Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 064 | Ano 7 | Ago 2002
CULTURA

A história cantada

Ana Esteves

Bota o retrato do velho outra vez. Bota no mesmo lugar. O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar. A letra da canção Retrato do Velho composta no início dos anos 50 por Haroldo Lobo e Marino Pinto, que comemorava a volta de Getúlio Vargas ao poder, é uma das evidências de que sempre a música ilustrou, seja por meio de ironia, poesia ou metáfora, alguma fase da nossa historiografia. Partindo desse princípio é que surgiu o livro Brasil Século XX – Ao pé da letra da Canção Popular ( Ed. Nova Didática, 200 páginas), lançado recentemente pela professora de geopolítica Luciana Salles Worms e pelo professor de português Wellington Borges Costa, o Wella, ambos de cursos pré-universitários de Curitiba. “Trata-se de um livro de História do Brasil do século XX, no qual a narrativa utiliza como prova documental uma das mais expressivas manifestações culturais da nação brasileira: a sua música”, explica Wella.

De acordo com Wella, o livro é fruto de experiências em sala de aula. “Há alguns anos, passou a constar, no programa da prova de história dos grandes vestibulares, a cultura popular brasileira dos anos 50, 60 e 70. Em função disso, começamos a ministrar palestras recheadas por imagens e farto material fonográfico, e foi justamente a eficiência e a aceitação de nossa abordagem que nos levou a transformá-la em livro”, relembra o professor.

Brasil Século XX está dividido em cinco períodos, sendo que o primeiro tem como centro a Revolução de 1930. “Explicamos os trinta primeiros anos do século, auge e decadência do governo das oligarquias e os 15 anos subseqüentes até o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, quando se solidifica a nacionalidade brasileira com importante contribuição do rádio de uma maneira geral e da música de modo especial”, explica Luciana. O nome do capítulo, “Maldito Violão”, surgiu inspirado na época, em que portar o instrumento dava cadeia, pois o samba era marginalizado. “Poderíamos dividir o livro de várias maneiras, mas resolvemos recorrer a metonímias e criamos os títulos dos capítulos subordinados à estética do período em questão”.

O segundo período compreende os anos de 1945 a 1961 – da renúncia de Getúlio Vargas à de Jânio Quadros. O centro estético aqui é o movimento da Bossa Nova, seus antecedentes e seu apogeu, durante o governo de Juscelino Kubitschek. “É “Bendito Violão”, pois a Bossa Nova conferiu um status de elegância ao instrumento”, diz a professora.

Mas, em nenhum outro período da história, a música foi tão determinante para a definição de posturas ideológicas, como no que vai da renúncia de Jânio Quadros (1961) ao decreto de anistia aos exilados políticos (1979). “Estudamos a década de 60 com o cenário musical dividido em três: a música de protesto, a Jovem Guarda e o Tropicalismo. E na década de 70, a Contracultura e a resistência à censura”, diz Wella. É a fase “Maldita Guitarra”, já que o instrumento era considerado pelos adeptos da música de protesto, símbolo de alienação e subserviência ao imperialismo norte-americano.

A partir de 1980, quando inicia o capítulo “Bendita Guitarra” – em função da explosão do rock nacional –, são abordados temas como o pluripartidarismo, o movimento pelas eleições diretas, em 1984, até a eleição de Fernando Collor em 1989. “O quinto e último capítulo vai do impeachment de Collor, às duas eleições de Fernando Henrique Cardoso, momento de muitas tendências musicais, em que muito se tem falado em Globalização”. O capítulo é intitulado “Videoclipe e MP3”.

O livro conta com inúmeras canções. Entre elas, Wella destacou O Bonde São Januário (Ataulfo Alves e Wilson Baptista), Presidente Bossa Nova (Juca Chaves), Ouro de tolo (Raul Seixas), Brasil (Cazuza, George Israel e Nilo Romero) e Pela internet (Gilberto Gil), que fecha o ciclo do século, estabelecendo intertextualidade com a canção Pelo telefone, que também aparece no primeiro capítulo.

Arte como recurso didático

Em função dos temas trabalhados no livro – cultura, música e história – os autores o qualificam como uma obra que pode ser apreciada pelo público em geral. “Não tivemos a preocupação e nem mesmo o interesse de que fosse uma linguagem acadêmica. Pelo contrário. Nossa militância pedagógica sempre se deu em função do vestibular. Sempre trabalhamos em cursinhos, e buscamos uma linguagem bastante descontraída”.

Os autores revelam ainda já terem estudado algumas possibilidades de dar prosseguimento à idéia. “Uma delas seria amplificar a pesquisa de algum capítulo do livro em volume único. Outra, seria a História temática, tão em voga hoje em dia. Um exemplo que nos ocorreu à época da Copa do Mundo foi elaborar alguma coisa unindo música e futebol, mas tudo é muito incipiente ainda e preferimos esperar para conferir a aceitação desse livro”, afirma Luciana. A professora conta que a idéia de usar a arte para ilustrar disciplinas escolares tem feito muitos adeptos. “Temos conhecimento, por exemplo, de professores de Física que utilizaram a letra da canção “Índios”, do Legião Urbana, para tratar de ótica e reflexão no espelho. Ou professores de Geometria que se servem de telas de Picasso. Há ainda professores de Português, que lançam mão de sinfonias para demonstrar a recorrência de um tema em uma redação, ou de pinturas para ilustrar a estética de um período literário que se está estudando. O fato é que a arte e a ciência não se excluem, podendo uma estar a serviço da outra”, completa.

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