Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 088 | Ano 9 | Dez 2004
ENTREVISTA | HANS-ULRICH TREICHEL

Modernos, perdidos e sem-pátria

Keli Lynn Boop

Os textos dele já foram comparados aos de grandes nomes como Franz Kafka, Peter Weiss, Arno Schmidt, Ernst Jünger, Etzenberger e Thomas Bernhardt. O judeu tcheco Kafka também foi uma de suas influências literárias, assim como Thomas Mann e Philip Roth. Quando jovem, tocou piano e guitarra elétrica. Mas, quando percebeu que não era bom o suficiente, acabou desistindo de ser músico. A arte, entretanto, continuou a ter papel importante em sua vida, com reflexos em sua literatura. Hans-Ulrich Treichel, 52 anos, considerado um dos mais destacados autores germânicos contemporâneos, esteve pela primeira vez no Brasil, durante a 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, para autografar dois títulos, O Perdido (Der Verlorene) e O Acorde de Tristão (Tristanakkord), ambos editados pela Companhia das Letras. Nascido na pequena cidade alemã de Versmond (Vestfália), Treichel é autor de livros de poesia e de libretos para uma dezena de óperas para o compositor de vanguarda Hans-Werner Henze, cuja obra o inspirou a escrever, em 2000, O Acorde de Tristão. É ainda autor de textos líricos, textos sobre ciência literária e ensaios. Vivendo atualmente em Berlim, Treichel leciona no Instituto Alemão de Literatura, na Universidade de Leipzig desde 1995. Embora já fosse escritor conhecido por vários volumes de poesia, a consagração mundial aconteceu em 1998, quando lançou seu romance de estréia, O Perdido, atraindo a atenção de milhares de leitores ao ser traduzido para 21 idiomas.

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Foto: Inês Arigoni

Foto: Inês Arigoni

“ Meu estilo está estreitamente associado à minha perspectiva do mundo, e não tenho outra opção”, explicou Treichel numa concorrida mesa de debates promovida pela Câmara Rio-Grandense do Livro, o Instituto Goethe e a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA), durante a Feira do Livro.

Na tarde deste mesmo dia, num local que não poderia ser menos sugestivo – a biblioteca do Instituto Goethe, de Porto Alegre –, Hans-Ulrich Treichel conversou com o Extra Classe. Em tom agradável e fala pausada, quase confessional, Treichel falou sobre literatura, a Alemanha pós-queda do Muro de Berlim (fato que no último dia 9 de novembro completou 15 anos), e o sentimento de estar perdido na sociedade atual.

Extra Classe – Como o senhor se sente com a afirmação feita pelo escritor gaúcho, Luiz Antonio de Assis Brasil, que declarou recentemente que trocaria toda sua obra por poder ter escrito as duas primeiras páginas de O Perdido?
Hans-Ulrich Treichel
– Eu me sinto muito honrado e aceito humildemente a declaração do Assis Brasil, foi uma grande generosidade dele.

EC – Seu segundo romance, O Acorde de Tristão (Trista-nakkord, 2000), é uma história em torno de um escritor recém-formado que vive do seguro social e que acaba sendo contratado para escrever a autobiografia de um compositor erudito. O senhor compõe libretos para óperas, toca piano e guitarra elétrica. Qual a dimensão e a importância da música em sua vida?
Treichel
– A música sempre foi um sonho para mim e um objetivo a perseguir. Sempre sonhei em poder compor eu mesmo as músicas. Tive aulas de piano e de guitarra, mas chegou um momento em que reconheci que meu talento não chegava à qualidade que eu esperava de mim mesmo. Mais tarde, só fazia imitação de tocar guitarra. A música sempre foi uma área de escape/escapismo do pequeno mundo limitado de minha cidade natal e dos limites estreitos da vida provinciana, mas continua sendo o meio mais inatingível de expressão. Contudo, a fascinação pela música continua enorme porque a música consegue, da melhor forma, exprimir afetos e emoções. Isso tanto para a música pop, Beatles e Rolling Stones, que falaram a minha geração, mas também para ópera lírica, Verdi, até a opera contemporânea de Hans-Werner Henze. Aos poucos, fui reconhecendo que o meio de eu me expressar não era a música, e sim a palavra. Mas também na literatura, na linguagem e na palavra, a musicalidade tem um papel importante, tanto na poesia – gênero no qual comecei a escrever – como na prosa – que também deve ter um fluído rítmico.

EC – O judeu tcheco Kafka, o alemão de sangue brasileiro Thomas Mann e o americano Philip Roth foram citados pelo senhor como autores que o influenciaram. Embora sejam autores com características literárias distintas, uma das características encontradas nas obras deles é a ironia. A ironia também está presente em sua obra?
Treichel
– Concordo com a pergunta e confirmo que a ironia tem um papel importante na minha obra. Sempre gosto de frisar que a ironia e a melancolia correm juntas, paralelas. Acho que a melancolia talvez tenha mais força na minha poesia, e outras vezes a ironia na prosa, isso é alternado. A ironia seria um meio de lutar contra a melancolia, de se contrapor.

EC – O senhor já declarou que é preciso uma certa obsessão e condição neurótica para escrever. Soube que o senhor escreve dia-riamente, mesmo em viagens. Quantas horas escreveu hoje?
Treichel
– Hoje escrevi bem pouco. Tento escrever alguma coisa todos os dias e, quando estou escrevendo um romance, escrevo às vezes o dia inteiro. Como sou professor, não é sempre que consigo escrever todos os dias. É muito importante para mim ter sempre um texto já começado no computador, aí procuro me manter sempre em contato com este texto que já comecei.

EC – Como o senhor leciona no Instituto Alemão de Literatura, deve ter uma relação direta com a educação. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, temos o problema da questão da violência em sala de aula. Isto ocorre em seu país?
Treichel
– Recentemente houve uma avaliação dos cursos de ensino médio na Europa, e a Alemanha recebeu uma nota muito baixa em Educação. Não dá para comparar com os Estados Unidos. Há uns dois anos, mais ou menos, houve um caso de um aluno que atirou nos colegas e matou professores. Foi uma exceção à regra total. Um caso isoladíssimo. Acho que em uma determinada idade, principalmente na puberdade e adolescência, a violência acaba fazendo parte do desenvolvimento da personalidade dos jovens.

EC – Como é o sistema educacional na Alemanha?
Treichel
– O sistema de educação alemão é totalmente público e democrático. Não existe nenhuma universidade particular e há muitas bolsas para alunos de pouca renda. Quando o aluno chega no período do vestibular, ele tem que ter uma nota específica para entrar em alguns cursos, podendo, então, escolher o curso e a universidade que quer freqüentar, mas tudo vai depender da nota do aluno.

EC – O senhor vive em Berlim e trabalha em Leipzig. Como é a ex-capital do Reich alemão 15 anos após a queda do Muro? Há algum resquício daquele que já foi considerado uma das maiores esquizofrenias geopolíticas que o mundo já teve?
Treichel
– Falei sobre isso dias atrás em uma das palestras que proferi aqui no Brasil. Ainda se sente muito, mas está recrudescendo agora. É difícil comprovar concretamente, mas há um sentimento e continua havendo a oposição entre o leste e o oeste. Os salários são diferentes. No Oeste é tudo problemático, o desemprego é maior do que no leste. Uma inovação é que atualmente o centro de Berlim, que era do lado oriental, pertence a todos os alemães. Todos os teatros importantes do lado oriental se tornaram importantíssimos. Em função disso, o lado ocidental ganhou muito com novas experiências com a nova energia do lado oriental.

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Foto: Inês Arigoni

Foto: Inês Arigoni

EC – Seu mais recente romance Der Irdiche Amor é uma sátira. Fala de um estudante de história da arte sem talento que prepara uma tese sobre Caravaggio, O Acorde de Tristão fala sobre um escritor recém-formado que é contratado para escrever a autobiografia de um músico, e O Perdido é baseado numa experiência biográfica de seu irmão mais velho que se perdeu durante a fuga das tropas russas. Como surgem os personagens de seus romances e o que o inspira a criá-los?
Treichel
– Todos os meus personagens são meus parentes e aparentados comigo. Não são totalmente idênticos, porém dividem as minhas experiências. São parentes de mim mesmo, mas não são iguais a mim [risos].

EC – É possível as pessoas encontrarem suas identidades através da arte e da literatura?
Treichel
– Acho muito difícil o encontro do ser humano com ele mesmo. Não acredito. A literatura pode ajudar a estabelecer de novo a proximidade entre as pessoas. Escrevi O Perdido como uma história bem pessoal, quase autobiográfica, um destino bem particular de uma família. O livro foi traduzido para várias línguas, até para o tailandês. Consegui, com este livro, que a minha pequena história fosse compreendida mundo afora. Aí, sim, é que há um contato, uma proximidade entre a minha experiência de vida com pessoas completamente estranhas, e isso me deixou uma sensação muito boa. Concordo que as pessoas estão relativamente perdidas na sociedade moderna. Metafisicamente seriam pessoas sem pátria, sem terra natal.

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