Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 056 | Ano 6 | Out 2001
MOVIMENTO

Mais que possível, um novo mundo é necessário

Jimi Joe

Um novo mundo não apenas é possível mas absolutamente necessário. Isso ficou evidente após o atentado terrorista em Nova York no dia 11 de setembro. A construção de um mundo mais justo e sobretudo voltado para a não-violência deverá ser o ponto central da segunda edição do Fórum Social Mundial que se realizará em Porto Alegre entre 31 de janeiro e 5 de fevereiro de 2002. Mais do que nunca, o Fórum Social Mundial, que, a partir do próximo ano terá eventos similares e paralelos em outros pontos do planeta, procurando maior abrangência e a certificação de sua condição de alcance global, deverá se constituir em um mostruário de idéias que levem à construção do novo modelo que substitua o atual “abominável mundo novo” gerado pela dominação econômica de uns poucos em uma economia globalizada em favor de quem tem mais e em detrimento dos que nada têm.

“Terminamos um século com duas guerras mundiais e mais de 57 conflitos localizados no mundo, muitos deles se desenrolando ainda hoje,” lembra o argentino Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980. Esquivel esteve em Porto Alegre para o lançamento da segunda edição do Fórum Social Mundial no dia 11 de setembro, coincidindo com o ataque terrorista em Nova York. Ainda sob o impacto imediato da notícia e das imagens transmitidas ao vivo para o mundo todo, a comissão do FSM reunida na Usina do Gasômetro na ocasião divulgou uma nota condenando o ataque (veja trecho no quadro). A nota foi lida por Esquivel na abertura da cerimônia de lançamento do Fórum e o atentado passou a dar o tom nas falas e nas entrevistas que se seguiram naquele dia e depois. Ficou evidente para todos que a tragédia norte-americana cristalizou a necessidade de um novo modelo econômico para o planeta, baseado na justiça e inclusão de todos os segmentos da população.

Ainda em fase de estruturação, o Fórum Social Mundial 2002 tem comitês de mobilização atuando em várias regiões do Brasil. A principal missão desses comitês é divulgar o FSM em suas regiões, mobilizando ONGs, sindicatos, igrejas, universidades e outros movimentos sociais para que participem do evento em Porto Alegre. No Rio Grande do Sul, têm se realizado plenárias de preparação para o Fórum. Uma delas, realizada no dia 25 de setembro, contou com a presença de Bernard Cassen, editor do jornal Le Monde Diplomatique e presidente da ONG francesa Attac, e teve como tema terrorismo e democracia. Cassen falou sobre o impacto do atentado em Nova York e suas conseqüências econômicas para o resto do mundo. “Essas conseqüências serão bem menores na Europa, onde 75% do processo de importação e exportação se dá entre os próprios países do continente europeu,” avaliou. Cassen considera, no entanto, que a situação pode se tornar muito grave para os países latino-americanos que têm seu comércio exterior atrelado aos Estados Unidos.

O historiador Paulo Vizentini, participante da mesma reunião, já considera que apesar de um aumento na pressão da situação internacional, haverá espaço para mais ação. Vizentini acredita que, apesar do choque gerado pelo ataque terrorista e pelos temores surgidos quanto à possibilidade de retaliação por parte dos norte-americanos, “não é momento de sentir medo, mas de mobilizar forças”.

Dentro desse mesmo espírito, se insere o pensamento do médico genovês Vittorio Agnoletto. Coordenador da Liga Italiana de Luta Contra a Aids e um dos organizadores do Fórum Social de Gênova, realizado em junho deste ano, Agnoletto lembra que as dimensões do encontro de Gênova foram muito grandes, reunindo 300 mil pessoas num protesto contra a globalização. O Fórum Social de Gênova, que acabou sendo marcado por uma violenta repressão policial contra os constestadores, culminando com a morte de um deles, foi uma atitude coletiva de resposta ao encontro do chamado G-8, grupo de oito nações consideradas as mais poderosas do planeta. “Organizamos o Fórum por considerarmos que não é justo oito chefes de estado se reunirem para definir o destino de toda a Terra”, observa Agnoletto. E diz que as reuniões do G-8, ao contrário de eventos como o Fórum Social Mundial, não têm pretensão alguma de debater um futuro melhor para a humanidade, mas “discutir apenas os seus próprios interesses e assuntos de seu próprio proveito”.

O sul-africano Brian Ashley, diretor do Centro de Informação e Desenvolvimento Alternativo (AIDC), que veio ao Brasil para preparar o Tribunal Internacional dos Povos sobre a Dívida Externa, que deverá ocorrer durante o FSM 2002, revelou que o Fórum Social realizado em Durban, África do Sul, entre 31 de agosto e 7 de setembro, paralelamente à conferência da ONU sobre racismo, foi inspirado pelo primeiro evento realizado em Porto Alegre em janeiro deste ano. O Tribunal da Dívida Externa, segundo Carlos Tibúrcio, da Attac e do Comitê Organizador do FSM, será montado nos dias 2 e 3 de fevereiro em um espaço amplo, provavelmente o ginásio Gigantinho, para abranger o maior número de pessoas possível e ter representatividade. Brian Ashley diz que a situação mundial de economia globalizada tem massacrado os povos africanos. “A África é um continente pilhado”, argumenta. “A política de ajustes do Fundo Monetário Internacional vem destruindo o continente.” Segundo Ashley, a África registra a maior fuga de capitais em todo mundo, o que gera desemprego, doença e fome. “Hoje, 19 mil crianças morrem todos os dias por viverem em condições precárias.”

Reunião do Conselho Brasileiro do Fórum Social Mundial realizada em São Paulo, no dia 19 de setembro, teve, como principal ponto de discussão, a incorporação do debate sobre a não-violência como ponto fundamental da agenda do evento em sua segunda edição. Um dos resultados da discussão foi a condenação de todo o tipo de terrorismo, seja ele praticado pelo Estado ou por grupos anônimos. Oded Grajew, presidente da Cives e um dos organizadores brasileiros do Fórum Social Mundial, observou que “pouca gente acredita que esse novo mundo que estamos querendo construir virá através da violência ou do atual sistema econômico”. Para ele, “ainda que existam aqueles que optam pela violência, uma solução estrutural não surgirá daí”. Sérgio Haddad, da Abong, entidade que centraliza as ONGs brasileiras, destacou que “entre o terrorismo e a guerra, o Fórum Social Mundial fica com a política e com o debate de idéias e as mobilizações pacíficas”.

A busca de um futuro melhor para a humanidade pela construção de um novo modelo de economia mundial mais justo e menos excludente baseado na não-violência é uma preocupação de todos as entidades envolvidas na realização do FSM. Ceci Juruá, do Comitê de Mobilização do Rio de Janeiro, não vê o atentado de Nova York como início de alguma nova situação mas, sim, a continuidade de uma fase marcada pelo terrorismo de Estado e do capital internacional. “Novos tempos de paz, harmonia e justiça requerem uma nova ordem internacional. Se faz necessário defender o princípio da não-intervenção”, destaca. Carlos Tibúrcio, da Attac e membro do Comitê Organizador do Fórum, que também esteve presente no lançamento da segunda edição em Porto Alegre, é incisivo quanto à participação do evento na construção de uma nova ordem mundial a partir da tragédia das torres gêmeas. “Se o Fórum Social Mundial não existisse, este seria o momento para criá-lo.”

A nota do FSM sobre o atentado

Porto Alegre, 11 de setembro de 2001

Representantes do Comitê de Organização e do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, reunidos em Porto Alegre para o lançamento do próximo evento em 2002 (31/01 a 05/02), decidem se manifestar publicamente diante dos trágicos acontecimentos ocorridos hoje nos Estados Unidos, considerando as notícias até então divulgadas sobre os fatos:

– Condenar veementemente os atentados e o sacrifício inaceitável de vidas humanas.
– Prestar irrestrita solidariedade ao povo dos Estados Unidos.
– Reafirmar a defesa da democracia, da justiça social e da paz para a solução dos conflitos que dividem a humanidade.
– Conclamar os governos, as instituições internacionais, os movimentos sociais, as organizações não governamentais e os cidadãos e as cidadãs do mundo a reagir preventivamente contra qualquer tentativa de utilização do sentimento de repulsa aos atentados para promover retaliações, vinganças ou terrorismo de Estado contra outros governos e povos, como já ocorreu em situações históricas semelhantes, bem como pré-julgamentos que acirrem preconceitos e discriminação contra outros povos e nações.
– Reafirmar, por fim, a necessidade premente da defesa absoluta dos princípios e espaços democráticos em cada país e no mundo e a luta permanente em prol dos direitos fundamentais da pessoa humana.
Um outro mundo é possível

Representantes do Comitê de Organização do FSM
Representantes do Conselho Internacional do FSM
Fórum Social de Gênova – Vittorio Agnoletto
Serviço Paz e Justiça – Adolfo Pérez Esquivel

forum

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Lançamento da segunda edição do FSM aconteceu na Usina do Gasômetro no mesmo dia do ataque terrorista à Nova York

 

 

Pré-inscrições encerram dia 22 de outubro

As pré-inscrições para o Fórum Social Mundial 2002 já estão abertas. Entidades e movimentos da sociedade civil do mundo inteiro estarão reunidos para trocar experiências e buscar propostas para construir uma sociedade planetária mais justa e democrática. Quem trabalha em ONGs, redes, movimentos sociais e sindicatos poderá participar do FSM como delegado (a), representando a sua entidade. As pré-inscrições deverão ser feitas no site do FSM – http://www.forumsocialmundial.org.br – até o dia 22 de outubro. O Sinpro/RS também estará recebendo pré-inscrições dos professores interessados em participar do Fórum e de suas oficinas, mas a aceitação das mesmas fica na dependência da aprovação do Comitê Organizador do FSM. As oficinas somente podem ser propostas por organizações e devem respeitar a Carta de Princípios do FSM. Aqueles, que não são vinculados a organizações da sociedade civil, têm a opção de participar como ouvintes nas oficinas e em todas as atividades culturais. Quem quiser colaborar com a organização do Fórum em Porto Alegre deve inscrever-se como voluntário. Os residentes na região metropolitana de Porto Alegre poderão colaborar no projeto Hospedagem Solidária. O prazo final para o pagamento das inscrições é 14 de dezembro. Os valores da inscrição são de US$ 50,00 para a primeira inscrição de cada entidade e US$ 25,00 para as demais inscrições da mesma entidade.

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