dizer que o proletariado não possa desafiar o capital e inventar uma alternativa a ele. De fato, Marx viu as forças mais poderosas para contestar a regra capitalista como emergentes de dentro do seu domínio. Talvez da mesma maneira possamos dizer que o Império produz seus próprios coveiros.

Extra Classe – A independência dos estados-nações está em declínio? Como podemos estar certos disso?
Michael Hardt – É bem mais útil dizer que a soberania dos estados-nações está declinando. Isto não significa que os estados-nações não são mais importantes – pois eles certamente o são – mas antes disso certos elementos da regra escapam ao seu controle e situam-se, em vez disso, em um nível mais alto, isto é, o nível do Império.
Devemos deixar claro, entretanto, que nem todos os estados-nações são iguais a esse respeito. Alguns estados-nações nunca foram soberanos. Moçambique, por exemplo, nunca, desde sua independência, foi capaz de exercer a regra da soberania, mas, em vez disso, tem estado sempre sujeito a poderes econômico, político e cultural estrangeiros. Os estados-nações dominantes, em contraste, como Estados Unidos, as nações européias e Japão foram, de fato, soberanas por um período significativo de suas histórias. O que há de novo sobre o Império é que a soberania desses estados-nações dominantes tem sido qualificada em diversos aspectos importantes.

Extra Classe – Os Estados Unidos são o ponto central nesse novo projeto imperialista? Ou nenhuma nação exercerá controle dessa posição? Que papel Estados Unidos e Comunidade Européia desempenham nesse processo?
Michael Hardt – Nossa hipótese é de que nenhum estado-nação pode ter controle do processo. E é por isso que dizemos que o Império contemporâneo é muito diferente dos projetos imperialistas modernos das potências européias. O fato de o poder do Império estender-se para além do poder dos estados-nações, entretanto, não significa que todos os estados-nações são iguais em face disso. Os Estados Unidos certamente estão em posição privilegiada como estão, em menor grau, as nações européias e o Japão.


“Nem todos os estados-nações são iguais. Alguns deles nunca foram soberanos”

 

 

 

Extra Classe – O Império é o fim da História? Por quê?
Michael Hardt – O Império certamente não representa o fim da História. Haverá, continuamente, uma reabertura da História, ou seja, novas expressões da liberdade humana. Devo acrescentar, entretanto, que o Império apresenta-se como o fim da História em certos aspectos, da mesma forma que o capital apresenta-se como o fim da História. Teóricos capitalistas apresentam o capital como se ele fosse eterno e inevitável: toda a história humana conduzia à sociedade capitalista e o capital até mesmo coincide com a natureza humana (competição, interesse próprio, etc.). O Império apresenta-se como eterno e inevitável da mesma maneira. É nosso papel, contrariamente, mostrar que isto não é verdade. Capital e Império não são eternos, mas representam fases transitórias da história humana que eventualmente cederão seu lugar a novas formas de regra.

Extra Classe – Como as pessoas podem construir o anti-Império?
Michael Hardt – Esta é a questão mais importante e nós não temos a resposta para ela. Em certa medida, as formas de rebelião e as formas alternativas de sociedade têm de ser inventadas na prática. Uma manifestação disso está clara nos vários eventos que contestam a forma contemporânea de globalização capitalista, de Seattle e Gênova a Porto Alegre. Não podemos dizer, e não é nossa posição dizê-lo, que forma esses movimentos tomarão, mas estamos confiantes, baseados em nosso entendimento da história humana, que a coletividade se rebelará e descobrirá novas formas de democracia e liberdade.

Extra Classe – Por que a genealogia do Império é primariamente européia antes de se tornar euro-americana?
Michael Hardt – A genealogia do Império é primeiramente européia porque na era moderna a Europa, de forma mais bem-sucedida, desenvolveu formas de dominação global. A Europa foi, provavelmente, a mais bem- sucedida em seus esforços de conquista global – mais bem-sucedida, por exemplo, do que a China ou as nações árabes – por causa do desenvolvimento do capital na Europa. O capital foi o motor da expansão européia: ele tornou a dominação global possível e necessária.

Extra Classe – Em seu livro, você e Antonio Negri fizeram a opção por um enfoque multidisciplinar (filosófico, histórico, cultural e econômico, político e antropológico). Por que escolheram estação opção?
Michael Hardt – Antes de tudo, a crescente especialização dos conhecimentos tem seguidamente resultado em uma falta de perspectiva e compreensão. Isso tem sido verdade por toda a modernidade. Em segundo lugar, e mais importante, os processos contemporâneos de globalização nos forçam a adotar um enfoque interdisciplinar. Hoje a economia é crescentemente cultural e crescentemente econômica. Não se pode entender adequadamente o funcionamento da economia sem incorporar também um estudo do fenômeno cultural. O mesmo é verdade para o estudo da cultura. Em outras palavras, nossa situação global está tornando necessário um enfoque multidisciplinar.

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