Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 076 | Ano 8 | Set 2003
ENTREVISTA | MAURICIO DE SOUSA

Um bilhão de idéias

Valéria Ochoa, Paulo César Teixeira e César Fraga

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Essa, talvez, tenha sido uma das entrevistas mais celebradas na redação do Extra Classe. Já havíamos perdido as esperanças, pois a primeira remessa de perguntas e contatos haviam sido feitos, ainda em 2002. Na época já estava tudo certo, mas a agenda apertadíssima de Mauricio de Sousa o tirou do Brasil antes que pudesse encontrar tempo para nos responder. Mas persistimos e atualizamos nosso questionário, a partir de sua presença confirmada na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Sim, um autor de histórias em quadrinhos no meio de um debate sobre Literatura. Por que não? Afinal, Mauricio de Sousa tem se dedicado não só aos quadrinhos e suas exitosas atividades empresariais, como também à prosa. Além disso, quantos adentraram no mundo da leitura por meio dos gibis, incluindo os seus?

Mauricio nasceu em Santa Isabel/SP, em 1935. Seu pai, Antônio Mauricio de Sousa dividia o tempo entre a profissão (de barbeiro) e a poesia, assim como sua mãe, Petronilha Araújo de Sousa, também poetisa. Mauricio de Sousa cresceu, entre os livros. Primeiro em Mogi da Cruzes e depois em São Paulo, onde o pai trabalhou em rádio, atividade que Mauricio também desempenhou. Ainda garoto, contribuía com as despesas da casa desenhando cartazes e pôsteres. Foi ilustrador de um jornal em Mogi, mas sabia que precisaria ir para grandes centros, onde se concentravam as grandes editoras. Foi para São Paulo atrás do seu sonho. Tentou emprego nos jornais como desenhista, sem sucesso. Mas não saiu de mãos vazias, tornou-se repórter policial na Folha da Manhã. Lá pelas tantas criou seus primeiros personagems, em tiras, sobre um cãozinho e seu dono, Bidu e Franjinha. Ofereceu as tiras à Folha as quais foram aceitas. Imediatamente Mauricio deixou a reportagem de lado e dedicou-se ao desenho. Mais tarde viriam outros personagens e, é claro, Mônica. de 1970 para cá, são mais de um bilhão de revistas vendidas em, pelo menos, 20 países. Hoje, num momento em que as revistas em quadrinhos enfrentam uma crise mundial de mercado, a Turma da Mônica permanece firme nas bancas. Os personagens lhe renderam muitos contratos de licenciamento e versões de animação, além da exposição História em Quadrões, que desde o ano passado percorre o país. Mauricio também escreve crônicas, que podem ser lidas no portal da Turma da Mônica: www.monica.com.br

Extra Classe – Como a arte das Histórias em Quadrinhos pode ajudar o mundo a ficar melhor?
Mauricio de Sousa
– A arte em geral é uma fábrica de sonhos e esperanças. É a comunicação via sensibilidade, interação, participação. Como tal, a história em quadrinhos – manifestação artístico-cultural – pode e deve estar presente no processo da informação e disseminação de valores e idéias. Num momento gostoso de lazer, podemos levar aos nossos leitores o humor e o amor, sem dúvida. Com sugestões e modelos que podem até mesmo apontar caminhos aos leitores atentos.

EC – O senhor é filho de poetas. Vem de uma família apegada à leitura. Como se deu a sua trajetória até chegar aos quadrinhos? O gosto pela leitura influenciou na sua escolha?
Mauricio
– O gosto pela leitura, a verdadeira compulsão que tive, durante os anos de estudante nos velhos tempos do ginásio, que me fazia devorar um livro por dia sem dúvida influenciou tudo o que fiz dali para diante.
Vivi, senti, convivi com personagens fascinantes, varei mares e céus com os maiores aventureiros, cruzei com personalidades fascinantes contando suas vidas e amores, sonhei junto com os maiores sonhadores, explorei mundos e galáxias distantes, conheci idéias e filosofias estranhas, exóticas, instigantes, adormeci muitas vezes, muitas noites, enlevado por momentos de devaneio que brotavam dos livros… – livros, livros… legado de mil amigos, um milhão de palavras, um bilhão de idéias.

EC – É verdade que, no início da carreira, o senhor passou dificuldades, criando as histórias da Turma da Mônica num estúdio improvisado no quarto de empregada do apartamento?
Mauricio
– Eu e praticamente todos os desenhistas que conheci. Cada um com o quartinho que sobrasse no início difícil de qualquer carreira.

EC – No Brasil, o sucesso é muitas vezes visto com algum preconceito. No seu caso, o carinho que as pessoas em geral (e as crianças, em particular) dedicam aos personagens acaba sendo repassado ao Maurício de Sousa criador. Como é manter a criatividade em dia e, ao mesmo tempo, administrar uma carreira de êxitos?
Mauricio
– Não é fácil mas não é desagradável. Às vezes o empresário se choca com o artista. Mas em geral, temos convivido harmoniosamente.

EC – Em quantos países suas HQs são veiculadas? Em quais eles têm maior empatia com o público?
Mauricio
– Já estivemos em mais de 20 países com revistas. Depois, por falta de desenhos animados, andamos perdendo terreno. Agora, com o reinício de nossas produções de animação, devemos retomar mercados perdidos. Na atualidade, o país que tem melhor respondido às nossas personagens (com três revistas periódicas), é a Indonésia. Quem diria? A turma falando javanês.

EC – A Mônica está se globalizando (no bom sentido). Essa internacionalização do personagem afeta, de alguma forma, a concepção original, sua brasilidade, ou a Mônica e sua turma já nasceram universais?
Mauricio
– A Turma da Mônica, justamente por sua brasilidade, nasceu universal.

EC – Existe alguma adaptação dos personagens para que sejam melhor assimilados em outros países?
Mauricio
– Não. São publicados da forma como são concebidos no Brasil.

EC – Qual é o faturamento da Maurício de Sousa Produções? Quantos produtos a marca Maurício de Sousa envolve?
Mauricio
– Os números de nossa empresa não são divulgados. Quanto a produtos, devemos ter mais de 3.000 itens nascidos de nossos contratos com licenciados.

EC – O senhor tem trabalhado com textos em prosa. Como surgiu essa modalidade de expressão em sua trajetória e que futuro ela terá?
Mauricio
– Comecei meio que brincando a escrever crônicas para alguns jornais e para nosso site e me peguei gostando muito da experiência. No futuro gostaria de administrar melhor meu tempo para escrever, em prosa, mais do que tenho feito até agora.

EC – Quantas pessoas visitaram a exposição História em Quadrões até agora? Qual a agenda da mostra para os próximos meses? O público gaúcho terá chance de conhecer estas obras?
Mauricio
– Até chegarmos à atual exposição em Brasília, já tínhamos percorrido 4 capitais – São Paulo, Rio, Curitiba e Salvador. Estamos planejando Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre. Depois devemos ir para o exterior com nossa exposição. Nas primeiras capitais, tivemos recordes de público, com mais de 500 mil pessoas visitando os Quadrões.

EC – Os quadros são pintados de próprio punho ou é um trabalho de equipe, como no caso das revistas?
Mauricio
– O trabalho com os Quadrões sai fora do esquema do grande estúdio. É um trabalho quase que individual em que conto com uma auxiliar direta e mais um ou dois artistas na preparação do material. Por isso a demora para a coleção ficar pronta. Comecei a pintar no fim da década de 80.

EC – Há vários professores que defendem a utilização de HQs em sala de aula. O senhor pensa que os quadrinhos podem aproximar as crianças do hábito da leitura?
Mauricio
– Os quadrinhos são, em geral, responsáveis pelo primeiro contato das crianças com a palavra escrita e com as imagens.

EC – Os personagens de Maurício de Sousa são usados em campanhas institucionais (contra o fumo, educação no trânsito, etc.). Recentemente, a Magali passou a fazer parte do Programa Fome Zero. Qual é o principal retorno para o senhor dessa inserção em campanhas educativas tão sérias?
Mauricio
– Colaboramos com diversas campanhas utilizando nosso Instituto Cultural, sem fins lucrativos e com propostas ligadas à defesa do meio ambiente, cuidados com a saúde e com a educação. Qualquer esforço nosso nessas áreas nos gratifica e nos envaidece.

EC – O senhor cria personagens bacanas de que todo o mundo gosta. Quantos inventou até agora? E qual foi o primeiro?
Mauricio
– O primeiro foi o Bidu, com seu dono Franjinha. Depois deles, vieram dezenas e dezenas. Talvez mais de duzentos.

EC – É verdade que a Mônica foi inspirada em sua filha?
Mauricio
– Mônica é minha filha. Ou melhor, as duas: a inspiradora e a personagem.

EC – Dizem que o Horácio é parecido com o senhor. É mesmo? Caso não seja, há algum com o qual se identifica mais?
Mauricio
– Horácio, nosso dinossaurinho, ainda hoje somente escrito e desenhado por mim, talvez reflita, realmente, mais do Mauricio de Sousa do que outros personagens. Talvez pelo formato de fábulas que utilizo para contar suas aventuras.

EC – O Astronauta e o Chico Bento ensinam os leitores a não ter preconceitos. Essa é uma preocupação sua?
Mauricio
– É uma coisa natural nos nossos textos, pois eu vim a saber ou conhecer preconceitos bem depois de passada minha infância. Conseqüentemente vivi a gostosa fase de menino sem ter consciência dessa bobagem inventada pelos adultos.
Mas, agora, consciente dessa falha de comportamento, tento, realmente, nas histórias, demostrar a possibilidade de vida inteligente, saudável, feliz, longe dos preconceitos.

EC – Quando esteve na Jornadinha de Literatura de Passo Fundo, o senhor conversou com estudantes de 6 a 11 anos de idade. Qual foi o teor dessa conversa? Que livros o senhor indicaria para crianças nessa faixa etária e quais recomendaria para os professores?
Mauricio
– Livro? Talvez o último livro do Ziraldo, seu A,B,Z. Está lindo. E uma palavra especial, principalmente no contexto deste evento (ou sempre)? Leiam. Leiam tudo. Leiam sempre. Leiam demais. Faz bem para o corpo e para a alma.

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