Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 072 | Ano 8 | Jun 2003
L. F. VERÍSSIMO

Interpretando a barba

O Lula de barba preta faria o mesmo governo que faz o Lula de barba branca? Não é conjetura vazia, a resposta tem a ver com várias perplexidades do momento. Se o Lula da barba ameaçadora também se abrandasse no poder e fizesse mais ou menos o que o Lula da barba patriarcal está fazendo, isso significa que a reação radical que recorreu a tudo para que ele não se elegesse antes deve desculpas à nação. São eles os responsáveis pelos 13 anos em que, em vez do Lula no Planalto com dólar e Risco Brasil baixos, bênção do FMI e a esquerda no poder onde pode ser melhor vigiada e controlada, tivemos anti-Lulas, alguns até bastante estranhos, atrasando a nossa vida. Os próprios banqueiros que tentaram aquela desesperada manobra terrorista com o dólar antes das últimas eleições deveriam hoje estar atirando cinzas de contrição na cabeça. Eles não sabiam o que estavam fazendo e quase puseram tudo a perder! O branqueamento da barba tornou o radical elegível porque representa a sabedoria ou apenas a resignação que vem com o tempo? Lula é o mesmo, só com uma barba mais confiável, ou mudou junto com a barba, cansou de esperar e concordou em ser ele mesmo o anti-Lula definitivo, o seu próprio antídoto? Não tinha ocorrido à direita brasileira esse modo revolucionário, inédito no mundo, de livrar-se da esquerda: dar-lhe o poder. A direita passou 13 anos tentando evitar o impensável justamente porque não tinha pensado adequadamente a respeito. Ou talvez a protelação da eleição do Lula até que a sua barba ficasse branca é que foi sábia. Um patriciado não mantém suas abotoaduras por tanto tempo na sociedade mais desigual do planeta sendo burro o tempo todo. Só deixaram o Lula entrar no Planalto quando a armadilha não podia mais ser desarmada, ainda mais por um cordato senhor de barbas brancas. Não existe melhor lugar para a esquerda mostrar suas contradições do que no poder, onde nenhuma coerência dogmática sobrevive por muito tempo, e se junto com a esquerda se entredevorando em público os banqueiros continuam felizes, felizes como nunca, o que mais pode pedir a direita? Lula, pinte a barba. Só para a gente se lembrar como era.

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