Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 056 | Ano 6 | Out 2001
POLÊMICA
POLÊMICA

Atraso de salários expõe contradições

Paulo César Teixeira

ULBRA

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Não há exemplo no Estado de empreendimento de ensino que tenha experimentado expansão tão vertiginosa, inclusive geográfica, na última década, quanto a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). A instituição conta hoje com um complexo educacional que abrange universidades, escolas e centros tecnológicos espalhados por seis estados do país. No total, os 13 campi da Ulbra dão guarida a mais de 70 mil estudantes, oferecendo cursos de graduação e pós-graduação, além de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio. Apesar deste poderio todo, a universidade deixou de cumprir um de seus compromissos mais básicos: pagar em dia o salário de agosto aos professores.

Colocar-se como uma das mais importantes instituições de ensino do país não foi o bastante para a Ulbra. Ela esparramou-se por outros setores da economia com iniciativas carregadas de ousadia e modernidade. Investiu pesado num complexo de saúde que inclui hospitais, unidades ambulatoriais e central de dignóstico, distribuídos por nove municípios gaúchos. Sem levar em conta o plano de saúde e, especialmente, o novo hospital do campus de Canoas, prestes a ser inaugurado, equipado com o que há de mais moderno em tecnologia hospitalar. Na área de comunicação, está presente com uma rede de emissoras de rádio FM, gráfica, editora e telecentro. No campo do esporte, a Ulbra ganhou projeção nacional graças a um audacioso investimento em marketing, que resultou em títulos e performances marcantes em várias modalidades esportivas.

Tudo começou há 29 anos com o curso de Administração da então Faculdades Canoenses, ministrado em salas de aula do colégio Cristo Redentor. Logo depois foram implantados os cursos de Ciências Contábeis e de Arquitetura e Urbanismo. Em 1978, foi adquirido o terreno na vila São Luís, em Canoas, onde hoje está instalado o campus central numa área de 272,3 mil metros quadrados de obra construída e mais 40 mil em construção. O salto para além das fronteira gaúcha foi dado em 1984, quando a universidade abriu uma frente em Ji-Paraná, em Rondônia. A unidade inaugurada mais recentemente no Norte do país está na capital do estado, Porto Velho, e fez o primeiro vestibular em 28 de julho deste ano, com 142 inscritos. É da Ulbra o campus universitário tido como o mais moderno do oeste paraense, plantado no município de Santarém. O gigante pôs os pés também em Manaus (AM), Palmas (Tocantins), Goiatuba e Itumbiara (GO). No Rio Grande do Sul, a expansão iniciou em 1989, quando a Ulbra instalou-se em Guaíba e São Jerônimo. Atualmente, conta com seis campi em solo gaúcho, atuando também em Cachoeira do Sul, Gravataí, Carazinho e Torres.

A expansão geográfica foi interpretada pela opinião pública como conseqüência de uma confortável situação financeira vivida pela instituição. O plano de saúde, por exemplo, aparentemente, vai de vento em popa. No último trimestre, foram abertas novas unidades de atendimento em Sapucaia do Sul, Cachoeirinha, Novo Hamburgo e Canoas. A rede própria passará a contar com 15 unidades e a Ulbra já anunciou que, em breve, outras virão em Viamão, Alvorada e Nova Santa Rita. No total, o plano atende a 55 mil pessoas, 32 mil oriundas de planos empresariais. A meta era bater na casa de 70 mil usuários até o final de setembro, como disse o diretor do Plano de Saúde, Milton Machado, ao Jornal da Ulbra, na edição de agosto.

Não é lógico um gigante com braços voltados para tantas direções enfrentar dificuldades em cumprir compromissos tão básicos quanto manter em dia a folha salarial de professores. Por essa razão, causou perplexidade o atraso de 13 dias para o pagamento do salário de agosto. O assombro se justifica. Afinal, vislumbra-se aí um paradoxo: de um lado, a falta de recursos para honrar a folha de pagamento na data prevista e, de outro, a magnitude da estrutura física e da imagem institucional da Ulbra – que inclui um prosaico Museu do Automóvel de 9,3 mil metros quadrados, que tem até um tanque de guerra, junto a um chafariz com mastro de 42 metros de altura (o segundo mais alto da América Latina), o equivalente a um prédio de 16 andares.

Só o assalariado que não recebe em dia pode dimensionar a sensação de desamparo que, invariavelmente, desaba sobre o trabalhador numa circunstância como essa. O cotidiano se transforma numa cascata de tragédias domésticas. Não bastasse isso, os professores foram castigados com a ausência de uma explicação oficial da Reitoria. E, na falta de uma justificativa oficial, o campus de Canoas se transformou, nas duas primeiras semanas de setembro, num caldeirão de boatos. Os nervos ficaram à flor da pele, e não era para menos. “Em 11 anos trabalhando na Ulbra, foi a primeira vez que aconteceu. Afetou a vida de todos. Contas em débito automático estouraram, cheques pré-datados foram devolvidos e houve gente reclamando que não tinha dinheiro para fazer o rancho no supermercado”, relata uma professora que, por motivos óbvios (a exemplo dos colegas que prestaram depoimento ao Extra Classe), não quer se identificar. “A situação se tornou mais grave à medida em que, para grande parte dos professores, a Ulbra é a única fonte de renda”, acrescenta ela.

Alterações nas relações apontavam uma crise

Paulo César Teixeira

A bem da verdade, os sinais de turbulência na Ulbra já se manifestavam há algum tempo. Na década de 90, a folha era paga no dia 30 de cada mês. Era uma antecipação, já que a convenção coletiva da categoria determina que o pagamento seja feito, no máximo, até o dia 5 (e não no quinto dia útil do mês). A partir de março de 2000, foi possível perceber alterações bruscas na relação da universidade com o quadro docente e funcional, que indicavam dificuldades futuras. Um dos indícios foi o enxugamento de gastos que afetava diretamente o professor. No ano passado, por exemplo, uma grande parcela teve a carga horária reduzida, com a conseqüente diminuição salarial. O episódio resultou numa ação coletiva impetrada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), que está em tramitação na Justiça do Trabalho de Canoas. No início de 2001, a Ulbra surpreendeu o quadro docente com a redução dos descontos concedidos na taxa de matrícula para os filhos dos professores. Foi outra atitude de pouca amplitude dentro de uma suposta política de redução de gastos. Para a Ulbra, é uma economia insignificante. Para os professores, um peso a mais no orçamento apertado de cada mês.

Mas, bem ou mal, a série de medidas que atingia diretamente os professores apontava a existência de problemas financeiros, que acabaram se confirmando. Nos últimos meses, os salários passaram a ser depositados somente no dia 5, já perto da meia-noite, quase no dia 6, o que causava apreensão aos professores, na medida em que os valores custavam a aparecer nos extratos bancários. Finalmente, o não-pagamento em dia do salário de agosto trouxe à tona as dificuldades de caixa da Ulbra. Diante do fato, o Sinpro/RS tomou imediatamente a iniciativa de solicitar uma reunião com os representantes da instituição, com o objetivo de resolver o impasse e garantir o pagamento da multa resultante do atraso – até o sexto dia, ela é de 05% ao dia; a partir do sétimo dia de atraso, fixa-se em 10%. Demonstrada a ineficácia da pressão política, o Sinpro/RS entrou com ação de cumprimento na 3a Vara da Justiça do Trabalho, em Canoas, acompanhada do pedido de antecipação de tutela. Na prática, se acatada, a medida judicial asseguraria o imediato pagamento dos salários e também da multa. O juiz Luiz Henzel marcou a audiência inaugural do processo para o dia 15 de outubro, além de dar um prazo de cinco dias para que a Ulbra apresentasse suas justificativas. Devido à lentidão da Justiça do Trabalho em notificar a universidade, o prazo acabou na realidade se alargando para dez dias e se revelou inócuo, uma vez que, ao fim dele, os salários já estavam na conta dos professores. Permanece, entretanto, a demanda judicial para o pagamento da multa.

Procurada pela reportagem do Extra Classe, através de sua assessoria de imprensa, a Ulbra não quis se pronunciar. Em meio à crise, a única atitude tomada pela universidade, no sentido de prestar um esclarecimento ao corpo docente, foi enviar um coordenador de curso a cada prédio do campus de Canoas, para anunciar que o débito seria quitado (com a multa) no dia seguinte, promessa que, na ocasião, não se cumpriu. Outra promessa dada pelos coordenadores era a de que o Banco do Brasil cobriria os cheques devolvidos. No vácuo da indignação e da falta de respostas, os rumores proliferaram. Um deles dava conta de que, para estar apta a ser reavaliada pelo MEC, que está para recredenciar as universidades do país, a Ulbra tivera que quitar dívidas de longa data com a Previdência Social, o que consumira os recursos disponíveis para pagar a folha. Outro boato era o de que a universidade estaria endividada por força dos gastos na compra de equipamentos do novo hospital.

ULBRA

Toneladas de equipamentos importados

Paulo César Teixeira

No início de 2001, desembarcaram no aeroporto Salgado Filho 74 toneladas de equipamentos hospitalares, procedentes de Miami (EUA). Foi a operação de maior volume já realizada no aeroporto da capital gaúcha de uma só vez, alardeada com pompa em reportagens nos principais jornais do Estado. O transporte até a aduaneira de Novo Hamburgo foi feito por 12 carretas. Os aparelhos representam o que há de mais avançado em diagnóstico por imagem, radiologia convencional, tomografia computadorizada, ressonância magnética e hemodinâmica. Vieram ainda completas Unidades de Tratamento Intensivo, além de computadores. “Alguns diziam que parte dos equipamentos estava retida na Alfândega e era preciso desembolsar vultosa soma para liberá-la, sendo assim explicado o atraso dos salários”, informa outro professor. O investimento no hospital, apenas no que diz respeito à aquisição de equipamentos, chega a US$ 34 milhões.

Os recursos despejados em tecnologia abrangem ainda um dos mais completos laboratórios de robótica do planeta, montado pela empresa Eshed Robotec. O LABCIM (Laboratório de Manufatura Integrada por Computador) começou a funcionar no prédio 12 do campus de Canoas, no início do segundo semestre deste ano. Está disponível a 500 alunos de Eletrônica, Desenho Industrial e engenharias Mecânica e Elétrica, entre outros. Segundo o Jornal da Ulbra, é composto por um sistema de manufatura flexível totalmente controlado por computadores conectados em rede e assistidos por softwares específicos. Coisa de Primeiro Mundo.

Hospital no campus central será inaugurado em breve

Foto: René Cabrales

Hospital no campus central
será inaugurado em breve

Foto: René Cabrales

O costume de propagar aos quatro ventos os investimentos que faz – a Ulbra é uma das universidades privadas que mais gasta em propaganda, patrocinando, por exemplo, o caderno de Vestibular e o Guia de Profissões, de Zero Hora –, às vezes, revela-se um tiro que sai pela culatra. Quando os professores amargavam a incerteza da data em que os salários seriam postos em dia, informações divulgadas na imprensa davam como muito adiantadas as negociações para que a Ulbra passasse a patrocinar o astro Carlão, do vôlei de praia. A contratação estaria inserida no ambicioso projeto olímpico da universidade. A infeliz coincidência causou revolta nos corredores do campus de Canoas. “Especulava-se que Carlão seria contratado por R$ 30 mil mensais. Não entro no mérito se é justo ou não um esportista ganhar muito mais do que um educador. A questão é outra: pagar em dia o salário é uma prioridade óbvia”, diz um professor.

 

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