Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 073 | Ano 8 | Jul 2003
NEI LISBOA

Tetas ocupadas

O governo Lula é apenas vinte dias mais velho que a Maria Clara, minha linda rebenta, então achei que viria bem aqui fazer algumas comparações. Por exemplo, tal qual o governo, ela estabeleceu como prioridade um programa Fome Zero desde o primeiro dia. Está certíssimo o Lula em dizer que a fome não pode esperar, e ela nos confirma em alto e bom som a cada vez que o mamar se atrasa uns minutos. Não dá pra se fazer de surdo. Então não sei como o Lula se vira com tantas reuniões e cronogramas experimentais antes de implementar nem que seja uma papinha decente para a Paraíba. Claro que as tetas do governo, sei, sei, já estão ocupadas. Tem gente mamando ali desde antes de eu nascer.

A Maria Clara ainda nem engatinhou, o que talvez seja injusto dizer-se do governo, que em tempo recorde movimentou o projeto de reforma da previdência. E parece que vai aprová-lo, apesar da gritaria de boa parte dos eleitores e da bancada do próprio PT. Algo assim fantástico como engatinhar de barriga pra cima, sem usar os membros. Ou melhor, usando as mãos para afastar quantas Heloisas se atravessarem no caminho e os pés pra chutar a CPI do Borhausen pra fora do Senado, por exemplo. Será que a apuração de uma lavagem de trinta bilhões de dólares teria de esperar, em nome de não atrasar a votação da reforma? Em todo caso, o PT na Câmara dos Deputados rolou sobre a barriga e conseguiu aprovar a CPI. Vá entender quem é governista e quem é oposição.

Com o Palocci, acontece algo muito curioso. Cada vez que ele aparece falando de juros e metas inflacionárias, superávit fiscal, relação dívida/PIB – ou sei lá que outro quesito macroeconômico desses nos quais a mídia decidiu que devemos ser todos compreensivos especialistas –, a Maria Clara franze o cenho, faz um biquinho igual ao do ministro e… Pronto, lá vamos nós trocar uma fralda recheada de superávit. Pra falar a verdade, a minha reação é bem parecida. Andando estou para esse economês com cara de justificativa fatal e inevitável para a mesma situação de sempre. Quero é saber quando é que vamos tirar de quem tem muito e distribuir para quem tem pouco ou nada. Quando é que a primazia do lucro financeiro vai dar lugar ao trabalho e à justiça social. Até lá também franzo o cenho e faço bico, é isso aí, dá-lhe, minha filha.

Outra comparação possível entre o governo e a Maria Clara é a de que os dois exigem muita paciência. Bom, estamos tendo, estamos todos sendo muito pacientes e otimistas, quando não deslumbrados. Basta ver os índices de aprovação e de confiança na gestão do Lula, sempre altíssimos e quase inalterados depois de seis meses. Não é pra menos. Depois de vinte anos com os milicos, depois de mais vinte com a direita travestida de várias formas mas sempre refestalada no poder, é muito bom saber que quem está lá é aquele metalúrgico com um sorriso tão lindo e franco como de uma criança, de quem só se pode pensar que vai nos levar pelo rumo certo da felicidade. Como tu, Maria Clara, minha filhinha querida, que só não precisava ter sujado a fralda de novo. Vamos lá, Lula, estamos todos contigo. Mas vê se não exagera nos superávits.

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