Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 067 | Ano 7 | Nov 2002
NEI LISBOA

Valeu, Roberto

Nei Lisboa

Vida de artista é fogo. Estou chegando de Pelotas, ótimo show no belo Sete de Abril, de lotação esgotada. Mas ao sair do hotel para o teatro, ontem à tarde, um pé já fora da porta, deparei com dezenas de pré-adolescentes avançando aos gritos em minha direção, declarando que eu era lindo e gostoso e com ares de que iriam me despir ali mesmo na calçada. Foi o que me pareceu, até que resolvi olhar pra trás e aí, bom, aí descobri que a Globo está gravando uma minissérie na cidade. Porque o motivo da tal histeria era um desses atores novinhos em folha da emissora, que vi saindo do elevador para o saguão. Foi, aliás, a última coisa que vi. Atropelado pela horda borbulhante de ninfentas, só voltei a mim quando uma senhora, presumivelmente a zelosa mãe da última a me pisotear, apresentou-me a chave do seu carro para que eu o manobrasse até a garagem do hotel.

Não dou a mínima atenção à televisão, sou um ouvinte eventual do rádio e um leitor voraz de qualquer coisa impressa que me caia nas mãos, de jornais e revistas a cardápios de telepizza. Por isso sempre renovo a surpresa com o poder que essa mídia alcançou no Brasil, desde há muito tempo. Toneladas de matérias escritas sobre qualquer assunto não repercutem mais do que trinta segundos de aparição no horário nobre da TV. Personagens das novelas e seriados fazem parte da vida de telecidadãos tanto quanto seus familiares e vizinhos, e duvide-se de quais seriam menos reais ou imaginários. Quem, como eu, não assistiu um único capítulo de Esperança, pode então perdê-la de vez, se pensa que vai conseguir se integrar aos assuntos do dia-a-dia da população.

É claro que nem tudo é filtrado ali, o mundo é bem maior do que o espaço que o plim-plim pode nos oferecer entre comerciais. Seria inocência crer que tudo em nossas vidas possa ser manipulado em ilhas de edição, por gente do mal, com chifrinhos e rabos pontudos. A televisão, no mais das vezes, apenas reflete e representa desejos alimentados pela população em suas vidas de carne e osso. Mas, se não pode enganar a todos o tempo todo, o alcance dessa representação permite que se manipule a opinião pública em instâncias pontuais com certa facilidade. Uma pequena distorção ou meia-verdade pode produzir danos irreversíveis antes que a realidade dos fatos venha à tona.

Por isso quero aqui fazer um agradecimento cordial, mesmo ciente de que ele jamais irá recebê-lo, já que essa coluna não é retransmitida em cadeia televisiva: obrigado, Roberto Marinho. Obrigado por manter-se razoavelmente eqüidistante nessas eleições, que é o que me dizem que aconteceu, e o que posso também intuir pela estupenda votação que o Lula há de receber – escrevo antes do último debate, mas duvido que algum fato novo invalide esse agradecimento. Obrigado por não ceder à tentação que deve ter sentido de levar ao ar uma história qualquer sobre um operário comunista despreparado, instigado por sanguinários invasores de terra que conduziriam o país à ruína. Obrigado, inclusive, pela Esperança, que esta já está eleita. Agora, mal posso esperar pela próxima novela.

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