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Nº 056 | Ano 6 | Out 2001
CULTURA
CULTURA

O resgate da ópera regional brasileira

Jimi Joe

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Fotos: René Cabrales

 Em meados dos anos 90, o norte-americano Jeremy Wade vasculhou a Amazônia em busca de um animal lendário, uma criatura mítica da qual falavam e ainda falam os pescadores da maior reserva de água fluvial do planeta. O primeiro informante local de Wade, o pescador Dorgival Sabino, descreveu o que ele vira no Rio Negro, próximo à cidade de Manaus, assim: “Era um animal gigantesco, como um monstro. Uma serpente mas de um tamanho muito maior do que o normal e a diferença era que a cabeça lembrava algum tipo de dinossauro com algo que eu não sei se eram dentes ou guampas. Só sei que era apavorante.” As palavras de Sabino descreviam para o incrédulo Wade a temida Boiúna ou Cobra Grande, personagem freqüente na mitologia amazônica assim como Sacis e Caiporas. Provavelmente uma versão bem mais enfeitada e extremamente anabolizada da anaconda, uma grande serpente da região, a visão da Boiúna fornecida por Sabino a Wade nada mais é do que a cristalização através das décadas de uma das mais belas lendas brasileiras.

A mesma lenda inspirou o compositor gaúcho Walter Schültz Portoalegre a compor, nos anos 50, uma ópera tipicamente brasileira chamada Boiúna – A Lenda da Noite. Redescoberta quase meio século após sua primeira apresentação, a peça de Schültz Portoalegre é a obra que dá continuidade a um minucioso trabalho de resgate realizado pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e vai fazer a alegria da criançada e do público infantil em 12 apresentações a partir do dia 12 de outubro.

Uma obra que aspire, mesmo que humildemente, à condição de arte deve carregar sua justificativa em cada linha e aspecto. O trabalho de Walter Schültz Portoalegre carrega essa justificativa em cada grama dos 300 quilos de partituras, discos, livros, cartas, recortes de jornais e documentos diversos que formam, até agora, o acervo do compositor reunido na Discoteca Pública Natho Henn e que já é parte do projeto Memória Musical. Em breve, a obra de Schültz Portoalegre estará à disposição do público na sede da discoteca, localizada na Casa de Cultura Mario Quintana. Paralelamente, o público terá oportunidade de conferir o tratamento musical e dramático dado pelo compositor à lenda da Boiúna, na qual a Cobra Grande da Amazônia assume a identidade de uma feiticeira que esconde a Lua (Jacy na mitologia indígena) sob seu manto negro de veludo, impedindo que a noite se faça sobre a Terra e atrapalhe o reinado permanente do Sol (Guaracy, segundo a mesma mitologia). A nova montagem de Boiúna – A Lenda da Noite, que estréia no próximo dia 12 no próprio Teatro da Ospa com direção cênica de Dilmar Messias, cenários de Félix Bressan, figurinos de Vera Stédile Zattera e regência de Ion Bressan, promove o resgate de um trabalho estreado em 1955, no Rio de Janeiro, e que parece ter caído no esquecimento com a morte prematura do autor em 1957, aos 50 anos, apenas dois anos depois do lançamento da obra.

A ópera ideada por Shültz Portoalegre, diz o maestro Ion Bressan, regente titular e diretor artístico da Ospa, é destinada “a públicos dos 8 aos 80 anos”, mas parece ter sido projetada com maior ênfase para o público infanto-juvenil. O libreto assinado pelo poeta Sylvio Moreaux revela uma estrutura narrativa voltada a um público jovem enquanto a música desenvolvida por Schültz Portoalegre representa o coroamento de um longo período de pesquisa do folclore musical brasileiro. Moreaux, o autor do libreto, sugeriu o tema da Boiúna entusiasmado pelo sucesso obtido alguns anos antes, em 1951, de outra ópera com temática do folclore brasileiro. A Lenda do Irupê, com partitura de Newton Pádua, abriria caminho para uma ópera regional brasileira, que teria continuidade com o trabalho de Schültz Portoalegre. O acervo do compositor gaúcho foi recuperado por seu filho, Caiubi Schültz. “Essa obra foi recuperada quando eu ainda estava na Rússia”, lembra Ion Bressan, remetendo ao período em que estudou e regeu orquestras da Geórgia, na antiga União Soviética. Quando voltou a ser regente da Ospa, Bressan tomou contato com a obra do compositor porto-alegrense nascido em 1907. O trabalho de pesquisa que resultou na atual montagem de Boiúna – A Lenda da Noite foi feito pela jornalista Maria Luiza Paim Teixeira e pelo compositor e professor Flávio Oliveira.

Bressan diz que Schültz Portoalegre foi um compositor de grande atuação e grande produção artística. “Uma das áreas em que ele mais atuou foi a produção de cinema. Entre os anos 40 e 50, em sua produção documentada constam pelo menos 27 trilhas sonoras para filmes nacionais e estrangeiros produzidos naquela época,” recorda Ion. Além das partituras para cinema e de Boiúna – A Lenda da Noite, o compositor criou dois balês e duas sinfonias. “Há ainda uma grande quantidade de obras para grupos de câmara.” A obra de Schültz Portoalegre parece ter sido relegada ao olvido como conseqüência de um problema crônico que afeta a memória nacional como um todo, acredita Bressan. A recuperação da ópera de Schültz Portoalegre é parte de todo um projeto que quer resgatar o máximo possível das obras de compositores gaúchos e brasileiros.

Ion Bressan rege solistas de um dos elencos de Boiúna – A Lenda da Noite durante ensaio no palco do Teatro da Ospa

“Boiúna tem uma estética nacional. É toda baseada em canções brejeiras fortemente identificadas com a cultura brasileira. Nesse aspecto, é uma grande ópera”, discorre Ion Bressan, embora admita que o trabalho de Schültz Portoalegre esteja mais próximo da opereta em vários outros aspectos. Com menos de uma hora de duração, a obra em um ato tem “um tom até certo ponto cômico e elementos de história infantil” que, associados a momentos de diálogos falados entre as partes cantadas, levam a essa analogia com a opereta. A montagem que vai ser vista em 12 apresentações (veja quadro) tomou mais de um ano de preparação até a encenação deste mês. “A revisão do manuscrito, a reedição do material, a pesquisa estética e os ensaios do elenco são partes de um processo que começou em maio do ano passado”, informa o maestro. Para completar a produção, Bressan procurou reunir um elenco da maior qualidade possível.

A exemplo do treinador da seleção brasileira de futebol, o maestro também convocou seus “estrangeiros”, ou seja, artistas nacionais que estão atuando fora do Brasil. É o caso do tenor Carlos Rodriguez. Para conseguir realizar o número de encenações planejadas, sempre com duas a cada dia, ele também teve de convocar dois elencos. “Mesmo sendo uma peça de curta duração para o gênero, não dá para exigir que os mesmos cantores façam duas encenações ao dia. Por isso estamos utilizando dois elencos.” Outros nomes de destaque, além de Rodriguez, são os sopranos Carla Mafioletti e Samira Moreira e o também tenor Fernando Dabone.

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