Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 091 | Ano 10 | Mai 2005
CULTURA

Grandes músicas para pequenos ouvintes

Jacira Cabral

Cada vez mais uma indústria fonográfica paralela à das grandes vendagens coloca nas prateleiras títulos infantis de qualidade acima da média praticada pelo mercado. Exemplos nacionais e regionais mostram uma independência criativa que emerge de forma consistente na arte de produzir música para crianças.

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Foto: Tânia Meinerz

Foto: Tânia Meinerz

Enquanto Cassiano dorme o sono de seu 34o dia de existência, seus pais, Martina e Edgar, ela advogada, ele servidor público estadual, procuram na estante de CDs, em uma livraria próxima ao centro de Porto Alegre, o volume um do A Arca de Noé, de Toquinho e Vinícius. Ainda quando moravam na Alemanha, antes do nascimento de Cassiano, eles já haviam comprado alguns CDs de músicas para crianças. De volta ao Brasil este ano, o casal quer continuar a seleção de canções “de melhor qualidade”.

Cuidadosos em não fazer barulho para não acordar o filho, eles dizem que preferem músicas de temas simples, “mais ingênuos”, músicas com as quais a criança possa aprender. Mesmo que Cassiano recém tenha completado um mês, Edgar já imagina o filho descobrindo coisas sobre o mundo: “No volume dois do A Arca de Noé tem uma canção que fala sobre todas as formas do vento”, sorri.

Assim como Edgar e Martina, outros pais, tias e professores vasculham as prateleiras de livrarias e lojas de CDs para conferir o que há de especial para crianças. Conforme a jornalista com especialização em Literatura Infantil, Maria de Lourdes Vilella, este é em geral o público interessado em trabalhos elaborados, com melodias mais interessantes e letras inteligentes.

Qualidade não despreza a inteligência

Para o crítico de música e jornalista Juarez Fonseca, estas produções de qualidade são as que não desprezam a inteligência das crianças, encarando-as como seres que fazem parte do mundo e não indivíduos fragilizados, com percepção inferior à do adulto. “Estas novas produções têm qualidade porque não reduzem a criança a um ser menos capaz, sem condições para entender um trabalho mais elaborado”, argumenta.

Por outro lado, na opinião de Juarez, as crianças não devem ser vistas como adultos bobos. Na visão do jornalista, as crianças mudaram muito e já existem espetáculos teatrais que levam em conta estas mudanças: “A maioria dos musicais infantis provoca a inteligência das crianças; não são meros divertimentos”. Juarez prefere não julgar trabalhos do tipo Angélica e Xuxa, até porque não se interessa em ouvi-los. Já não é o que acontece quando encontra produções como Saltimbancos e Palavra Cantada: “Gosto de ouvir, me informam”.

Foi justamente um dos CDs do grupo paulista Palavra Cantada, com canções de Paulo Tatit e Sandra Peres, que há quatro anos levou Maria de Lourdes a incluir CDs de músicas infantis no acervo de sua livraria. “Os pais ficaram surpresos com a descoberta”, recorda. “Isto ainda acontece porque a imprensa não divulga estes trabalhos de boa qualidade. Parece que música para criança é um estatuto inferior”, critica.

Hoje o catálogo de CDs de músicas infantis de Maria de Lourdes inclui 80 títulos, na sua maioria produções de grupos que não têm expressão na grande mídia. Independente do que venha ou não a ser divulgado nos meios de comunicação em termos de música infantil, Maria de Lourdes se-leciona os CDs que coloca à venda em sua livraria com os mesmos critérios de qualidade que há dez anos emprega para encomendar livros para o público infanto-juvenil. Assim como Juarez Fonseca, a especialista não se interessa por produções que considera com grande apelo comercial: “Eu não conseguiria vender Xuxa ou Eliana, por exemplo”.

O que tem por aí

“Pensando bem, a chamada produção de qualidade não começa agora, ela sempre existiu”, considera Maria de Lourdes. Em suas investigações nos catálogos on-line de grandes distribuidoras, a jornalista descobriu algumas preciosidades como o CD de músicas de Villa Lobos para crianças. Um pouco mais recente, mas também já considerados clássicos, são as gravações Os Saltimbancos, 1977, e A Arca de Noé, 1980. O primeiro produzido e dirigido por Chico Buarque e Sérgio de Carvalho e o segundo, também com a participação de Chico Buarque, é a obra musicada de Vinícius de Moraes.

“ Au, au, au, ia, ió, miau, miau, miau, cocorocó. O animal é tão bacana, mas não é nenhum banana.” Quem não lembra? A letra de “Bicharada” dos Saltimbancos ilustra o recorrente uso do tema sobre animais na discografia infantil. Na Arca de Noé, Vinícius imagina a procissão de animais que saem para povoar a terra depois de 40 dias e 40 noites dentro da arca. E neste novo itinerário pela terra revisitada, o poeta faz aparecer “uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada … mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos, número zero”. A Arca de Noé também ganhou versão italiana chamada L’Arca – cansoni di bambini.

Em outra casa, em 1983, Toquinho convida vários artistas como Chico Buarque, Tom Zé, Simone para lançar Casa de Brinquedos. Menos famoso, mas com a mesma preocupação de produzir algo especial, o músico Hélio Ziskind grava em 1997 uma coletânea de seus trabalhos veiculados no Castelo Rá-Tim-Bum, X-Tudo e Cocoricó, da TV Cultura. No ano passado ele lançou o Cantigas de Roda. Mesmo ano em que Adriana Calcanhotto surpreende com Adriana Partimpim, apelido de infância. “Lição de baião”, a primeira faixa do CD, foi inspirada no que Adriana chama de parque de diversões, que era a coleção de discos de seu pai: “Havia de tudo um pouco, jazz, blues, rock, samba e muitos discos que me modificaram para sempre”.

Voltando aos animais, foi inspirada neles que a professora de música Kitty Driemeyer compôs as 11 faixas do CD Conversa de bicho, com o qual ganhou o Prêmio Açoriano de 2004, pela primeira vez editado na categoria música infantil. “Fico realizada pelo reconhecimento”, comemora. Formada no curso de Música do Instituto de Artes da Ufrgs, Kitty, desde que se formou, trabalha com sensibilização musical em escolas infantis. Neste seu primeiro CD de produção independente, ela busca a figura dos animais para construir metáforas de andamento e ritmo. Como o trabalho de divulgação também fica por sua conta, Kitty, além de visitar livrarias e lojas, faz shows e oficinas de sensibilização para professoras nas escolas.

(en) Cantando palavras

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Há dez anos, o duo Palavra Cantada, de São Paulo, também iniciava uma carreira de músicas para crianças fora do circuito comercial. “A receptividade foi ótima, a imprensa afirmava que finalmente existia música inteligente e de qualidade para as crianças”, recorda Paulo Tatit, que divide o trabalho com Sandra Peres nas composições do grupo. Mas, embora o comentário tenha partido de alguns membros da mídia paulista na época, Tatit diz que ainda não há como competir com as megapro-duções de determinados artistas em regiões brasileiras, onde o que conta é o que aparece na TV. “Fazemos sucesso em São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.”

Segundo Tatit, o interesse por fazer música para criança surgiu a partir de dois fatos. O primeiro foi durante a visita a um amigo em comum de Sandra e Tatit. Enquanto conversavam, o filho do anfitrião ouvia repetidas vezes um CD para crianças: “Era muito chato”, lembra. Incomodados, eles comentaram a falta de qualidade das músicas. Tempos depois, quando Sandra voltou de uma viagem aos Estados Unidos, trouxe alguns CDs infantis, com músicas interpretadas por “divas” norte-americanas e arranjos cuidadosos.

Desde então, Sandra e Tatit fazem música para crianças na faixa de zero a sete anos de idade. Hoje são mais de 270 mil discos vendidos, mas a dedicação continua: “Tomamos cuidado com todas as etapas das gravações. Depois de melodia e letra encaixadas, chega a hora dos arranjos, de pensar os instrumentos e procurar um bom produtor. É um gasto de tempo, dinheiro e discussão cri-teriosa indispensáveis”.

Lançamentos para baixinhos antenados

O Palavra Cantada também está lançando um novo CD. Depois do recente 10 anos, lançado em janeiro deste ano, chega o álbum duplo Pé-com-Pé e Pé na cozinha, que contou com o patrocínio da Petrobrás. São 15 canções fruto de uma pesquisa in loco sobre alguns ritmos de grupos regionais brasileiros. O primeiro CD, Pé-com-Pé, é dedicado aos diferentes ritmos de tradição musical brasileira. No segundo, Pé na cozinha, as mesmas faixas são reinterpretadas apenas instrumentalmente. Acompanha o CD um libreto com 56 páginas ilustradas, contendo as letras das canções e comentários do etnomusicólogo e músico Paulo Dias sobre cada um dos ritmos. Professores interessados em saber como adquirir Pé-com-Pé a preços especiais devem escrever via internet para o e-mail atendimento@palavracantada.com.br. Também está chegando em maio às lojas e livrarias mais um lançamento de Toquinho, regravando algumas canções do A Arca de Noé como “O caderno”, “A casa” e “O pato”, todas as músicas com Vinícius de Moraes. Toquinho no mundo da criança tem a participação de Chico Buarque, Simone, Sandy e Júnior. Além do CD, o lançamento traz um DVD com as músicas, brincadeiras e jogos de computador. Entre as canções novas estão “Errar é humano”, “Bicicleta”, “Aquarela” e “Mundo da criança”, que dá o nome ao CD. A gravação é uma co-produção da Circuito Música, Editora Delta e Gravadora Universal.

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