Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 062 | Ano 7 | Jun 2002
NEI LISBOA

Zé Serr…oops! Homer Simpson.

Nei Lisboa

Nirlando Beirão, colunista da ótima Carta Capital, ao comentar a reação desmedida que o episódio de Os Simpsons ambientado no Rio de Janeiro provocara, saiu-se com essa maravilha: “Imagine só quando alguém vier a perceber que Homer Simpson, doce bestalhão, é a cara de José Serra.”
Divertida e exata observação das fisionomias, a cara de um é o focinho do outro. Mas não sei se a comparação resiste no que tange às personalidades do paizão careca do seriado e do candidato à presidência da república.

Edição anterior da mesma revista exuma um episódio da campanha de 1988, em que o então deputado federal Flavio Bierrenbach define o ex-amigo e correligionário José Serra como “cruel, corrupto, prepotente, capaz de tudo na sua sede de poder”. Também o sociólogo Emir Sader, ao prefaciar o livro “Como vota o brasileiro”, de Jorge Almeida, não mede palavras: “…o temível e inescrupuloso José Serra, responsável já pelo encerramento da carreira de tantas figuras dentro do então PMDB…”.

Sinceramente, muito me surpreendi com essas palavras. Sempre vi o Serra como um burocrata insosso, de discurso lento e pouco convincente, mas nunca com essa ferocidade que lhe atribuem. E já estava dando a sua candidatura por moribunda, depois do escândalo Ricardo Sérgio e das últimas pesquisas eleitorais, certo de que seria substituído em breve por alguém mais cabeludinho e carismático. Tipo o Tasso Jereissati, digamos, que de quebra agregaria com mais facilidade tanto o PMDB governista quanto o PFL arrependido.

Mas, em questão de poucos dias, o cenário á é bem diferente. As denúncias envolvendo o ex-tesoureiro de campanha desaparecem do noticiário sem sequer arranhar a empáfia do candidato. As pesquisas são tidas como prematuras e inócuas, senão comemoradas como repetição de outras campanhas presidenciais onde Lula caiu e perdeu nos últimos meses. O PFL já prepara a volta dos que nunca foram, rapidamente ciente de que não existe como partido fora do poder. E o PMDB, embora se definindo por Rita Camata, acena com a figura de Pedro Simon, prestes a abrir mão de seu passado guerreiro por uma vaguinha franciscana de candidato à vice-presidência.

Pelo visto, é mesmo com Serra que eles vêm. E nessa insistência, nessa confirmação de uma candidatura tão questionável e aparentemente fragilizada, aí talvez possa se avistar o rastro da truculência a que se referem Bierrenbach e Sader. Aquilo que, na opinião pública, ao menos por enquanto, não consegue se impor em nível sequer razoável, nos bastidores da campanha mostra um poder de fogo que sugere muitas cartas na manga, muita grana, muita munição pesada e pouco respeito por evidências e adversidades que lhe atravessem o caminho. José Serra pode ter a cara de Homer Simpson, mas preparem-se para um coração de Arnold Schwarzenegger, para episódios sem graça nenhuma e para uma disputa eleitoral como nunca se viu nesse país.

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