Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 085 | Ano 9 | Set 2004
ESPECIAL

Os Mil Olhos do Mercado

Jimi Joe

Pouca gente sabe ou se deu conta que pode estar sendo filmada no momento de comprar inocentemente um frasco de amaciante no supermercado. Imagens sobre o comportamento de consumidores nas gôndolas dos supermecados são utilizadas, sem qualquer autorização prévia, para estudos de consumo. Mas não é só isso. Somos observados nos bancos, na ruas, no shoppings, e tudo que nos pedem é: sorria, você está sendo filmado. A falta de segurança à privacidade pode começar no momento em que adquirimos um telefone celular, uma assinatura de revista; ao acessarmos a internet; ao realizamos uma operação bancária; coisas corriqueiras em nosso dia-a-dia. Todos sabem que empresas comercializam dados de clientes entre si, resultando num bombardeamento de malas diretas e telemarketing indesejados. Isso, sem contar as avalanches de e-mails publicitários a que somos expostos, ou melhor, submetidos, todos os dias. Somemos a isso a possibilidade de rastreamento eletrônico com a implantação de chips nas mercadorias e até mesmo em seres humanos. Futuro? Ficção científica? Não. Trata-se de possibilidade real e imediata. Em breve, poderemos estar à mercê de um olhar cego com poder de observar todos os nossos movimentos e comportamentos de consumo, sem que nos seja pedida licença e sem que nos concedam sequer frases de consolo do tipo: “Sorria, você está sendo chipado”.

Em meados do século 19, o anarquismo radical de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), considerado um dos papas da dialética moderna, anunciava a rejeição a todas as formas de controle do Estado sobre o cidadão. Cerca de cem anos depois, em 1948, amargurado pelo cenário britânico do pós-guerra, George Orwell escreveu um dos pilares da ficção antitotalitária. Seu livro 1984, trazia a figura do Big Brother, um líder sem rosto ou forma física definida, mas onipotente e onipresente, em um suposto mundo futuro no qual, numa espécie de megaparanóia, todos e tudo são constantemente controlados e vigiados. A realidade do pós-guerra gerou outros medos nos pobres seres humanos espalhados por todo o planeta. A divisão do mundo em duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, e dois principais sistemas político-econômicos, capitalismo e comunismo, levoram ao surgimento de uma nova paranóia: a eventualidade de uma hecatombe nuclear que poderia, supostamente, ser deflagrada a qualquer instante por qualquer motivo, por mais insignificante que fosse. Os medos gerados pela chamada Guerra Fria serviram durante quase 50 anos para manter a população mundial em um estado de tensão e, conseqüentemente, de autocontenção. No começo dos anos 90, com a queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética, o planeta trocou o comunismo pelo consumismo. O capitalismo parece ter vencido a batalha sem detonar nenhuma arma nuclear.

Em nome de instituições sagradas ao capitalismo, como lucro, redução de custos, controle de qualidade e cadeia de suprimentos, novas tecnologias e atitudes agressivas de mercado passaram a ser desenvolvidas e adotadas, pouco importando até que ponto isso implica invasão da privacidade de cada consumidor. É o caso do sistema de etiquetamento RFID, que vem sendo desenvolvido e aplicado pelas empresas desde a segunda metade dos anos 90. RFID, que quer dizer Radio Frequency Identification (Identificação por Radiofreqüência) é um sistema de etiquetamento individual de mercadorias que representa um passo à frente do já habitual código de barras, incorporado ao dia-a-dia do comércio mundial. Ao mesmo tempo, o sistema RFID vem sendo objeto de polêmicas e debates por significar uma intromissão a mais no cotidiano de milhões de pessoas no mundo todo.

Informação e dinheiro eletrônico

“Agora e cada vez mais, nos próximos anos, a informação vai ser o grande trunfo a nível mundial”, diz Filipe Müller, coordenador acadêmico da Escola Supeior de Propaganda e Marketing (ESPM). Para ele, as grandes empresas no mundo inteiro estão basicamente preocupadas com um item em sua atuação: redução de custos. “E para conseguir redução de custos, a obtenção de informações é vital”, diz. Para obter essas informações necessárias a operações igualmente básicas, como controle de estoque ou logística, Müller afirma que as empresas vão cada vez mais “entrar na vida das pessoas”. No entanto, ele destaca que a redução de custos é apenas um dos grandes enfoques das grandes empresas sob o ponto de vista de processos/logísticos. “As empresas também buscam fortemente o aumento de valor percebido pelo consumidor de modo a manter ou obter uma vantagem competitiva sustentável. Mas quem exige isso somos nós mesmos”.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O sistema de rastreamento dos produtos por radiofreqüência, embora ainda não totalmente implementado, é uma realidade mais do que latente. A rede americana Wall Mart, uma das maiores redes de supermercados do mundo todo com vendas anuais de até 300 bilhões de dólares, está exigindo que os seus 100 maiores fornecedores se adaptem à nova tecnologia no máximo até 2005. A adoção do RFID é favorecida por alguns fatores básicos. Um deles é o baixo custo do sistema. Cada chip/etiqueta aplicado ao produto tem um custo irrisório de centavos de dólar e a tendência é a de cair ainda mais com a sua adoção massiva. Outro, já mencionado, é a redução de custos. Com a chipagem dos produtos, as lojas e supermercados vão acabar eliminando custos com pessoal que atualmente trabalha em setores como manutenção de estoques. O chip, em contato com uma central, vai informar quando o estoque está baixo, e devendo ser reposto sem necessidade de uma verificação visual por funcionários.

A soma da chipagem dos produtos com o uso cada vez mais freqüente de cartões de débito por parte dos consumidores vai acabar eliminando até mesmo a figura dos caixas de supermercados, analisa Müller. “Chegou a hora de repensar a maneira como a sociedade trabalha”, diz ele, prevendo um futuro não muito agradável em termos de relações do trabalho. Mais que uma mexida no mercado de trabalho em busca de custos mais baixos, Müller diz que as novas tecnologias vão invadir cada vez mais a privacidade do cidadão.

Ao que parece, com a adoção do RFID, o fantasma do Big Brother de Orwell ganha novas e inusitadas proporções. Se com o código de barras havia um controle de estoques de mercadorias, com o RFID cada produto ganha um número individual. Quando o produto é adquirido em uma loja, os dados são enviados por radiofreqüência para uma central, sediada nos Estados Unidos, claro. Adicionando o chip do produto ao cartão de débito de quem o comprou, aquele consumidor pode passar a ser localizado em qualquer lugar para onde tenha levado o produto. Além disso, todos os dados do consumidor que caírem no sistema vão passar a ser divididos por todas as empresas com acesso ao Auto Id Center, a tal central mundial de controle dos produtos etiquetados com chips e antenas de radiofreqüência.

Até que ponto essa rede de informações, teoricamente para ser utilizada como ferramenta de mercado, não poderá sofrer interferências de órgãos governamentais em busca de controle dos cidadãos? Afinal, nesses tempos modernos de consumismo desbragado, as fronteiras entre governos e empresas privadas são cada vez mais tênues e os envolvimentos cada vez mais comprometedores. O premiado documentário Farenheit 9/11, de Michael Moore, sobre os atentados de 11 de setembro e a subseqüente guerra do Iraque, deixa isso bem claro ao explicitar as relações comerciais entre a família Bush e a família Bin Laden, supostamente mocinhos e bandidos nos traumáticos ataques terroristas. Se a idéia de novos ataques terroristas vai ou não levar governos e empresas a usarem o novo sistema de etiquetagem como mais uma ferramenta para rastreamento de pessoas suspeitas ou indesejáveis não é a questão fundamental. O fundamental é que tecnologia para isso já existe. Ou seja, mais uma grande parcela, senão tudo o que ainda resta de nossa privacidade, pode estar indo pelo ralo graças a essas novas tecnologias.

E apesar de dizer que a sociedade precisa repensar esses novos comportamentos, Müller afirma que aparentemente a adoção de tecnologias como o RFID é irreversível. “Tanto porque as grandes corporações no mundo inteiro são favoráveis a questões econômicas quanto porque a maior parte da população provavelmente vai aceitar esse novo tipo de controle eletrônico, seja por comodidade ou por desinformação.” Ele lembra ainda que o projeto do RFID prevê que lojas e supermercados disponibilizem para seus consumidores balcões eletrônicos para “desetiquetar” os produtos adquiridos unitariamente. Mas quem, na pressa de sair de um supermercado, vai parar para “limpar” um rancho de 50 itens, um a um?

Invasão de privacidade

O debate sobre a invasão de privacidade via colocação de chips e radiotransmissores em praticamente todos os produtos industrializados como forma de redução de custos e mais segurança na prevenção de roubos chegou ao Brasil este ano, mas já é assunto polêmico na Europa há muito tempo. Quem lembra isso é a artista plástica alemã e pioneira em networking Rena Tangens, fundadora de um grupo em defesa da privacidade. Rena diz ainda que “não consegue ver aspectos positivos na adoção de sistemas como o RFID para consumidores e cidadãos”. Além disso, observa Rena, já ficou evidente que as companhias vão poder colocar dispositivos de radiofreqüência nos produtos disfarçadamente sem que os consumidores sequer saibam disso. Do outro lado da linha, presidindo uma empresa de segurança, a RSA Security, Art Coviello não discorda muito da posição de Rena. “O fundamental sobre tecnologia é que é preciso haver cooperação entre governos, consumidores e vendedores. Os consumidores não podem ficar passivos. Eles devem estabelecer seus direitos e dizer como eles querem ser protegidos.”

Dan Schell, editor da revista Business Solution, acredita que as preocupações com a polêmica quanto à privacidade concernente ao uso de tecnologia como o RFID é prematura. “Lembre-se, a utilização em larga escala da chipagem de produtos com o sistema RFID ainda vai levar muitos anos para acontecer devido justamente a questões sobre pivacidade que vem sendo levantadas, custos de equipamentos e problemas de integração que ainda estão por ser resolvidos”, diz ele. Além disso, Schell lembra que o sistema atual de código de barras para controle de estoque de produtos ainda vai permanecer em uso. Sobre a possibilidade de se usar o RFID para monitoramento da população, Schell acredita que “esse é um medo infundado”. Primeiro, segundo ele, o alcance de leitura dessas etiquetas é mínimo. “De fato, as questões e preocupações sobre o uso do RFID são controversas e assim acabam se tornando mais interessantes às agências de notícias. Infelizmente, o valor real da nova tecnologia está sendo menosprezado.
Chipados e apocalípticos

De qualquer maneira, a utilização do RFID não parece tão longe da realidade como sugere Schell. O sistema já vem sendo utilizado não apenas na monitoração de estoques de produtos industrializados como também para localizar animais de estimação perdidos e para multar motoristas infratores nas auto-estradas de vários países. E até mesmo seres humanos já estão se dispondo a serem “chipados”, como vem acontecendo em um clube noturno de Barcelona, na Espanha. Talvez por acharem que se trata de apenas mais uma moda passageira, muitos dos freqüentadores do Baja Beach Club tem aceitado a colocação de um chip em seus corpos. Com isso, eles não precisam mais nem sequer pedir seu drinque favorito no balcão. Basta passar o ponto do chip em um leitor e o garçon já vai saber o que o cliente bebe, pois o chip tem todas as informações sobre seu portador. A utilização de chips em pessoas pode se tornar útil na saúde pública, lembra Filipe Müller. “Pacientes que chegam ao hospital podem ter todo seu histórico médico avaliado em segundos pela leitura do chip implantado”, diz ele. “Mas ao mesmo tempo é uma faca de dois gumes, pois como o chip vai conter todas as informações sobre o paciente, inclusive nível de renda, ele pode acabar sendo discriminado por questões econômicas, por exemplo, na hora de ser atendido.”

O que é esse tal de RFID que tem gerado tanta polêmica e preocupação? O RFID se baseia em microchips miniaturizados e relativamente baratos. Menores do que um grão de areia, os chips são programados para “ouvir” uma freqüência de rádio específica e transmitir em resposta a um único sinal. É o uso da nova tecnologia na rede mundial de comércio e indústria, no entanto, que tem gerado toda uma discussão envolvendo a questão da privacidade. Quem advoga contra a adoção da nova tecnologia argumenta que, mais do que uma ferramenta inovadora para os negócios, o RFID é uma ultrajante invasão da privacidade do cidadão. O fato de as etiquetas permanecerem ativas mesmo depois de o consumidor deixar a loja tem gerado uma miríade de discussões sobre privacidade. A organização norte-americana Consumidores Contra Invasão de Privacidade pelos Supermercados está exigindo nos Estados Unidos que haja uma legislação federal e que os produtos etiquetados com RFID tenham essa informação no rótulo. Além disso, a organização quer que a mesma legislação traga artigos que tornem ilegal às companhias fazer uma conexão entre os chips dos produtos com as informações pessoais do consumidor que os está adquirindo. Para saber mais sobre a tecnologia RFID e suas possibilidades de invasão de privacidade, visite os sites www.nocards.orgwww.notags.co.uk .

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