Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 066 | Ano 7 | Out 2002
L. F. VERÍSSIMO

Política americana

A centro-esquerda manteve o poder “dort, dort” (ali, ali) na Alemanha, com a vitória do SPD de Schroeder. Já tinha vencido, recentemente, na Suécia. O mundo não está, afinal, despencando para a direita. Talvez só deslizando. Qualquer análise de tendências eleitorais na Europa tem que descontar a questão dos imigrantes, que atravessa fronteiras políticas e fura interpretações ideológicas. Nem todo o voto antiimigrante é fascista e nem todo voto na centro-esquerda é necessariamente tolerante com os ex-colonizados de várias cores que hoje enchem as calçadas das ex-metrópoles, oferecendo Vuitton falso e sentimento de culpa. Com relação à invasão, direita x esquerda, na Europa, é uma briga entre xenófobos e apenas preocupados. De qualquer maneira, na Suécia e agora na Alemanha a maioria preferiu manter a cabeça, mesmo precariamente, no lugar.

Mas toda a política no mundo se tornou supérflua com a decisão americana de assumir a sua prepotência e julgar o resto da humanidade não pelos desafios que possa representar a seus interesses, o que é a função da política externa de qualquer país, mas pela sua posição diante da prepotência assumida. Uma Fortaleza América declarando abertamente que o seu ultraje lhe dá o direito de atacar quem quiser, quando quiser e determinando que quem não é cúmplice é inimigo é, em termos apenas de fria curiosidade histórica, uma potência inédita. A Roma imperial, a Espanha das conquistas, a França de Napoleão, a Alemanha nazista e as rússias do Stalin não são precedentes adequados para os Estados Unidos propostos por Bush. Nenhuma tinha a superioridade técnica para impor sua vontade com a mesma força, ou uma cultura nacional tão impregnada pela idéia da própria excepcionalidade. Na medida em que é a reação dentro dos Estados Unidos à mistura de paranóia e chauvinismo que se seguiu ao 11/9, e que ameaça tanto leis e direitos internos quanto presumidos inimigos externos, que determinará onde acaba esta loucura, a política americana passou a ser a única que conta. E todos os outros fatos políticos do mundo adquiriram a pouca importância relativa de uma eleição para vereador em Lá Vai Bola, município da Grande Cafundó.

Ou então é o contrário: toda a política do mundo passou a ser, de um jeito ou de outro, política americana. Até a de Cafundó. Mesmo a pálida reação do Schroeder à compulsão americana de bombardear o Iraque ajudou na sua vitória. E basta ler o que escreve a respeito de uma possível vitória do PT nas eleições presidenciais brasileiras a imprensa reacionária americana, e seus repetidores aqui, para concluir que poderemos muito bem estar elegendo um alvo natural para futuro ataque especulativo. Não do capital financeiro contra o real, mas dos B-52 contra Brasília e os presumíveis locais onde o Lula estará construindo suas bombas nucleares com o dinheiro do narcotráfico.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS