Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 056 | Ano 6 | Out 2001
ELISA LUCINDA

Imagine 1

Elisa Lucinda

Socorro! Bruce Willis, Dr. Kildare, Rambo, Homem Aranha, Clint Eastewood, Batman, He e Superman, socorro Harison Ford, Robocop e até Popye! Meu Deus, Popye, meus espinafres estão à solta por ti e Brutos atacou duas de nossas Olívias de uma só vez! Help me!
Esses apelos me sobem pelo tronco da infância e, como cupins, as respostas – silêncio foram dando cabo das alternativas de glórias e da ereção da grande potência. Pela primeira vez a América brochou na frente de todo mundo.

No filme que todos vimos, sempre os mesmos, uns horrorosos, outros maravilhosos, mas sempre os mesmos, alguém sempre surgia, mesmo pra lá do ano 2000 do futuro, viria um herói falando inglês americano e, sem nenhum arranhão, salvaria a tudo e a todos.

Tudo igual: aquela explosão, um atentado conspiratório de um inimigo da liberdade, gente correndo com a explosão hiper realista ao fundo, mas o triunfo era sempre certo. Agora não, nesse filme, o herói sofre de cara, com o vilão comendo duas torres e pondo em xeque o rei. Meu Deus, o rei! Desacostumado ao papel de chifrudo, o rei na derrota, patético, não se reconhece na troca brusca – “pô, fazer vítimas é mais fácil que ser” -, murmura longínquo um inconsciente inconcebível.

A platéia do mundo tem comportamento de Brodway e Rocinha:
– Que espetáculo! Triste, quero dizer.
– Mas também, aqui se faz, aqui se paga.
– É, mas morreu gente inocente.
– No Vietnã também.
– No Golfo também.
– É, é isso aí, no dos outros é refresco!
E o coro não parava até que alguém gritou :
– É, mas é o Bush que tem, coitado, agora que ressarcir a vida tomada dessa gente num universo cuja garantia mundial era a segurança. É ele quem tem que, sagaz, escolher uma saída triunfo que console, repare e vingue.

Mas, eu queria dele um super-herói que se transformasse em chique e que aos olhos dos holofotes da mídia e da vigília em tempo que a tão mal falada globalização promove, aproveitar-se para ser o herói da paz. Sei lá, propusesse uma aliança perfeita com serviço de inteligência funcionando a toda sem perder o rastro da onda terrorista, pedindo ao mundo uma sugestão mais imparcial para o combate, menos racista e que não excluísse palestinos em geral, feito baratas, como quem dedetiza o mundo. Eu queria dele um super-herói da hora, não um démodé de direita com aquela cara de que Deus, no dia de fazê-lo falou: “Ai que preguiça, esse cara vai assim mesmo. Não tô com cabeça para fazer gente de cabeça hoje!” Era o dia exato do boneco Bush. Pegou Deus com preguiça. Difícil um branco pegar Deus com tanta preguiça. Bush pegou.

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