Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 071 | Ano 8 | Mai 2003
L. F. VERÍSSIMO

Estava escrito

Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser saber o futuro do planeta deve procurar uma série de textos escritos por Paul Wolfowitz e outros na revista Weekly Standard, editada por William Kristol, nos anos 90, ainda durante o governo Clinton. Os textos faziam parte de um “Projeto para um Novo Século Americano” e podem ser consultados como se consulta um roteiro, para saber o que vem agora. Porque está tudo lá, a começar pela ocupação do Iraque para, entre outras coisas, intimidar a Síria e o Irã e dominar os recursos e a política da região. As repetidas ameaças do secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, à Síria já estariam preparando o terreno para o passo seguinte.

Wolfowitz, Kristol e os outros idealizadores do Projeto, como Richard Perle e John R. Bolton, acabaram formando o núcleo de ideólogos neoconservadores que assumiram a política externa americana com a eleição de Bush, para desconcerto inclusive da velha-guarda republicana, como Bush pai, James Baker etc. Num artigo recente na New Statement sobre esta tomada de assalto do poder americano pelos neoconservadores, Michael Lind identifica no “pentágono” que sustenta a claque – além do lobby da direita israelense, fundações conservadoras com financiamentos milionários como a American Enterprise Institute, institutos de estudo direitistas e impérios de mídia como o de Rupert Murdoch – o fundamentalismo religioso americano. Este pode dizer que a vitória sobre o Mal representado pelo fundamentalismo satânico (o outro) está prevista nos versos milenaristas da Bíblia. Os pragmáticos do movimento também podem dizer que tudo já estava escrito, mas no Weekly Standard.

A forma como se deu a ascensão dos neocons e o triunfo do seu projeto para uma América über alles provoca espanto – e teses conspiratórias a gosto. Nada teria acontecido se não tivessem roubado os votos do colégio eleitoral da Flórida de Gore (que ganhou na votação popular nacional), com a ajuda da maioria conservadora da Corte Suprema. Ou se o escolhido para vice não fosse o Dick Cheney, que providenciou a aproximação de Bush com os homens do Projeto e acrescentou uma sexta ponta ao pentágono, a conveniência para o complexo industrial e petroleiro da nova e lucrativa disposição guerreira. Ou se não tivesse acontecido o 11/9.

O roteiro está sendo seguido e está dando certo. O Século Americano começa ao contrário de como terminou o mundo no poema de Eliot, com um estouro. E, vá lá, alguns gemidos também, mas estes são só de crianças desmembradas. Estamos falando de coisas sérias.

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