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Nº 060 | Ano 7 | Abr 2002
EXTRATO
EXTRATO

As imagens e os textos vorazes de Manguel

César Fraga
O escritor argentino é ensaísta e autor de obras de ficção

O escritor argentino é ensaísta e
autor de obras de ficção

Certa vez, um grão-vizir da Pércia carregava sua biblioteca enquanto viajava, acomodando-a em quatrocentos camelos treinados para andar em ordem alfabética. Em outra ocasião, houve uma lista de preços das prostitutas de Veneza, que anunciava uma profissional autodenominada amante da poesia, pois carregava para os programas, obras de Virgílio, Homero e Petrarca.Estes são apenas alguns recortes de A História da Leitura (Cia das Letras – 404 páginas), que argentino Alberto Manguel publicou em 1996, e que continua sendo fundamental. O autor faz um relato apaixonado e não acadêmico da trajetória desse hábito, a leitura, que é tão caro para alguns e raro para outros. O autor utiliza-se do filtro de quem também é leitor, e, conforme se sabe, voraz. Tudo pesquisado e com referências bibliográficas.

 

Durante a sua estada em Passo Fundo, por ocasião da 9ª Jornada de Literatura, o escritor disse ao Extra Classe que não era muito afeito à leitura na tela do computador. “Por que usar a tela para ler, se é um trabalho que implica em lentidão e profundidade?”. Para ele, a tecnologia deve ser usada para se expressar. Dá o exemplo da Internet, que apresenta problemas de relações sociais graves entre crianças, por ser uma tecnologia muito solitária.

É justamente sob essa visão, de lentidão e profundidade que Manguel discorre sobre o universo da leitura com leveza e precisão, não raras as vezes, de forma divertida, sem nunca perder a seriedade. Mas como uma coisa leva a outra, um livro também leva a outro. Mais recente, de 2000, Lendo Imagens (Cia das Letras, 354 páginas) do mesmo autor, também recorta a história, mas desta vez, não para ler palavras, mas para transformar imagens em textos e comentários.

Manguel escreve: Se todo retrato é um espelho, um espelho aberto, então nós, os espectadores, somos por nossa vez um espelho para o retrato, emprestando-lhe sensibilidade e sentido. Ele compara a nós, com o soldado que vê sua face moribunda refletida no escudo. Mas sua própria face, na sua humanidade, reflete o nascimento, o crescimento e a morte do mundo em uma metáfora perfeita da realidade. Vivemos em um mundo de imagens e é preciso decifrá-las, caso contrário, a esfinge nos devora.

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