Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 076 | Ano 8 | Set 2003
ESPECIAL
PALAVRA NÃO TEM COR

Inclusão foi o tema da 10ª Jornada Nacional de Literatura

Jéferson Assumção

Foi da professora Nelly Novaes Coelho uma das mais contundentes frases da 10ª Jornada Nacional de Literatura, realizada de 26 a 29 de agosto em Passo Fundo: “As coisas são de acordo como dizemos que elas são. Se algo está errado, precisamos nomeá-lo de novo”. Um público atento às palavras da octogenária educadora ouviu deliciado os ensinamentos de uma das principais referências no ensino de literatura no Brasil. E por que nomear de novo? Nelly explicou: “É que a palavra cria o real, afinal, como disse Lacan, o que não é nomeado não existe”. Assim, ensinar, para Nelly, tem um sentido muito profundo e uma tarefa abrangente de espalhar as sementes para uma nova ordem. É assim que ela se relaciona com seus livros, que considera como sementes. “De uma ordem que virá, eu sei, embora não esteja aqui para vê-la”.

Reescrevendo a realidade

Com esta certeza, ela trabalha até 16 horas por dia, produzindo conceitos e ajudando a reorganizar parte do real.É nesta mesma direção que ela faz uma sólida defesa da literatura ao afirmar que o tema geral da ficção é “Quem sou eu nesta vida agora?” É por isso que este tipo de arte trata dos problemas existenciais e éticos mais exigentes. Deixar os estudantes alheios a este universo seria deixá-los longe de si próprios, já que o que está escrito nunca é só a história de alguém distante, mas do que existe de mais íntimo nos seres humanos.

Foi com este sentimento que o poeta irlandês John Lyons encheu o palco da Jornada com poesia de alta qualidade, instrumento com o qual fez pequenos cortes cirúrgicos na prosaica realidade. Dia 28, a poesia de Emilly Dickinson reverberou com gravidade no Circo da Cultura: “Who are you? Quem é você? Who are you? Quem é você? Esta pergunta contém uma imensa dignidade”, insistia o poeta, para um público entre a maravilha e o desconcerto. Lyons enfatizou que esta se trata da mais importante pergunta da literatura e da educação e, socraticamente, definiu: “A educação está fundada no questionamento, não na resposta, pois esta gera sempre mais perguntas. Precisamos não de respostas, mas de perguntas: todos temos que questionar o tempo todo. Isso faz parte da saúde de uma sociedade”.
É uma sociedade fragmentada, como observou no mesmo dia o filósofo Renato Janine Ribeiro. Um demos, “povo” em grego, que já não mais corresponde ao conceito original. “Hoje existem povos, com diversas demandas diferentes e está cada vez mais difícil conectar todas elas”, falou, referindo-se à exclusão de uma boa parte dos seres humanos, não dos processos produtivos, mas dos bens produzidos. Esse foi o núcleo de uma jornada que conseguiu dar conta de seu tema Vozes do Terceiro Milênio: A Arte da Inclusão, de maneira exemplar.

Morin e sua experiência de leitor

morin

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Para discutir o tema literatura e inclusão, a Jornada de Passo Fundo trouxe ao Brasil um dos mais festejados intelectuais da atualidade. O sociólogo e filósofo francês Edgar Morin foi a grande presença do evento e recebeu dia 28 o título de professor honoris causa da Universidade de Passo Fundo (UPF). Morin ficou vários dias na cidade, passeou pelo centro, circulou pelas bancas da jornada e atendeu fãs dos mais diferentes lugares do País. Ele trouxe à discussão sua enorme experiência de leitor, iniciada ainda na adolescência com a morte da mãe. Morin diz que, a partir de então, se refugiou nos livros, numa espécie de intoxicação contra o sofrimento. Veio daí uma forte relação com as letras e uma duradoura amizade com Leon Tolstói, Fiodor Dostoievski, Blaise Pascal, Joseph Conrad, enfim, a nata da literatura universal, nomes que, apesar de famosos, causaram, como em jornadas anteriores, estranhamento nos debates. O público, formado, em grande maioria por professores de literatura e estudantes, é acostumado a ler quase que exclusivamente literatura brasileira. Mesmo com pouco eco entre os ouvintes, diversas vezes reviveram, no palco da Jornada, os nomes de Homero, Hesíodo, Dante, Cervantes, Flaubert, Borges, Lautreamont, Balzac etc, num constrangedor desfilar de nomes tão comuns na estante de qualquer leitor e freqüentemente tão distante das estantes dos brasileiros.

E por que esses nomes não entram na escola? Porque o tipo de leitura dos próprios professores é freqüentemente pragmática. Morin confessou em uma entrevista: “Eu lia novelas escondido nas disciplinas que não me interessavam muito”. E como mudar isso? “Penso que a missão dos professores é convidar e mostrar aos alunos que as novelas são coisas importantes, não um luxo, mas não há muitos professores de literatura que façam isso. Fazem uma mistura com a semiótica, que é cortar os textos em pedacinhos e fazer considerações lingüísticas”. Mas por que os professores e os estudantes deveriam ler esses textos? “Porque a leitura de novelas não é unicamente sobre coisas do imaginário. Ali estão os problemas mais fundos, os mais importantes da vida”, acredita Morin.

E é toda essa importância do livro e da leitura que justifica o trabalho da Jornada de Literatura. Um trabalho reconhecido pelo ministro da Educação, Cristovam Buarque, que disse, dia 26, querer fazer do Brasil “uma imensa Passo Fundo”. O mesmo falou o governador do Estado, Germano Rigotto, que anunciou o apoio ao projeto Portal das Linguagens, um complexo arquitetônico educacional, científico, artístico-cultural e tecnológico, que tem como objetivo democratizar os processos de alfabetização e letramento para crianças, jovens e adultos. “Temos um compromisso de concretizar este grande projeto, o que deverá inaugurar uma nova etapa para a Jornada”, disse o governador.

A atual etapa está para lá de satisfatória, de acordo com a coordenadora do evento, Tânia Rösing. Para ela, a Jornada, em seus 22 anos de existência, cumpre exemplarmente seu papel de formar leitores. E isso ocorre a tal ponto que várias feiras têm se inspirado no formato do evento. É o caso da recente Feira de Parati (RJ) e das transformações na Feira do Livro de Porto Alegre. “Tudo isso faz parte de um amplo trabalho de inclusão cultural, tão importante quanto o de inclusão social”, analisa Tânia.

A palavra é…inclusão

A inclusão dominou os debates do segundo dia de Jornada, com a participação de Frei Betto, Luis Antonio de Assis Brasil, Marcus Accioly e Marcelino Freire, entre outros. Assis Brasil mostrou uma imagem forte, a de tapetes afegãos que outrora traziam motivos campestres e da vida aldeã e que hoje estampam carros de combate e granadas. Frei Betto abordou os mecanismos que legitimam a violência no Brasil: a predominância do entretenimento sobre a cultura, a educação usada para formar profissionais ao invés de pessoas e a reversão platônica, ou seja, o exagerado culto ao corpo na sociedade contemporânea. Ele explicou como esses três fatores são extremamente violentos para a sociedade. “A educação tem que dar conta disso, mas ela está hoje muito despolitizada”, falou.

Violenta foi a intervenção de Marcelino Freire, autor de Angu de Sangue (Atelier Editorial) ao ler um conto em que uma mãe dá e vende os filhos para que outros criem. A crua realidade mostrada por Marcelino, com certa dose de humor, encantou o público, tanto quanto seu conterrâneo, o pernambucano Marcus Accioly. Num verdadeiro show, ele demonstrou todo seu talento de ator ao declamar diversos poemas contundentes que giraram em torno do tema violência. Accioly foi um dos escritores mais aplaudidos em toda a Jornada e surpreendeu pela simplicidade com que sua fala moveu-se por toda a história da literatura. Interpretou e comentou uma infinidade de passagens e frases lapidares de Lautreamont, Albert Camus, Dante, Breton…

No dia seguinte, a grande presença era da escritora portuguesa Inês Pedrosa, autora de, entre outros, Fazes-me Falta (Planeta). Com muito bom-humor Inês arrancou gargalhadas da platéia ao comentar ironicamente as semelhanças e não as diferenças entre homens e mulheres. Disse não entender como um homem com doutorado não consegue colocar a louça em uma máquina de lavar. “O meu marido está ganhando um segundo doutoramento, doméstico, agora”, anunciou. O último dia da Jornada foi dedicado a tratar das adaptações da literatura para o cinema. Jorge Furtado e Drauzio Varela foram os dois nomes de destaque, junto com o autor-surpresa, o senador Eduardo Suplicy. Eles comentaram a qualidade do cinema brasileiro atual e a maneira como ele tem retratado a realidade social do País. Suplicy fez uma análise política do Brasil de hoje.

Crianças que fazem parte

O contraste do verde dos campos ao redor do Circo da Cultura com o azul do céu límpido ganhou um colorido a mais nas manhãs frias (temperatura em torno de 5o C) da segunda Jornadinha Nacional de Literatura, em Passo Fundo. Milhares de crianças batendo o queixo faziam fila, desde cedo, para conhecer de perto e conversar com escritores como Mauricio de Souza, Ângela Lago, Sérgio Caparelli, Gláucia de Souza e Eva Furnari, entre outros. Durante quatro dias (de 27 a 30 de agosto), mais de 14 mil crianças participaram do evento. Eram alunos de cerca de 100 escolas da região de Passo Fundo, de Porto Alegre e de cidades catarinenses, como Chapecó, Joaçaba e Concórdia. O número de participantes surpreendeu até mesmo os organizadores. Há dois anos, na primeira Jornadinha, compareceram seis mil crianças. Não custa lembrar que, este ano, o público adulto da Jornada foi de quatro mil pessoas. O tema da 2ª Jornadinha Vozes do Terceiro Milênio: A Arte da Inclusão – esteve presente em todos os debates, além de ser colocado em prática com a participação de estudantes de escolas de bairros nobres de Porto Alegre, como o Colégio Americano, ou da periferia de Passo Fundo, como a Escola Municipal Profa Helena Salton. Participaram deficientes físicos, como paraplégicos, cegos e surdos, além de etnias excluídas como cerca de 50 crianças caingangs, com idade entre oito e 13 anos, da reserva de Serrinha, próximo ao município de Ronda Alta.

Paulo César Teixeira

Homenageado na segunda Jornadinha, por seus 30 anos de criação literária, o escritor mineiro Bernardo Campos Queirós destacou o que considera a principal virtude do encontro: “O ponto positivo foi não subestimar a capacidade de compreensão das crianças, que compartilharam o mesmo espaço da Jornada de gente grande. Participo de inúmeros eventos de literatura no país e não conheço outro igual, que acolha o público jovem e permita a convivência harmoniosa com os leitores adultos.”

Segunda Jornadinha Nacional de Literatura teve número recorde de participantes

Foto: René Cabrales

Segunda Jornadinha Nacional de Literatura
teve número recorde de participantes

Foto: René Cabrales

Cerca de 11 mil crianças que estiveram em Passo Fundo participaram antes da Pré-Jornadinha, realizando atividades de preparação para o evento. Leram as obras dos autores que estariam presentes na Jornadinha e desenvolveram projetos de teatro, poesia e ilustrações inspirados nos livros indicados. A partir de agora, elas estarão envolvidas na Pós-Jornadinha, quando os projetos realizados em sala de aula serão avaliados pelo Mundo da Leitura – espaço de recreação de atividades educacionais reservado às crianças na UPF. Desta forma, o ciclo se completará.

Para a professora Tânia Rösing, da UPF, coordenadora geral da Jornada e da Jornadinha de Literatura, o tema da inclusão social não deve ser esquecido com o encerramento do encontro. Ela entende que cabe às autoridades de Educação aperfeiçoarem a formação profissional dos agentes culturais envolvidos na tarefa de criação de novos leitores. “Só assim encontros importantes como a Jornadinha produzirão um efeito prolongado. É preciso que haja vontade política. É chegada a hora da ação, porque de discursos já estamos lotados!”, conclui a coordenadora.

O leitor, o escritor e o espetáculo

Com um casaco fechado até o pescoço, Franciela dos Santos, de 12 anos – aluna da 5a série do I grau da Escola Municipal de Ensino Fundamental João Corso, de Serafina Corrêa –, mal podia esperar a hora de conversar com os autores das obras que estudou na sala de aula. “É a primeira vez que a gente encontra um escritor de verdade”, dizia Franciela. Para quem não sabe, a menina não apenas tem o hábito da leitura, como já arrisca os primeiros passos na literatura. “Em casa, escrevo poesias e invento histórias que falam da amizade entre as pessoas.”

O escritor gaúcho Sérgio Caparelli conta que as crianças de até sete anos de idade estão mais interessadas em conhecer pessoalmente os autores do que discutir o conteúdo dos livros. Lembra de um menino que arregalou os olhos ao ser apresentado a ele: “Você escreve livros? Puxa, pensei que tivesse morrido.” A imagem do escritor é ainda muito distante para os pequenos, que ficam surpresos quando se deparam com um autor de carne e osso. “As crianças maiores, a partir da 4a série do Ensino Fundamental, estão mais atentas ao processo de produção da obra. Querem saber de onde tiro as idéias, como é feita a capa do livro, se os personagens existiram de verdade ou foram inventados.”

Durante a segunda Jornadinha, as crianças assistiram a espetáculos como a peça de teatro A Família Sujo, do grupo Cuidado Que Mancha, de Porto Alegre, e o show As Noites da Minha Aldeia, do Grupo Internacional de Contos Populares de Angola. Havia espaço ainda para a ciberpoesia (monitorada por Caparelli), que consiste num jogo virtual em que o poema se realiza a partir da interferência do leitor. Graças a um programa de computador, a criança ajuda uma serpente a abocanhar a presa, que pode ser coelho, pássaro ou cobra. Cada vez que a cobra atinge o objetivo, surge um verso ou uma estrofe. O poema inteiro só surge quando todas as presas são dominadas. Depois de participar do jogo, a garotada era convidada a discutir as formas de ampliar o acesso da população à poesia virtual.

O Sinpro/RS na Jornada

O Sinpro/RS foi apoiador e entidade participante da 10ª Jornada Nacional de Literatura. A exemplo dos anos anteriores, o jornal Extra Classe circulou em edição diária especial, sempre contribuindo para o debate e antecipando temas que fariam parte das mesas. Além disso, pelo segundo ano consecutivo, houve a publicação do “Extrinha”, em três edições para abranger três faixas etárias distintas do ensino fundamental e médio. Os jornais estarão disponíveis para download em www.sinprors.org.br. No estande do sindicato, sob coordenação da 1ª Delegacia Regional, foram realizadas várias atividades culturais além de exposições permanentes de livros publicados por professores do ensino privado, CDs e trabalhos de pintura em tela.

Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.