Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 056 | Ano 6 | Out 2001
NEI LISBOA

Pelo bom senso

Nei Lisboa

Que fase, a deste mundinho, terrores e imagens pra não se esquecer tão cedo. Os sinais de que algo assim estava por acontecer eram bastante evidentes, a tensão entre a riqueza e a miséria, entre o poder e o abandono, havia atingido limites insuportáveis. Mas eu sinceramente acreditava que o caminho da razão, do diálogo, fosse ganhar a frente e impedir os alucinados do planeta de encaminhar nossas vidas para mais um século de violento apartheid humano. Agora é sacudir a poeira e lutar para reverter esse quadro, o que não há de ser nada fácil.

Tudo o que de pior pode nos oferecer o arsenal de insensatez dos Bushes dessa vida, dos guardiões do Império, será agora justificado e respaldado por uma maciça indignação popular no Primeiro Mundo, pela ausência de um direito internacional efetivo, pela solidariedade aterrorizada dos países ricos ocidentais, de seus aliados e até de alguns notórios desafetos. E o que se pode esperar do outro lado, de insanos fundamentalistas suicidas, se não que reeditem seus ataques? O mundo islâmico, um quarto da população do planeta, sentir-se-á na prática acuado e atacado, por mais que a retórica o poupe, então não é difícil de imaginar que uns tantos troquem o estudo do Alcorão por um curso de pilotagem aérea. Também não falta, mundo afora, quem endosse de forma indireta a tese do Grande Satã, dizendo que os norteamericanos tiveram o que mereciam, que estavam pedindo, etc. Aliás, é o que mais se ouve por aqui, junto com piadinhas trágicas que o bom humor do brasileiro absolve. Mas convém revisar essa tese, em especial àqueles que moram em andares altos.

O que aconteceu em Nova Iorque é na verdade, simplesmente e sem ressalvas, o horror. E é de se lamentar também a hora, justamente quando movimentos internacionais de contestação tentam se organizar, procurando agir dentro de uma atmosfera de pressão legítima e pacífica, de discussões sobre a globalização, sobre a questão racial, de construção de um consenso sobre a indispensável correção de rumo nos caminhos da humanidade. Com certeza essas manifestações passarão a ser rotuladas na mesma prateleira do terror e violentamente reprimidas. Numa hora como essa, o próximo Fórum Social, em Porto Alegre, pode ser o espaço certo para que o bom senso volte à ordem do dia, se conseguir manter-se desintoxicado de antiamericanismos caricatos – e de agentes do FBI.

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