Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 082 | Ano 9 | Jun 2004
ESPECIAL

A didática que está no gibi

Eduardo Nasi

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Foto: Inês Arigoni

Foto: Inês Arigoni

A imagem de um moleque com um gibi escondido dentro do livro é superconhecida. Tornou-se um clichê para designar o estudante que tenta ludibriar o professor. Essa idéia, porém, está ultrapassada. Cada vez mais, as histórias em quadrinhos tornam-se fortes aliadas na hora de fazer o conteúdo entrar na cabeça dos alunos.

Quando se trata de História, por exemplo, a parceria já vem de tempos. Hiron Goidanich, o Goida, mais célebre dos críticos de quadrinhos do Rio Grande do Sul, diz que, no Brasil, essa relação começou com o lendário editor Adolfo Aizen. Ainda no Suplemento Infantil, encarte de quadrinhos que acompanhava o jornal A Nação (e, 15 números mais tarde, por causa do sucesso, ficaria independente sob o nome Suplemento Juvenil), surgiram as primeiras adaptações de episódios históricos para o formato de HQs.

– Dizer que só se pode aprender História nos livros é a mesma coisa que dizer que só se ouve sinfônica em concertos – compara Goida.

A partir de 1945, quando fundou a Editora Brasil-América Limitada (Ebal), consagrada por popularizar os super-heróis no Brasil, Aizen tomou para si a empreitada de verter a História para os quadrinhos, em séries como Epopéia e Grandes Figuras Brasileiras. Não só isso: passou a adaptar clássicos da literatura. Na série Edição Maravilhosa, aos clássicos universais, cujos direitos de publicação eram comprados do estrangeiro (da Ilíada de Homero à Guerra dos Mundos, de H. G. Wells), misturavam-se os grandes livros da literatura brasileira. E aí se tinha Iracema, Os Sertões, O Ateneu, Senhora e até obras de Jorge Amado, como Gabriela, Cravo e Canela e Mar Morto, na época ainda fresquinhas. Mas o destaque fica mesmo para o trabalho esplendoroso que André LeBlanc fez com O Guarani em 1950 – o haitiano radicado no Brasil se consagrou como ilustrador da obra infanto-juvenil de Monteiro Lobato para a editora Brasiliense. No total, foram mais de 200 edições, que só encontraram seu fim já nos anos 1980, quando a Ebal reduziu significativamente a envergadura de seu trabalho.

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Foto: Inês Arigoni

Foto: Inês Arigoni

No exterior, o trabalho de Aizen ocorreu concomitante com grandes transformações na forma de se ver os quadrinhos – e na sua relação estreita com a educação.

A Prof Dra. Maria Beatriz Furtado Rahde, da cadeira de Técnicas Gráficas: Abordagem Pedagógica do curso de Pedagogias Multimeios da PUCRS, estudou em seu doutorado a relação de Alex Raymond (autor do desenho mais antológico do herói espacial Flash Gordon) com o francês Philippe Druillet – segundo ela, representantes, respectivamente, do moderno e do pós-moderno nas HQs. O trabalho está publicado no livro Imagem: Estética Moderna & Pós-Moderna (Coleção Comunicação, Edipucrs, 2000).

Segundo a professora, depois da Segunda Guerra, os quadrinhos levaram a culpa de tudo que aconteceu aos soldados no campo de batalha. A partir daí, foram implementados códigos de ética que regulavam o que as revistas em quadrinhos poderiam ou não mostrar:

– Na Modernidade, toda HQ deveria ser educativa, exaltando o maniqueísmo. O herói e o vilão eram figuras bem definidas.

A mudança surgiu no início dos anos 1960, quando o semanário norte-americano Time colocou o Snoopy na capa de uma edição.

– Houve uma revolução. Começou-se a debater para entender por que a Time, uma revista sisuda de tal renome, teria feito uma coisa dessas. O Snoopy foi o começo da Pós-Modernidade nas HQs, e aí que começou a mudar o que se pensava de quadrinhos. Isso coincidiu com a entrada de novas tecnologias nas escolas! Havia o retroprojetor e o projetor de slides como novidades. Todos queriam usar a imagem na sala de aula, e as HQs entraram como mais um recurso audiovisual.

Beatriz Rahde diz que, no Brasil, essa revolução chegou nos anos 1970. E, embora reconheça que há alguns professores reticentes, diz que o uso de HQs em sala de aula é bastante popular. E dá o exemplo de quem ensina a ensinar:

– Trabalho as possibilidades gráficas e as relações que elas podem ter com a sala de aula. Os meus alunos, quando se formam, vão para escolas com recursos e, bem, outros vão para escolas sem recursos. Como vou trabalhar só com computação? Trabalho desde o cartaz de cartolina até o de computador. No meio do caminho, estão as histórias em quadrinhos.

Jornalista, crítico de quadrinhos e editor do principal site de notícias do gênero no país (o Universo HQ, www.universohq.com), Sidney Gusman, diz que nos quadrinhos há excelentes adaptações sobre a História do Brasil.

– É evidente que, assim como em outros meios de comunicação, também há algumas “liberdades poéticas”, mas, no geral, os gibis são uma ótima ferramenta educativa, quando bem utilizados.

Um problema para essa boa utilização é a distância entre as editoras especializadas em quadrinhos e as escolas:

– Elas estão pensando demais no “agora” e esquecendo o “amanhã”. E, sem leitores novos, o “amanhã” ficará pra lá de comprometido. Raras são as editoras brasileiras que se preocupam em lançar quadrinhos que possam ser aproveitados em salas de aula, mas, ainda bem, há exceções, como a Companhia Editora Nacional (que, não por acaso, não é uma editora de quadrinhos), que lançou durante a Bienal o livro Pindorama: A Outra História do Brasil, de Lailson de Holanda Cavalcanti, e pretende adotá-lo com fins didáticos.

No Japão e na Europa, os quadrinhos têm outro status

Na Europa e no Japão, a relação com os quadrinhos já é bem diferente. Em primeiro lugar, porque o gênero não é considerado uma leitura prioritariamente infanto-juvenil, como ocorre no Brasil – provavelmente ecoando o modelo da indústria norte-americana, que fomenta o mercado nacional. Até na vizinhança, na Argentina e no Uruguai, os adultos compram muita HQ.

O crítico Hiron Goidanich lembra que a própria História sempre teve destaque nas HQs européias, e o exemplo é justamente a dupla de maior sucesso de lá: Asterix e Obelix, que dão o clima de resistência dos ancestrais dos franceses à dominação do Império Romano. Também da França vêm coleções portentosas como L’Histoire de France en Bande Dessinée (entre 1976 e 1979), uma série em 20 volumes pela Larousse.

– Fez tanto sucesso que depois eles fizeram a História do Mundo e A História da China, sempre em vários álbuns. Em Portugal, por conta dos 500 anos da América, saiu a coleção Relatos do Novo Mundo, da Planeta D’Agostini, com 56 volumes – recorda Goida.

A profa. Beatriz Rahde complementa: A escola francesa é bastante tradicional, mas trata da HQ de uma maneira muito séria.

Segundo ela, a França também é pródiga na pesquisa de quadrinhos. Antoine Roux, já nos anos 1970, lançou a possibilidade de que a HQ poderia ser educativa. Já a pesquisadora Evellyne Sullerot (no livro La Bande Dessinée), por exemplo, constatou, no início dos anos 1990, que a HQ é importante na educação. O motivo é simples: de acordo com o levantamento, “o jovem que lê quadrinhos é o jovem que lê”. A obra é concluída ao afirmar que a HQ estimula a percepção e desenvolve outras cognições em sala de aula.

Não é só na Europa e no passado que a História entra nos quadrinhos. Goida lembra de um título brasileiro recente: Fawcett, HQ de André Diniz desenhada por Flavio Colin, que conta a história de um aventureiro da vida real, coronel do exército britânico, que se embrenhou na Amazônia, em 1925. A revista, produzida pela editora independente Nona Arte, está à venda no site www.nonaarte.com.br, em que pode ser lida em formato digital pela internet. Colin é um capítulo à parte na adaptação de História para o formato HQ – é dele a arte de A Guerra dos Farrapos, revistinha com roteiro do escritor Tabajara Ruas que teve 100 mil exemplares distribuídos gratuitamente pelos postos Ipiranga em 1985 e mais 20 mil recentemente em edição destinada às bibliotecas das escolas públicas gaúchas. Além disso, houve uma versão ampliada em álbum. Todas, lamentavelmente, fora de catálogo.

Temas com profundidade

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Foto: Inês Arigoni

Foto: Inês Arigoni

Recentemente, o Brasil viu chegar às livrarias outros títulos bem interessantes apontados por Goida: O Último Dia no Vietnã, de Will Eisner, e as obras do repórter Joe Sacco, Palestina e Gorazde, que são, na verdade, reportagens em quadrinhos realizadas em zonas de guerra e, portanto, atualíssimas. Já Gen: Pés Descalços também se passa numa guerra: mais precisamente no fim da Segunda Guerra, e mostra a vida de um menino japonês antes e depois da bomba atômica.
Sidney Gusman completa a lista com títulos nacionais: Adeus, Chamigo Brasileiro, de André Toral (Companhia das Letras): Casa Grande e Senzala, o livro de Gilberto Freyre adaptado para as HQs por Estêvão Pinto e Ivan Wasth (Abegraph); Zumbi: A Saga de Palmares, de Antonio Krisnas e Allan Alex (Marques Saraiva); e O Segredo da Jurema, de Carlos Patati e Allan Alex (Marques Saraiva).

A professora Beatriz Rahde, porém, adverte que não basta largar uma revistinha na mão dos alunos:

– O professor tem de estudar a história das HQs, técnica narrativa, estética visual. Não dá pra largar nas mãos dos alunos e só. Afinal, nem toda HQ é boa, assim como nem todo filme é bom. Nosso dever é desenvolver espíritos críticos.

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