Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 069 | Ano 8 | Mar 2003
EDUCAÇÃO

Cristovam Buarque: dobrando à esquerda

Jéferson Assunção

Uma cena insólita num palco emblemático. Poderia ser definida assim a palestra de abertura do 2º Fórum Mundial de Educação (realizado de 21 a 23 de janeiro, em Porto Alegre), proferida pelo ministro da Educação, Cristovam Buarque. Insólita porque era a primeira vez em muitos anos que uma multidão de educadores e estudantes aplaudia entusiasticamente um ministro de Estado. Emblemático porque, no imaginário dos gaúchos, o Gigantinho não deixa de remeter às assembléias de professores denunciando exatamente as linhas políticas do Ministério da Educação.

Na noite de 21 de janeiro, representantes de mais de cem países acomodaram-se nas arquibancadas do ginásio para assistir à palestra do ministro da Educação do governo Lula. Sabiam de antemão que Buarque seria a grande estrela do FME. Afinal ele é o responsável por comandar a educação em um governo que atrai a atenção do mundo todo, e que “promete” fazer uma revolução também na educação. Pelo menos é essa a tônica da retórica que tem chamado a atenção de brasileiros e estrangeiros. Por isso, não foram poucos os europeus, norte-americanos, latino-americanos etc. que se emocionaram com a calorosa recepção a Buarque.

Antes da palestra, o ministro conversou com os jornalistas e antecipou alguns dos temas que levaria à platéia do Fórum, aprofundando alguns deles. Leia a seguir o conteúdo da entrevista, agrupado pelos assuntos sobre os quais o ministro discorreu.

As metas – “Os três grandes eixos de propostas que estão sendo analisadas neste momento pelo presidente da República, compatíveis com o programa de governo, são, em primeiro lugar, o grande programa nacional pela abolição do analfabetismo em todo o País no prazo de quatro anos. Em segundo lugar, a implantação de uma escola que seja compatível com as necessidades deste século XXI. Em terceiro lugar, a construção de uma nova universidade no Brasil, que seja compatível com à realidade. Uma universidade que seja capaz de acompanhar a velocidade como o conhecimento é feito hoje e que também esteja sintonizada com as exigências éticas de um mundo com tanta exclusão. Tudo isso deve ser feito acompanhando as exigências emergenciais de cada um dos setores da educação. No que se refere à escola ideal para o ensino básico, com a realização de reuniões com todos os secretários estaduais e com 1.100 dos secretários municipais. Aí, juntos, construiremos essa escola. Não haverá a escola ideal se não houver o envolvimento dos prefeitos e dos governadores. Também estamos realizando encontros com os reitores das universidades federais para discutir duas coisas. A primeira: o que a universidade brasileira pode fazer para construir um novo Brasil? A segunda: o que o governo tem que fazer pela universidade brasileira? A partir dessas reuniões com os reitores, nós vamos chamar um grupo que formulará o projeto todo e em outubro vamos fazer um grande encontro nacional, com apoio da Unesco, para debatermos como será a universidade do Brasil pelos próximos 30 anos. A última reforma da universidade brasileira foi feita pelos militares, a Mec-Usaid. Mas o mundo mudou muito de lá para cá e mudou sobretudo o governo que dirige o Brasil. Está na hora de termos um novo projeto para a universidade, sem deixar de lado os aspectos emergenciais necessários ao atendimento imediato das carências da rede federal”.

Alfabetização – “A idéia é falar com os que quiserem ser alfabetizadores, para um trabalho não necessariamente voluntário. Quem quiser se envolver por conta prórpia, pode. Se o universitário quiser fazer, acho que vai ser ótimo para a formação dele, mas os secundaristas também podem ser alfabetizadores. E os professores da rede pública, que quiserem, poderão ser alfabetizadores à noite. São hoje 1,5 milhão de professores e três milhões de universitários e professores universitários. O que quer dizer 4,5 milhões de pessoas perfeitamente hábeis para serem alfabetizadoras. E a gente só precisa de 72 mil pessoas ao longo de quatro anos, para alfabetizar 20 milhões. Não é muito… Tirar 70 mil de 4,5milhões não é muita gente. Pagando um pouco, este pessoal virá”.

Métodos de alfabetização – “O método será absolutamente livre. Quem tiver o seu método, use… Eu fui estudante de engenharia e era alfabetizador, num programa organizado por Paulo Freire. Ele me convidou, não pessoalmente, mas eu participei. E eu acho que ele continua sendo uma referência, mas não só ele. Nós temos de ser livres. Alfabetização visa à liberdade. Ela não pode começar sob o signo do autoritarismo de qualquer um dos métodos existentes. O método pedagógico? A gente quer que se desenvolvam muitos. Se amanhã inventarem uma injeção que alfabetiza, a gente vai comprar a injeção.”

Financiamento – “O Brasil abandonou a educação porque começa discutindo como financiar. A gente tem de começar discutindo o que fazer, depois como fazer, depois, os recursos de que precisa, depois o dinheiro. Agora, mesmo sem nenhum recurso de fora, o governo precisaria de R$ 1,5 bilhão por ano para a alfabetização. E R$ 1,5 bilhão é 0,1% da renda nacional. É um em cada mil reais que este país produz. Será que o Brasil não está disposto a pegar um em cada mil reais e usar para alfabetização? Custou mais caro erradicar a escravidão. E o povo brasileiro, aliás a elite brasileira, em 1888, pagou para abolir a escravidão. Será que não vamos pagar, agora, para abolir o analfabetismo? É muito pouco o que vai custar isso.”

Dobrar à esquerda – “O presidente Lula tem dito que nós vamos governar dobrando à esquerda. Isso tem sido dito há muitos anos pelo meu partido e significa políticas sociais que consigam erradicar a exclusão social no Brasil. Houve um tempo em que dobrar à esquerda era construir a igualdade. Hoje a expressão é mais modesta: dobrar à esquerda é não haver a exclusão. Todos comerem, como é o programa fome zero. Todos concluírem o segundo grau com qualidade. E só teremos isso com educação mil. Termos um sistema de saúde que atenda de maneira muito próxima a todos os brasileiros. Não como é hoje. Alguns com excelentes sistemas de atendimento médico e outros com péssimos. E todo mundo, sem exceção, ter um lugar onde morar com água potável, coleta de lixo e esgoto. Isso é dobrar à esquerda: fazer com que todos os brasileiros tenham isso, mesmo que num prazo possível.”

Bolsa-escola – “Primeiro, a idéia é de R$ 65,00 mensais por família. Sendo que R$ 45,00 sairiam do governo federal, mais dez reais do Estado e dez reais do município. A diferença é de cinco vezes mais, em relação aos R$ 15,00 atuais”.

Enem e Provão – “Nós somos radicalmente a favor da avaliação, tanto que queremos avaliar até mesmo a avaliação. É preciso lembrar que o ministro Paulo Renato deixou uma marca positiva ao instituir métodos para isso, utilizando até mesmo um formato que eu próprio usava quando era reitor da UnB, em 1986. E melhorou bastante. Ele avançou nisso. Agora, nós vamos adiante. Estamos trabalhando. Não vai haver interrupção do processo. O que a gente fizer o será para melhor. Temos de avaliar mais rigorosamente, mais amplamente, e de uma forma mais eficiente.”

Vestibular – “Nunca se falou em eliminar instrumentos de ingresso à universidade. Nunca a universidade será capaz de receber todos os que terminam o segundo grau. É até uma arrogância dos universitários achar que todo mundo quer entrar na Educação Superior. Sempre vai haver mecanismos de seleção. O que eu defendo e que implantei, quando governador, e tentei, como reitor, é metade dos alunos que entram na universidade serem escolhidos dentro do ensino médio. Em Brasília, já há sete anos, metade dos que ingressam na universidade passam graças a notas que tiram em três provas que a universidade aplica durante o ensino médio. Uma no final da primeira série, outra no final da segunda e outra na terceira. Os alunos que tiverem a maior média das três provas entram na universidade. Com isso a gente consegue que os alunos estudem mais durante o ensino médio e evita a tragédia da sorte de uma só prova, de um só exame. E também facilita a integração entre os ensinos médio e superior.”

Vagas ociosas – “Vamos discutir com os reitores das federais o problema das vagas ociosas e qual a forma de preenchê-las. Essa é uma determinação que não saiu do Ministério da Educação, mas do próprio presidente da República. Ele me disse: “eu não quero vagas ociosas nas universidades federais brasileiras”. Eu, como ministro, vou levar adiante isso, obviamente respeitando a autonomia das universidades.”

Fies – “Estamos trabalhando para ter a proposta clara para melhorar as condições de financiamento. Esta é outra grande preocupação do presidente Lula. Ele disse mais de uma vez que poucas coisas são mais tristes do que ver um jovem que consegue passar no vestibular e depois abandonar os estudos por falta de dinheiro. E nós vamos querer resolver isso através do Fies.”

Universidades privadas – “Se a gente avalia até Coca-cola neste país, com um sistema sanitário, temos de ter o sistema ‘sanitário’ da educação, que avalie tudo, que avalie inclusive o ensino universitário. Ninguém é contra que uma pessoa invista seu capital em uma instituição universitária. Eu prefiro que os investimentos privados sejam para a educação do que para os bingos. Agora, se é para ver universidade como investimento, isso tem que ser feito com responsabilidade, com seriedade, para que os alunos saiam competentes e satisfeitos com aquilo que eles também investiram”.

Ensino profissionalizante – “É preciso dar ao ensino profissionalizante a dignidade de um ensino médio, até porque, em alguns casos, ele é superior.”

Educação no campo – “Nós vamos incorporar, dentro dos grandes eixos da educação: a criança, os jovens, o futuro, a qualidade, as mulheres, a inclusão social, o fato de que há uma diferença entre a educação na cidade e a educação no campo. Houve nos últimos anos uma ditadura no sentido de levar para o campo a cultura, os valores e a educação característicos das cidades. Nós vamos trabalhar isso. Ainda não temos a proposta feita, mas estamos trabalhando, junto com um grupo do MST. Vamos procurar a Contag e formular um eixo de educação voltado para o campo.”

Situação de risco – “Precisamos de uma política imediata para dois dos maiores problemas de risco: as crianças que trabalham e a questão da prostituição infantil e juvenil. E o programa é simples. É uma bolsa-escola com um valor satisfatório e um ambiente agradável. Se houver uma remuneração, ela não vai precisar trabalhar. Se houver uma escola que atraia, essa escola vai segurar as crianças e os jovens. Aí nós vamos trabalhar nas duas frentes.”

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