Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 086 | Ano 9 | Out 2004
MOVIMENTO

Os sem-patrão na Bolsa de Valores

Gilson Camargo

Trabalhadores organizados em cooperativas estão recuperando indústrias falidas e mostrando que é possível combinar propriedade com o controle efetivo dos meios de produção e participação democrática na gestão das empresas. O modelo de autogestão surgiu nos anos 90, como resposta dos trabalhadores ao desemprego e à crise econômica que se seguiu à abertura da economia ao capital estrangeiro e provocou a quebradeira de indústrias país afora. De norte a sul, não faltam exemplos de massas falidas transformadas em unidades produtivas, competitivas e gerando lucros pela gestão dos próprios trabalhadores organizados em cooperativa. Sozinhas ou em redes, elas agora começam a se apropriar não apenas dos meios de produção mas também da logística e da exportação. E já constituíram até uma sociedade anônima para competir com as multinacionais de diversos setores. “Temos gestão aberta e estamos na vanguarda da bolsa de valores. Somos um ótimo negócio para os bancos: a economia solidária dá mais retorno do que o investimento em companhia telefônica”, diz César Pires, presidente da primeira sociedade anônima da história do cooperativismo criada para levar as empresas autogestionadas a competir na bolsa de valores.

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Foto: Agência JB

Foto: Agência JB

A Cooperativa dos Trabalhadores em Metalurgia de Guaíba (Geralcoop) surgiu em 2002, depois de sucessivas crises que levaram à falência da Companhia Geral de Indústrias em março daquele ano e à demissão de 620 funcionários. Com 14 anos de empresa, o atual presidente da Geralcoop, Niro Roni Nobre Barrios, conta que as condições da empresa eram precárias. “Era uma empresa centenária que não investia em maquinário, teconologia ou conservação. Mas ainda estava em operação e dava conta da produção do jeito que estava. Era um bom negócio.” A cooperativa foi criada por 250 trabalhadores e, no ano passado, faturou R$ 15 milhões com a produção de fogões a lenha e 300 toneladas de peças fundidas por mês para terceiros. Neste ano, a cooperativa começou a fabricar metais sanitários, mas o sonho dos trabalhadores é o início da produção de fogões a gás e de aquecedores com tecnologia própria. Para isso, conta com assessoria da Ufrgs para produzir uma parte dos equipamentos que atualmente só existe no mercado externo e equivale a 40% do custo do produto. “Quando estivermos produzindo isso com tecnologia própria, vamos economizar 15% no custo final”, projeta. Um plano de investimentos apresentado pela cooperativa ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prevê a aquisição da área fabril pelos trabalhadores por R$ 10 milhões. “Vamos comprar a área da fábrica, maquinário e equipamentos e reservar parte do empréstimo para capital de giro. Isso sim vai dar um grande incremento à produção”, aposta Barrios.

A trajetória da Cooperativa dos Trabalhadores Metalúrgicos de Canoas (CTMC) não é diferente. Diante da insolvência da metalúrgica Vogue, no final de 1999, um grupo de 103 trabalhadores assumiu a fábrica com a constituição de uma cooperativa durante o processo trabalhista movido pelos funcionários. Em vez de saírem com os créditos, saíram da audiência na Justiça do Trabalho como donos da unidade produtiva. “É a única cooperativa do Brasil que foi criada no Tribunal Regional do Trabalho”, relata o presidente da CTMC, João Henrique Barbosa da Silva. Hoje com 135 sócios, a cooperativa deixou para trás a época de salários atrasados, e a insegurança no chão da fábrica cedeu lugar à esperança, conta. A produção vai de torres aeólicas aos vagões para a rede nacional de cooperativas, passando   pela   fabricação   de   caldeiras  para   terceirizadas.

No final de setembro, uma missão empresarial de Montevidéu, no Uruguai,

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Foto: René Cabrales / Arquivo

Foto: René Cabrales / Arquivo

foi visitar a fábrica localizada em Canoas para selar um contrato para a produção de equipamentos de tratamento de água. A cooperativa também comemora o fechamento de um contrato para a produção de navios para a empresa de navegação Guarita. No último exercício, a CTMC faturou R$ 750 mil por mês e já projeta um faturamento superior a R$ 10 milhões para 2004. Em 2002, o primeiro ano sob a gestão dos trabalhadores, segundo Silva, foram distribuídos R$ 65 mil de participação nos lucros e, em 2003, a “sobra” foi de R$ 280 mil. “Este ano ainda estamos contabilizando. Foi uma luta muito grande para adotar essa mudança de comportamento, mas hoje todos os trabalhadores fazem retiradas acima do piso dos metalúrgicos, a cooperativa distribui os lucros e retém 10% do faturamento para investimentos”, compara.

Relativizando o socialismo

“A economia solidária é o socialismo possível do século 21, democrático e humano”, segundo a definição do secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, o economista Paul Singer. “Ninguém é louco de dizer que ela substituirá completamente o trabalho assalariado logo, mas isso deve acontecer no tempo de algumas gerações”, preconizou Singer ao participar de um seminário sobre economia solidária em São Paulo, em junho deste ano. Dois meses depois, antecipando as previsões de Singer, quatro cooperativas e duas empresas de logística e consultoria lançaram uma rede nacional para produzir vagões de carga e disputar contratos de até R$ 20 milhões com a Vale do Rio Doce e outras gigantes do setor, projetando um faturamento de R$ 300 milhões por ano.

A Rede Nacional de Cooperação Industrial (Renaci) uniu quatro coopetativas: a Coomefer, de Conselheiro Lafaiete (MG); a Coopemetal, de Criciúma (SC); e as gaúchas CTMC, de Canoas, e Geralcoop, de Guaíba, além da Solutio Empreendimentos e Consultoria Empresarial, de Porto Alegre, e Netrópolis Logística e Empreendimentos em Rede, de Santa Maria, empresas responsáveis pela gestão e prospecção de negócios. “A Rede permite às cooperativas dominar outras partes do processo produtivo para não ficarem reféns do mercado formal”, explica Homero Antunes Boucinha, sócio da Netrópolis.

As quatro cooperativas reúnem mais de oito mil trabalhadores, com a previsão de exportar o equivalente a 300 milhões de dólares por ano e investir um terço desse valor em um novo terminal portuário em Sepetiba (RJ). “Vamos peitar a Vale do Rio Doce e faturar 10 milhões de dólares até o final do ano”, antecipa César Quintana Pires, presidente da Ecomineral Comércio e Exportação de Minérios, a primeira sociedade anônima da história do cooperativismo, criada para levar as empresas autogestionadas a competir na bolsa de valores.

Resposta ao desemprego

Para um grande número de trabalhadores que se viu no olho da rua durante o processo falimentar das empresas onde trabalhavam, a associação em cooperativas foi a salvação da lavoura na última década. “O país não tem condições de gerar os 11 milhões de empregos que faltam e absorver os 1,2 milhão trabalhadores que entram no mercado todos os anos. A economia solidária tem sido uma resposta para o desemprego. Mesmo com todas as dificuldades de liberação de crédito, falta de reconhecimento e de políticas efetivas, não faltam exemplos de cooperativas bem-sucedidas”, diz Quintino Severo, presidente da CUT/RS.
Nos 178 empreendimentos urbanos para os quais a incubadora de cooperativas mantida pela CUT presta assistência no Estado, são mais de 3 mil postos de trabalho, uma estimativa que Severo já considera defasada. “Temos as experiências na agricultura familiar e na produção de leite que são modelo de autogestão pelo interior do Estado. O pessoal atingiu um nível de conscientização tal, que hoje ninguém mais quer trabalhar se não for na cooperativa”, relata. No caso das indústrias cooperativas, o problema não é a produção, mas os demais elos do mercado formal. “Não adianta produzir em regime de cooperativa e tentar vender a produção no mercado formal, minado pela concorrência de multinacionais”, sinaliza.

César Pires define que a economia solidária já superou de longe o estágio da alfabetização da economia. “O que mais nos surpreende é que o mercado, às vezes, não percebe que já estamos faturando: só pensam em alfabetização da economia. Mas a economia solidária só não está faturando mais por causa dos monopólios na logística, na exportação. Nosso campo virou todo um produto do oligopólio, todo mundo se aburguesou, se relacionam de forma pragmática com a grana, para não dizer outra coisa. De repente, o monopólio ficou doce”, ironiza.

 Peitando a Vale do Rio Doce

O objetivo da Rede, que projeta capacidade instalada de até 2,4 mil vagões por ano, é ter mais peso na hora de disputar concorrências. Os vagões de bitola métrica utilizados na malha ferroviária do Rio Grande do Sul serão produzidos pela CPMC, de Canoas, e os de bitola larga, comuns no Norte do país, pela Coomefer, em Minas. “Existe uma demanda de vagões no mercado, e, para assumir sozinhas a produção, tanto a Coomefer quanto a Geralcoop teriam que fazer investimentos muito grandes. Por isso, decidimos nos associar, cada um fazendo uma parte”, explica Niro Nobre Barrios, presidente da Geralcoop, constituída em 2002 pelos ex-funcionários da Companhia Geral de Indústrias e que fatura R$ 15 milhões por ano.

Um canal independente de exportação também está nos planos do pool de cooperativas. “Para atender ao mercado europeu, o país exporta 500 mil toneladas por ano. A exportação pode chegar a 5 milhões de toneladas ao ano, mas isso não acontece porque o único terminal competitivo é da Vale do Rio Doce”, aponta Pires. Segundo ele, as cooperativas vivem um paradoxo. A economia solidária ganhou espaço, mas tropeça nas barreiras criadas pelas grandes empresas. “O atual governo tirou a economia solidária da clandestinidade e criou condições para que pudesse disputar mercado com os grandes oligopólios. As cooperativas trabalham, geram postos de trabalho e renda, mas os mineiros correm o risco da demissão porque a produção não vai como poderia. De repente eu, que sou um trabalhador de cooperativa, posso peitar uma Vale e faturar até o final do ano 10 milhões de dólares com a exportação de 480 mil toneladas de minério de ferro. Mas não estamos conseguindo fazer isso de forma sólida porque a Vale cobra uma taxa no porto e inviabiliza as cooperativas, além de usar 100% do terminal para escoar a sua produção. A Vale deixou de ser uma empresa para ser um banco”, compara.

BNDES oferece parceria e exige contrapartidas

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Foto: Inês Arigoni

Foto: Inês Arigoni

A carteira de crédito do BNDES para o setor totaliza R$ 36,6 milhões em 12 operações financiadas desde 1997. Segundo o presidente do BNDES, Carlos Lessa, a economia solidária está no planejamento estratégico do banco. O maior investimento feito até agora foi o empréstimo para a aquisição dos ativos da massa falida da Conforja pelos trabalhadores da Uniforja, projeto integralmente financiado pelo BNDES, com um total de R$ 29,5 milhões. Inicialmente, o banco liberou R$ 22,2 milhões para quitação da compra do terreno, da planta industrial e dos equipamentos, arrematados em leilão por R$ 17,3 milhões, além de R$ 4,8 milhões para composição de capital de giro e de R$ 150 mil para programas de capacitação da mão-de-obra. As linhas de crédito para capital de giro específicas para empresas autogestionárias como o Programa de Apoio ao Fortalecimento da Capacitação e Geração de Empregos e Renda (Progeren) têm o mesmo custo financeiro da TJLP dos empréstimos comuns. A diferença é a taxa de remuneração do banco que para as empresas de autogestão é de 3,5% ao ano. Para as médias e grandes empresas, a remuneração é de 11% ao ano e, no caso das micro, pequenas e médias, de 1% ao ano. O problema é a remuneração das instituições financeiras que intermediam as operações de crédito, que ficam com 4,5% ao ano. Convidado a falar sobre o assunto, o diretor da área de inclusão social do BNDES, Márcio Henrique Monteiro de Castro, não se manifestou. “O BNDES quer ser parceiro dessas iniciativas”, tem repetido Lessa em visitas às cooperativas como a Geralcoop e a CTMC.

O presidente da Ecomineral, César Pires, diz que em nenhum outro governo houve tanto espaço e políticas públicas voltadas para a economia solidária como agora. “O BNDES está tendo essa visão estratégica para definir uma política que nenhum outro governo teve a coragem de adotar. É o banco da economia solidária. Claro que a relação com o capital ainda é predadora. Mas a instituição está sinalizando para uma nova relação com as empresas autogestionárias”, afirma. Para Luigi Verardo, da Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária (Anteag), as cooperativas são excluídas pelo excesso de burocracia. “O BNDES é um banco; vai querer a contrapartida. É muito difícil conseguir financiamento; as exigências podem comprometer o empreendimento. Banqueiro, se fica devendo, vai para a Itália; pobre vai é para a cadeia. E o trabalhador tem medo de dever. É um medo justificado. Existem casos de presidentes de cooperativas que assumiram as dívidas do empreendimento e foram parar na cadeia. A saída é ficar um tempo produzindo sem grandes créditos para equilibrar as finanças internas. Verardo diz que, de um total de 420 empreendimentos, 304 são legalmente constituídos em 129 municípios e geram 18 mil postos de trabalho. A maior é a Cooperativa Harmonia, uma usina de açúcar em Pernambuco que tem 17 mil associados, e a menor do setor é a Bruscor, de Santa Catarina, que fabrica cordas e tem 50 associados. O perfil das cooperativas que surgiram no Rio Grande do Sul a partir do processo de falência de empresas de todos os setores entre 1999 e 2001, com depoimentos dos associados, está no livro Autogestão em Avaliação, que será lançado ainda este ano pelo Ibase.

 

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