Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 063 | Ano 7 | Jul 2002
ELISA LUCINDA

Do inventário da boca

Elisa Lucinda

À Marly Lages

Minha avó queria cortar minha língua quando eu tinha só cinco, por motivo de palavrão.
Mamãe chegara a tempo e me salvara
da violência consumável.
Minha avó esfregava
urinados lençóis meus
na minha cara
na minha boca
Minha avó, coitada,
era muito religiosa
mas nunca ligara uma coisa à outra
Deus pra ela não estava
em amar com carinho as crianças
respeitá-las
encaminhá-las
com afeto e clareza
para a vida crescida.
Dona Maria Antonia
era uma de minhas avós
e fora a primeira vítima do rancor
que eu conheci.
Era severa rezava muito
e tinha muito incômodo
de a gente ser feliz.
Mandava engolir o choro
depois que batia,
ordenava que o
neto oprimido
escolhesse o galho da árvore
sob o qual apanharia,
beliscava nosso corpinho
no meio da missa
quando a gente desobedecia:
rir não podia, falar menos ainda
assobiar ou mastigar hóstias
era inferno na certa
e acordar achando na vida
um gosto bom,
como pode? Ora esta!
Eu pequenina,
rezava pra Deus do céu me proteger
de eu fazer xixi na cama sem querer;
quem manda nisso, Pai do céu?
Meu aflito coraçãozinho perguntava.
E a voz gravada a responder:
“Se acordar molhada, você vai ver!”
Então era aquela tensão:
não beber nada depois das seis
ir ao banheiro mil vezes
até ficar seca de vez.
Dormia-se.
Capetas nos sonhos
imagens de perseguições
prazer esfincteriano de se largar
ali mesmo,sem lei,
natural,
tão perseguido que era na vida real.
E o despertar era um “tinha chovido” na cama
tão inesperado, tão temido,
tão desesperado, tão vaiado,
que pra quem gosta tanto de aplauso
acordar assim não era
mesmo uma glória.
Memória.
Minha avó esfregava
meus lençóis urinados na minha cara
Ver se eu parava,
na minha boca,
a louca,
ver se me educava.
Quantas vezes ela fez isso?
– a terapeuta perguntou.
Eu respondi:
incontáveis.
E quando eu disse incontáveis,
uma lágrima antiga viscosa, lodosa,
viera estrear veterana e nova
na minha mesma cara.
Copiosamente me encachoeirei
da borda dos olhos para o todo.
Nunca chorara por isso
depois de grande.
E quanto tempo estivera esse isso nos meus recônditos,
na traiçoeira esteira do inconsciente,
surdamente,
só fazendo estragos?
Pois no divã
deixei esse lixo
e só por isso posso aqui hoje sobre isso meditar
e principalmente posso dizer com a mesma velha boca esse poema
sem engolir o choro
e sem ter medo de chorar.

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