Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 077 | Ano 8 | Nov 2003
ESPECIAL

O tráfico diz: ” – Presente! “

Adriana Zottis

Salas de aula vazias, corredores, estacionamentos, vestiários, ginásios de esporte e banheiros são os “pontos-de-venda” e consumo habituais de um negócio que avança a passos largos e silenciosos. O traficante, por sua vez, já não corresponde à velha imagem do estranho que oferecia o produto aos alunos incautos na saída. Atualmente, tem carteira escolar, nome na lista de chamada e pode pertencer até mesmo a uma família “respeitável e tradicional”. O traficante também é aluno. Como lidar com isso? A escola está preparada? O fato é que o crescimento do tráfico e do consumo de drogas nas escolas públicas e privadas é uma ameaça real, embora ainda permaneça semi-oculta pelo medo de exposição, pelo preconceito, pela desinformação e interesses mercadológicos. As pesquisas disponíveis são pouco consistentes quando se busca um retrato do que acontece do lado de dentro das instituições e não há números conclusivos sobre o tamanho do problema, mas ele pode ser bem maior do que mostram as estatísticas.

O delegado Antônio Carlos Pacheco Padilha, diretor da Divisão de Assistência Especial do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (Deca), que ministra palestras de capacitação sobre drogas para professores, diz que a omissão maquia a realidade. “Implementamos o curso no ano 2000 e só agora as escolas particulares começaram a nos procurar. A rede privada normalmente esconde o problema”, reclama. De janeiro a outubro deste ano, o Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) recebeu 130 denúncias de tráfico de drogas dentro e nas proximidades de escolas. Destas, somente 15 foram de particulares. O número pode ser interpretado de três formas: a rede particular de ensino é mais refratária à exposição do problema; ou a incidência nestes estabelecimentos é, de fato, menor; ou as denúcias se dão proporcionais à quantidade de estabelecimentos e número de alunos da rede privada, que também é menor do que o da rede pública nos ensinos fundamental e médio.

Uma pesquisa realizada no final do ano passado pela Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus revela que o uso de drogas na rede pública de ensino é maior do que na rede privada. Entretanto, muitas autoridades policiais que lidam diretamente com o problema contestam este dado. Na opinião do agente da Delegacia de Repressão aos Entorpecentes da Polícia Federal, Robson Robin da Silva, a escola particular é o grande filão do tráfico, pois ela concentra o consumidor de maior poder aquisitivo. A diferença entre a escola pobre e a rica estaria apenas no tipo de droga comercializada. Na periferia, os entorpecentes mais comuns são o cigarro de maconha, que pode ser comprado por R$ 1,00, e o crack, que custa cerca de quatro vezes menos que a cocaína. Na escola elitizada, as drogas mais usuais são a cocaína e o ecstasy, que chega a custar R$ 45,00 por comprimido.

T.C.S.A., 17 anos, estudante do segundo ano do nível médio de uma escola estadual da Região Metropolitana conta que a maconha e a cocaína que consome são fornecidas por um colega, no banheiro da escola. P.M., 16 anos, aluna do primeiro ano do nível médio de um colégio particular da Grande Porto Alegre admite que muitos colegas fumam maconha no pátio, num local afastado e escuro.

Se as estatísticas disponíveis não conseguem sanar a dúvida, a psicologia pode ajudar a decifrá-la. A droga normalmente está associada à identidade coletiva e ao poder, que seduzem o jovem, independentemente de sua classe social. “É no ambiente escolar que o jovem potencializa sua força”, avalia o agente federal, Robson Silva. Um estudante de uma escola particular da Região Metropolitana diz que o consumo de álcool durante as aulas é uma prática freqüente. “As gurias colocam a batida numa garrafinha de refrigerante e passam para a classe”. Segundo o diretor do Denarc, delegado Walter Wagner da Silva Gomes, os casos de consumo de drogas nas dependências da escola e na própria sala de aula não são tão raros quanto se imagina. “Muitos alunos saem da aula para fumar maconha”, comenta o delegado Carlos Miguel Vaz Amodeo, diretor da Divisão de Prevenção e Educação do Denarc.

O acesso fácil à droga, proporcionado pela venda dentro da escola, é um estímulo ao consumo. O jovem se “emprega” no tráfico para se capitalizar. O repasse da droga financia o vício e depois vira negócio. No Rio Grande do Sul, a prática vem chamando a atenção de uns cinco anos para cá. “Isto facilita a vida do traficante, pois o ambiente é muito favorável e o perigo de ser flagrado, pequeno”, explica o agente Robson. Como a ação da polícia esbarra nos muros da escola, o gerenciamento do problema acaba nas mãos de diretores e professores que, via de regra, não estão preparados para lidar com a situação.

A droga entrava no colégio dentro de Bíblia

O jovem B.F., 19 anos, estudou durante cinco meses em um dos mais tradicionais internatos do interior do Estado até que foi expulso por consumir e vender drogas dentro da escola, no ano de 2000. Antes disso, B.F. havia passado por outras cinco escolas particulares nas quais, segundo ele, o uso e o comércio de drogas era uma prática comum. Hoje, se diz afastado do vício e do tráfico e conta sua experiência.

Extra Classe – Porque você começou a consumir drogas?
B.F.
– Acho que se entra na droga pra resolver algo que não se consegue ou pra se enturmar. Comecei fumando cigarro normal, com 12 anos. Meus pais se separaram e acabei pegando a saída mais fácil.

EC – Como você começou a vender drogas dentro da escola?
B.F.
– O filho do patrão (chefe do tráfico na região) estudava na escola. Ele trazia a droga, me repassava e eu distribuía pros caras. Isto me rendia um porcentagem sobre o que eu vendia e ainda uma quantia de droga como pagamento.

EC – De que forma a droga entrava?
B.F.
– Normalmente dentro de uma Bíblia, daquelas com fecho. Eles tiravam algumas páginas e acomodavam a droga ali.

EC – E a distribuição, como era feita?
B.F.
– Da meia-noite até a 1h da manhã ninguém entrava nos banheiros, somente nós. O aluno encarregado da limpeza, que era do grupo, baixou ordem e todo mundo respeitava. Ali a gente distribuía e consumia.

EC – Que tipo de drogas?
B.F.
– Maconha, cocaína, lança-perfume.

EC – Quantos alunos faziam parte deste grupo?
B.F.
– Posso dizer que, de 100 alunos, 40 consumiam drogas.

EC – E a direção da escola, os professores, ninguém suspeitava?
B.F.
– São uns alienados. Alguns até sabem, mas não comentam nada porque o aluno é filho de fulano de tal. Nesta escola, por exemplo, ninguém desconfiava do cara que coordenava o tráfico lá dentro, que era da família mais rica da cidade. Ele era muito educado, se dava bem com todos os professores. É um esquema muito organizado, não tem sistema de segurança que bloqueie.

EC – Porque você foi expulso?
B.F.
– O poder é muito desejado. Um cara do grupo me dedou porque queria o meu lugar.

De olhos bem fechados

Dentro da instituição de ensino, muitos fatores contribuem para inibir a denúncia. O medo de represálias, o risco de expor o nome da escola e o rigor do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que protege o menor, criam um clima de impotência e acabam mascarando o problema, afirmam as autoridades policiais. “Os professores se queixam da falta de suporte legal para agir. Sob o risco de sofrer um processo administrativo ou deixar a escola estigmatizada, às vezes é mais fácil fechar os olhos”, diz o diretor do Denarc, delegado Walter Wagner da Silva Gomes. Na avaliação do vice-presidente do Sindicato das Escolas Particulares (Sinep), Osvino Toillier, o assunto está deixando de ser tabu. “A escola vem tratando a questão com mais coragem e determinação, pois a droga não é um problema da escola, é um problema social”, considera.

Há casos, porém, em que a escola decide agir com rigor, como ocorreu no ano passado em um tradicional colégio particular da Grande Porto Alegre. Depois de receber uma denúncia anônima, a direção chamou a Brigada Militar e abriu o armário de um aluno, onde foi encontrado um pacote com 40 gramas de maconha. A quantia, nada modesta, indicava que a droga não era para consumo próprio. O caso foi parar na polícia. Em uma escola particular da capital, um aluno foi expulso este ano por porte de droga e outros três estão sendo acompanhados pelo Serviço de Orientação Educacional, por terem sido flagrados consumindo maconha nas dependências do colégio.

A maior preocupação das escolas, de acordo com o delegado Walter Wagner, deveria ser a de adotar medidas rígidas em casos graves, para evitar a propagação do problema. O artigo 16 da Lei de Tóxicos enquadra como crime o porte de substâncias entorpecentes. No caso de infração cometida por menores, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê algumas medidas que vão desde a advertência até a internação na Fundação de Apoio Sócio-Educativo (Fase). “A maioria das escolas tem receio de infringir o ECA. Mas os adolescentes não têm só direitos. Também têm deveres que devem ser cumpridos”, aponta o orientador educacional do Colégio Rosário, Jurandy Farias. Para o diretor do Departamento de Polícia Metropolitana, delegado Paulo Cézar Jardim, a escola está vendendo a cultura da impunidade. “E isto se reflete na sociedade”, dispara.

Estudante é o público alvo do mercado da droga

A pesquisa “Retratos da Escola 2”, realizada em 2000 e divulgada no ano passado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) revela que o consumo de drogas está presente em 32% das escolas de ensino médio e fundamental do país. O estudo ouviu cerca de 20 mil alunos e dois mil professores e funcionários em 2.351 estabelecimentos de ensino municipais, estaduais e particulares. No item tráfico, o Rio Grande do Sul ocupa o primeiro lugar em ocorrência ocasional dentro (23,1%) e fora da escola (40,4%). De acordo com a presidente da CNTE, Jussara Maria Dutra Vieira, a escola se tornou um local cobiçado pela grande concentração de jovens, público-alvo do tráfico.

Estudo realizado em dezembro do ano passado pelos psiquiatras Patrícia de Saibro e Sérgio de Paula Ramos, coordenadores da Unidade de Dependência Química do Sistema de Saúde Mãe de Deus e da Clínica de Bem-Estar do Mãe de Deus Center, mostra que o uso de drogas é maior entre os estudantes da escola pública. A pesquisa entrevistou 1.600 alunos de 14 estabelecimentos de ensino da Grande Porto Alegre para avaliar índices de consumo entre os jovens. Os dados mostram o percentual do uso de drogas pelo menos uma vez na vida, não necessariamente dentro da escola. Ramos, que atua na área há 30 anos e há três supervisiona programas de prevenção em nove escolas da Região Metropolitana, acredita que o avanço das drogas na rede pública pode ser explicado por dois fatores: falta de investimentos em prevenção e redução do preço da droga, com a entrada do crack.

A pesquisa também mostrou que, naquelas escolas que não desenvolviam programas preventivos, o consumo de álcool era 4,6% maior do que naquelas que aderiram à prevenção, o de tabaco, 7,0% maior e o de outras drogas, 0,4% superior. Nos últimos 15 anos o consumo de drogas na rede pública cresceu de maneira explosiva. De acordo com o psiquiatra, o uso de maconha avançou de 2,7% para 28%, o de cocaína pulou de 0,3% para 7,8% e o do tabaco, de 22% para 53%. “Os pais entregam os jovens para os professores que, com o mundo desabando sobre seus ombros, os entregam para o traficante. E o traficante é o único que não declina de sua responsabilidade”, constata Ramos.

Prevenir com informação
Na guerra contra as drogas, a repressão deixou de ser a arma mais eficaz. A abordagem conservadora, que enfatizava mensagens do tipo “diga não às drogas”, foi substituída pela informação no cotidiano escolar. Oito escolas particulares da Região Metropolitana que há três anos aderiram ao programa supervisionado pelo psiquiatra Sérgio de Paula Ramos apresentaram significativa redução do consumo entre os alunos. Os efeitos nocivos das drogas são abordados nas disciplinas do currículo escolar desde a pré-escola. “Os países de Primeiro Mundo estão aplicando seus programas de prevenção cada vez mais precocemente, pois é desta forma que se consegue adiar a experimentação ”, destaca Ramos.

A experiência de educadores e especialistas mostra que o álcool e o tabaco são a porta de entrada para a escalada rumo às substâncias ilícitas e ao vício, e que “bater” na droga não funciona. “Nossa intenção é reduzir os riscos de envolvimento por meio de mensagens de valorização da vida”, ressalta o coordenador de ensino de 5ª e 8ª séries e de ensino médio do Colégio Anchieta, Carlos Sffair. “Não existe uma escola que não tenha alunos envolvidos com drogas”, reconhece.

O orientador educacional do Colégio Rosário, Jurandy Farias, diz que a escola deve incentivar práticas de preservação da saúde e do bem-estar e buscar uma maior integração com a família. “Relações interpessoais de pouca qualidade representam um grande fator de risco“, adverte.

A Secretaria Estadual de Educação tem trabalhado no sentido de desmistificar a imagem da droga junto aos orientadores educacionais. “Treinamos multiplicadores para uma abordagem que dá ênfase à prática de esportes, à cultura e ao lazer”, aponta a coordenadora da Divisão de Assistência ao Educando da Secretaria Estadual de Educação, Tandra Cristine Antochevis Milost. Também em nível nacional as medidas preventivas ganham status. O governo federal determinou, em outubro, que o Ministério da Educação (MEC) é o novo responsável pela elaboração e análise de políticas de prevenção ao uso de drogas, função até então desenvolvida pela Secretaria Nacional Antidrogas. A decisão sinaliza para uma nova postura frente ao problema, em que educação e prevenção devem ganhar lugar de destaque.

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