Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 070 | Ano 8 | Abr 2003
ELISA LUCINDA

Vida ateliê

Pouca gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice.

Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe a forma da escultura na qual teremos resultado. Estamos preparando a mostra, a vernissage do nosso rosto definitivo. Seremos, no desfecho a cara com a linha da coroa e vice-versa, nosso avesso lá estará, no hidrográfico bordado dos rios do riso e dos rios do sofrimento.Estamos, em nosso caderno de rosto, grafitando nosso mapa. Nossos espasmos e anemias, nossos impulsos e paralisias estarão lá, toda postura do corpo, toda vivência curva da coluna, todo pescoço engessado, todo medo, todo peito empinado, toda pélvica e espalhada felicidade estará na síntese desse rosto.

Estamos preparando a face que testemunhará o que fizemos de nossas vidas e com ela dormiremos na eternidade. Estamos, durante a vida, germinando o último espelho. Sem percebermos. Temos pincéis, tintas, milhares de cores, misturas e matizes na palheta, amores, goivas, solventes, dores, telas, formões aquarelas e lápis nas mãos.

Tecelões do cotidiano, estamos urdindo a trama estamos tramando o nosso rosto final.

Quem sabe não se revele um traço confinando a boca a um ataúde do “contrariado”, aquela boca em “U” invertido para baixo, com os cantos caídos boca de quem não protestou em verbo e cuja ebulição zangada e silenciosa passou para todos apenas como mimo ou mero descontentamento.

Estamos durante o enredo desenhando a testa com preocupações, ocupações ócios, diversões ou horas de aconchego. Esculpindo estamos o rosto que será a nossa cara dos capítulos finais essa cara-identidade, cujo rascunho valeu e cujo ensaio valerá representará no eternidade do brilho do olhar nossa capacidade de estréia, nossa habilidade em diluir rancores, em transformar dissabores em aprendizado. Tempestades e bonanças ilustram bem a empreitada. Lágrimas só de dor e desgosto vincam com facilidade o rosto, aquele cujo sujeito, dono do corpo, eleja o sacrifício às gargalhadas da alegria vindas do coração. Essas remoçam, coram as bochechas com um rouge natural, fazem boas marcas em torno da boca e ainda reforçam o tal brilho do olhar; já o amor é ótimo pirógrafo, (que palavra oportuna e linda!), marca nele sulcos de toda sorte.

Noites e dias de um tempo bem passado também contam na construção do retrato, mas cuidado: fotogênica e triste a amargura produz vincos fundos tatuando-se fácil na estampa de quem não soube chorar de alegria, nos olhos de quem não soube perdoar, no nariz de quem não sentiu o cheiro do amor nos lençóis, nos temperos, na boca de quem nunca pôde dizer bom-dia. (Quero para mim, uma simpatia generosa pregada no rosto de minha velhice, quero olhos vivos de novidades que sorriam sempre, quero rugas de bons e repetidos gestos de contemplação, indignação, revolução e contentamento. Quero no meu rosto o bom retrato falado de cada vão momento: na cama com amor, na mesa com os filhos, no bar com os amigos, na noite sobre o travesseiro de macela, nas festas com os cúmplices de caminho, nas decisões sensatas de trabalho… tudo isso o rosto fotografa e eu quero nele essas fotografias.)

Seremos nosso porta-retrato e já estamos portando essa tela. Nela estará certamente uma verdade anterior a superestimação dos bisturis periféricos da vaidade que nada podem contra o que se viveu, o como se viveu, pois o que projeta define e esculpe a face é o que nos cabe diariamente: a gestão dos nossos acontecimentos, a quantidade de natureza que se experimentou, as doses de buzinas urbanas, os saldos de banco, sonhos e mugidos atingidos na longa jornada. Isso é o que importará, os acontecimentinhos diários, a quantidade de arroz soltinho que se fez durante a lida, o tempero de alho do feijão amoroso, o gozo junto com o companheiro, tudo vai pra conta da cara da velhice, tudo vai pra lá.

Nosso rosto de velhos é o nosso último boletim na escola da vida, e a expressão que tiver afinal será nossa obra de arte, nossa prova dos nove, nossa prova real. Com mais porção disso ou daquilo, de atenção ou descaso, será com esse espelho final de vitória ou arraso que desfilaremos sob a ilustre iluminação do ocaso.

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