Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 057 | Ano 6 | Nov 2001
NEI LISBOA

América esquina com Nova Iorque

Estou coberto de poeira, como tudo o mais a minha volta. A confusão e a desordem imperam, e entre pedaços de mobília, roupas, bugigangas variadas, pode-se reconstituir apenas na imaginação o que um dia foi um lar. Não há água nem comida. Não muito distante, ouvem-se os ruídos e implosões de uma destruição presumida e anunciada. Não é uma guerra, mas bem parece. Quem já fez uma mudança tendo que, ao mesmo tempo, mandar consertar o banheiro da casa nova – então sabe do que eu estou falando.

Deixei o Bom Fim mais uma e pela enésima vez, talvez tantas quantas deixei de fumar, quase sempre sem muita saudade. Andava há meses procurando por silêncio, por uma casinha de aluguel admissível, com espaço pro cachorro fazer seu trotuá. Achei. Muito simpática, localização perfeita, tudo muito bucólico e de tamanho perfeito para um solteirão baixinho. Só me preocupa a segurança, não por questões de grades, alarmes, vizinhança, não, mas pelo endereço: Av. América.

Brincadeira? A essa altura do jogo, sei não. Todos os malucos do universo devem estar inspiradíssimos. Não é preciso ser fundamentalista de nenhum lado, basta ter um parafuso frouxo, na Nova Zelândia ou em Nova Trento, pra sentir-se autorizado pela realidade a cometer barbaridades. O sujeito olha aquelas imagens das torres caindo, olha o Bush bombardeando hospitais cirurgicamente, e se pergunta “Ah, mas isso pode?! Então também quero!” E vai lá explodir a fruteira da esquina. Vai de avião jogar uma bombinha numa autoestrada, como já fez um, dia desses. Vai colocar um envelope com pó branco no correio, mesmo sendo aspirina, brincadeira sem graça que já pegou por aqui.

Isso sem contar os alucinados com causa, comandos e armamentos – o mundo da violência suburbana brasileira, por exemplo. É dar uma olhada nas letras do hiphop e perceber que a indignação está beirando o incontrolável. O tal do 11 de setembro mais que tudo ampliou as fronteiras da imaginação de todos nós. E com o pessoal que já tava pro crime, como é que fica? Se houvesse por aqui um alvo identificado como o Grande Satã, motivação é que não faltaria para alguma ação estupidamente espetacular, nem que fosse pra aparecer por um minutinho na CNN.

Pode falar, diz, me chama de arauto da paranóia. Mas realmente não gostei do endereço. E não vou dar o número, só uma dica: Av. América, quase esquina com a rua Nova Iorque.

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