Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 057 | Ano 6 | Nov 2001
MOVIMENTO

Venda direta ao consumidor

Um dos projetos pioneiros no Estado é o de Ipê, na serra gaúcha, que se destaca pela biodiversidade. Desde 1985, os agricultores produzem desde milho, trigo e feijão, até maçã, uva e tomate, passando por alho, cenoura, beterraba e alface. Atualmente, são cerca de 100 famílias de pequenos produtores que, toda a semana, enchem seis caminhões com 30 toneladas de alimentos para vendê-los nas feiras ecológicas da capital. “A grande vantagem é eliminar o intermediário. O agricultor leva o produto diretamente ao consumidor”, diz Neudi Balancelli, 40 anos, dono de uma propriedade de 23 hectares. Em Ipê, a tradição ecológica ajuda até a incentivar o turismo. Na sexta-feira à tarde, quando os caminhões são carregados, caravanas de agricultores vindas de outras áreas do Estado e também de Santa Catarina se deslocam para o município. “A gente dá umas aulas de ecologia para o pessoal. Faz um passeio até as propriedades num pequeno roteiro turístico”, gaba-se Balancelli.

Outro exemplo que chama a atenção é o de Sobradinho. A partir de 1998, 200 famílias de lavradores romperam com a monocultura do fumo para plantar de tudo um pouco – batata, tomate, cebola, alho, feijão, pêssego, laranja, uva e até plantas medicinais. Ganharam reconhecimento nacional. Natalino Wiedenhoft, 43 anos, presidente da Cooperativa Agropecuária Centro-Serra, em agosto, fez sua primeira viagem de avião para receber o Prêmio Ambiental von Martius, concedido pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, em São Paulo. Este mês, voará até Florianópolis para a entrega do Prêmio Expressão de Ecologia, da Editora Expressão.

A adesão à agricultura orgânica não é uma decisão fácil. “As multinacionais do fumo dão tudo que é incentivo para o agricultor se intoxicar.” O produtor parou de aplicar o veneno depois de baixar hospital com febre alta e dor no corpo, sintomas – segundo Wiedenhoft – de intoxicação causada por pesticida. “A gente tem que apanhar para aprender. Antes, o agricultor queria largar a plantação de fumo, mas não tinha alternativa. Agora tem”, afirma ele. Além de comercializar os alimentos ecológicos na própria região, o pessoal de Sobradinho coloca os produtos nas prateleiras do supermercado Dois Irmãos, de Santa Maria. No momento, negocia com o grupo português Sonae, dono das marcas Big e Nacional. A rede confirma o interesse no negócio e aposta na expansão do mercado. Os orgânicos representam hoje 3% dos hortigranjeiros oferecidos ao consumidor pela Sonae – no Paraná e Santa Catarina, o percentual é de 6%. Seguindo o exemplo dos agricultores de Três de Maio, Sobradinho também sonha com o mercado externo. “Há interesse de empresas da Holanda e da região da Catalunha, na Espanha”, adianta Wiedenhoft.

O aval dos produtos ainda é feito na base da confiança entre produtores e consumidores

Foto: René Cabrales

O aval dos produtos ainda é feito na base
da confiança entre produtores e consumidores

Foto: René Cabrales

Certificação é fio do bigode

Outra preocupação do consumidor é ter certeza que o alimento está, de fato, livre de venenos. Os produtos exportados ou comercializados de um estado para o outro recebem um selo de certificação dado por empresas como a Ecocert, que monitora a soja de Três de Maio. Mas a comercialização em pequena escala obedece a normas imprecisas. Na maior parte dos casos, a relação entre produtor e consumidor é no fio do bigode. Algumas cooperativas defendem a idéia de uma rede de geração de credibilidade – agricultores que têm a confiança dos consumidores numa região avalizariam produtos de outra área. Será suficiente? “À medida que a produção aumentar, será preciso criar certificadoras de menor porte, voltadas para o mercado regional”, diz Gervásio Paulus, assessor técnico da Emater.

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