Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 065 | Ano 7 | Set 2002
L. F. VERÍSSIMO

A pantomima de Brasília

Luis Fernando Verissimo

Você, eu não sei, mas eu tenho feito o possível para acalmar o mercado. Não há, é verdade, muito que se possa fazer. Me limito a tentar não derrubar bandejas ou produzir outros ruídos inesperados, e você jamais me verá chegar por trás do mercado e gritar “Moratória!” no seu ouvido. Mas desconfio de que estes cuidados têm tão pouco efeito no mercado quanto a iniciativa da grande imprensa de saudar os US$ 30 bilhões do FMI como a nossa redenção e os encontros do presidente com os candidatos à sua sucessão como uma garantia de comunhão e continuidade, ou de que aqui ninguém é louco. O mercado continua nervoso.

A cobertura dos inéditos encontros do Éfe Agá com os candidatos em Brasília só mostra, mais uma vez, como é fácil transformar pseudo-eventos em notícia, e História, quando interessa ao poder e a imprensa colabora. Mas se nas reuniões só se disse o óbvio e se elas não serviram para mudar a cabeça de ninguém ou acalmar o mercado, foram importantes para o RP do governo, que merece. O Éfe Agá quer deixar como a melhor lembrança da sua administração o que ela teve de melhor: sua própria bonomia e civilidade. A grande notícia do pseudo-evento de Brasília não é novidade e não é mentira: durante oito anos tivemos na Presidência um homem decente que agora tenta transformar um ato também inédito, no Brasil dos últimos anos – a transferência do poder de um presidente eleito para outro –, numa lição de tolerância e democracia adulta. A pior notícia é que esta educação política não tem nenhuma aplicação prática, no momento. Infelizmente, não é o RP que decide o futuro da nossa economia, portanto o nosso. O que houve em Brasília foi uma bela e inspiradora pantomima, mas uma pantomima.

Pensando bem, nossa presente desesperança vem um pouco desse desencontro entre boa imagem e conseqüência. O Éfe Agá e o Malan, outro homem fino e bem-intencionado, são os antigenerais primários, os antipolíticos caricatos, os anticucarachas, e mereciam outra consideração. Mas o mercado não sabe distinguir estas coisas. Ainda mais no seu atual estado de nervos.

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