Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 072 | Ano 8 | Jun 2003
POLÊMICA

O poder da retórica e a retórica do poder

Jéferson Assumção

Poder e retórica são duas palavras indissociáveis. Se política é a arte de conquistar e de se manter no trono, como dizia Nicolau Maquiavel (1469 – 1527), o político só consegue seu intento com retórica, muita retórica. Aliás, ninguém vive sem ela. Sendo um ser de linguagem, o homem movimenta-se no mundo envolto em palavras, faladas ou não. Faz retórica, aonde quer que vá. É o que afirma o professor Pedrinho A. Guareschi, filósofo, sociólogo, doutor em psicologia social, professor de Pós-Graduação da Faculdade de Psicologia da PUC-RS, ao explicar como a retórica se relaciona com o poder. A intenção foi analisar questões da recente política nacional e internacional. Guareschi tratou da ascensão de Lula, George Bush e a guerra do Iraque, e o naufrágio de Carlos Menem na Argentina, mostrando que por trás de todo ato humano há sempre um discurso, mesmo quando não dito.

Segundo o professor, três dimensões (ética, emoção e razão) estão sempre presentes no caso de um bom retórico, o que teria ajudado o presidente Lula a chegar lá. Pelo menos na campanha (diriam seus opositores), ele passou a imagem de uma pessoa coerente, séria, compromissada. Mas a diferença com os outros candidatos seria a manutenção da coerência entre ethos (costume), pathos (paixão) e lógos (razão) em seu discurso e atos. “Todos os gestos dele são retóricos. Mas você vê que ele não sofistica. Ele trata uma pessoa assim, com informalidade, quer dizer, não como algo que foi agregado de fora, mas que vem de dentro dele, que está convencido dessas coisas. Por isso ele age de uma maneira ou outra: os gestos, as falas são algo coerente com a sua vida, com a sua ética, com a sua virtude, pra falar como Platão”, afirma o professor.

E se tudo é retórica, é possível um político se eleger sem esta arte? Não, diz Guareschi. Por isso, Lula precisou entrar no discurso para conseguir falar com o povo brasileiro. Segundo o professor, havia uma época em que o partido de Lula, o PT, era muito purista, só se interessava pelas idéias e quase caiu numa simples burocracia, o que dificultava as coisas na hora das eleições. O que valia era o argumento racional, o lógico, uma dimensão que teria sido exagerada. Além de razão, a retórica política exige a capacidade de emocionar. “Não dá para ficar só na razão, é preciso entrar um pouco de emoção, um pouco de Dionísio, essa dimensão afetiva. Eu acho que o PT, sem abandonar exatamente a coerência, conseguiu incorporar essa dimensão da paixão, da retórica, do afeto, da emoção”, opina. Assim, o líder petista teve que se dobrar ao terno Armani, aos cabelos e barba bem aparados para ganhar o poder.

O grande problema, no entanto, é o risco que se corre, entrando num jogo retórico. Não há dúvida de que as pessoas querem ver as coisas envoltas numa bela embalagem. “Agora, se ele só fica no retórico, sem trazer conteúdo, corre o risco de trazer manipulação”, adverte. Política, como alertou Maquiavel, não é ética, mas uma arte, quase que apenas retórica. Lula incorporou esta dimensão e conquistou o poder, precisará continuar sendo retórico para se manter lá? Guareschi responde: “Acho que ele deve manter a boa retórica, aquela que não deve viver separada do seu conteúdo. Separados, há discursos políticos que são pura mentira, mas são ditos de uma maneira bonita. Se você pergunta para uma pessoa: O que ele falou? Não sei, mas falou de uma maneira tão bonita!”. A sociedade brasileira vê esta distinção cada vez mais claramente nos discursos, por exemplo, do senador Antônio Carlos Magalhães. Sua reconhecidamente brilhante arte retória tem se chocado escândalo após escândalo, com fatos estampados nos jornais. O último é o dos grampos telefônicos e poderia servir de exemplo de retórica como arte, como embalagem, mas que parece se distanciar da ética. É o uso de apelo retórico, como têm feito alguns políticos cuja mensagem “vem numa embalagem, e se usa a embalagem para esconder a mensagem”, alerta Guareschi.

Essa retórica, no mau sentido, também poderia estar sendo praticada pelo governo federal, ao focar em determinados pontos, agora que está poder, e não em outros, como uma forma de distrair. Mas o teórico não concorda com esse ponto de vista. No caso do Lula, seria, segundo Guareschi, uma postura retórica “boa”, cuidando que a estética não venha derrubar a ética, tônica da política atual.

Estética est ética

“Hoje se é mais estética do que ética, o que é a grande diferença e vem a derrubar o próprio conteúdo de verdade que tem a ética e o lógico da questão, é um predomínio que não é fácil de ser traçado”, lembra. Guareschi acha que Lula não está sendo maquiavélico, no sentido de usar a arte política para se manter no poder, porque não exagera no estético, agora, “Lula não teria ganho se ele de fato não tivesse um esteta ao seu lado. Também não teria ganho se fosse um falso, se fosse puramente blá-blá-blá. A autenticidade, a credibilidade, o ethos têm que ir junto com a emoção”.

Guareschi: "A autenticidade, a credibilidade, o ethos têm que ir junto com a emoção"

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Guareschi: “A autenticidade, a credibilidade, o ethos têm que ir junto com a emoção”

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E é exatamente o que está faltando no momento ao governo, segundo alguns jornalistas do centro do País, que criticam o Presidente por beneficiar-se da concessão de exclusividade a determidados veículos de comunicação para o exercício de sua retórica. Ou seja, o Governo escolhe com quem e quando vai falar favorecendo redes de comunicação em detrimento de outras. Para se ter uma idéia, no centésimo dia de seu primeiro governo, período equivalente ao que Lula se encontra hoje, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já havia reunido cerca de 100 profissionais de imprensa em entrevistas coletivas, quando tentou sustentar com palavras o que vinha fazendo até então. Há poucos dias, o dia 100 de Luiz Inacio Lula da Silva no poder resultou em apenas uma declaração em cadeia de rádio e televisão nacional, sem entrevista. O fato contrastou com o aparecimento diário em todos os meios de comunicação nos dias que antecederam o segundo turno das eleições, e tem rendido críticas duras ao governo que se elegeu como democrático e popular. Desde 1º de janeiro, Lula só concedeu entrevistas a dois programas da rede Globo, ao jornal Washington Post e à revista Time. Mas não é por acaso que isso acontece. Essa atitude faz parte de uma estratégia que se utiliza dessa arte ou ciência que tem suas origens ainda no século IV a. C. Ela se chama retórica. E intercala coisas ditas e não-ditas.

Perda de credibilidade e de “capital simbólico”

O contrário da boa retórica de Lula seria a má retórica de Bush. “Um exemplo é aquela coisa ridícula que apareceu na televisão, do Bush abraçando uma criança, numa cena preparada. Coisa absolutamente estúpida e às vezes até contraproducente. O homem matando crianças, conforme as notícias, depois abraçando uma”, analisa Gauareschi, mostrando que, no caso de Bush, até como simples arte, essa retórica seria incoerente. “Além de ser uma grossa mentira, não souberam nem usar direito a imagem”, aponta. Bush seria um retórico no sentido dos romanos, sem a ética (leia quadro a seguir).

Isso tem a ver com um fato comum na política atual. O teórico estadunidense, John B. Thompson, no livro O Escândalo Político, afirma que a disputa está hoje tão rebaixada que os políticos não mais oferecem projetos, mas apenas uma suposta honestidade. “O Thompson relembra que o político hoje tem que montar aquilo que ele chama de um capital simbólico. E o capital simbólico é a sua credibilidade, que é construída a duras penas. Agora, o que acontece, então, com a mídia, no escândalo político? Acontece que, do dia para a noite, a mídia mostra que há uma incongruência entre aquilo que a pessoa diz e aquilo que faz. Aí se dá o escândalo, que é a revelação da incongruência, da falta de coerência”, coloca Guareschi. Foi o que aconteceu com Bush.

"Lula não teria sido eleito se não tivesse um esteta ao seu lado", diz o filósofo referindo-se ao comando de Duda Mendonça no marketing da campanha eleitoral

J.F.Diorio/AE

“Lula não teria sido eleito se não tivesse um esteta ao seu lado”, diz o filósofo referindo-se ao comando de Duda Mendonça no marketing da campanha eleitoral

J.F.Diorio/AE

Presidentes, governadores, prefeitos e politicos em geral devem se preocupar só com uma coisa. Com a perda da credibilidade, vai embora o capital simbólico, o que dificilmente se recupera. É o caso da renúncia de Carlos Menen, no segundo turno das eleições argentinas. A perda foi tão grande que a população afirma que, com a renúncia, faltou coragem ao candidato, algo inaceitável na retórica política. “Ele perdeu muito da sua credibilidade, porque se mostrou um falso em sua jogada política. Não quis concorrer, porque, quem sabe, seria pior ainda. Mas a turma já revelou a fraqueza dele no fugir da raia. E com isso se deslegitimou a instituição. Ele pode ter ganho um pouco com isso, mas a instituição política, não, porque numa democracia se quer ver as contradições, diferenças etc., e a gente deve se sujeitar ao julgamento público”, argumenta.

A arte e a ciência da persuasão
Há várias definições de retórica, esta arte que, no sentido popular, serve apenas para persuadir. Mas ela é também uma ciência, ou análise dos atos de persuasão e, ainda, uma visão sobre o poder persuasivo do discurso. Aristóteles e Platão, segundo Pedrinho Guareschi, distinguiam a boa da má retórica. A boa seria quando ela não está distanciada da verdade. A má, quando ela a escurece. Isso se deve à filosofia da época, que não distanciava o conhecimento da virtude. No entanto, diz Guareschi, não foi essa a concepção que prevaleceu. Pouco depois, os romanos desenvolveram-na como a arte de bem falar, dispensando o conteúdo ético. Séculos adiante, durante o Iluminismo, a partir de 1400-1500, na busca por idéias claras e distintas, descartou-se a retórica, que passou a ser algo negativo e que obscurecia a ciência. “Eles buscavam a verdade e a verdade devia ser limpa, pura. Então todos os textos científicos deveriam primar pela limpeza, pela clareza, pela lógica”, lembra Guareschi.

Apesar do Iluminismo, a retórica sobreviveu, principalmente na Teologia, mantendo-se até hoje como arte de falar artisticamente. Atualmente, os estudiosos trazem orientações para que se possa perceber as dimensões retóricas dos discursos. Guareschi exemplifica, afirmando que a retórica exige que se digam as coisas na hora exata e de maneira conveniente. “Por exemplo, quando morreu a Lady Di, a rainha da Inglaterra demorou para se pronunciar, e isso deixou o povo meio preocupado, nervoso. E quando ela se pronunciou, foi de uma maneira altamente inconveniente. Os estudiosos mostram então que ela não cumpria as exigências da retórica”, analisa Guareschi. A rainha não estava sendo boa com as palavras, que exigem, sempre, hora certa (kairós, em grego) e conveniência (phrónesis).

Essa arte possui seus cânones, ou dimensões, cujo aspecto mais importante é o poder de “invenção”, o modo como quem se expressa coloca o conteúdo numa embalagem, mas não é só isso. “A arte da retórica depende de ethos, pathos, e lógos. O ethos é a credibilidade da pessoa que fala, se a pessoa está mentindo, se diz as coisas e não faz etc. O pathos seria a paixão, a emoção, que ela coloca quando passa determinado conteúdo e finalmente o lógos é a lógica ou a disposição ou clareza com a qual ela apresenta o mesmo”, conclui Guareschi.

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