Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 094 | Ano 10 | Ago 2005
ESPECIAL

O escândalo nosso de cada dia

Paulo César Teixeira

O escândalo como arma política, substituindo o debate de idéias, é um fenômeno antigo. A palavra aparece já no século XVI, nos idiomas romano, francês, português e inglês. É usada na literatura panfletária de agressão e blasfêmia contra os monarcas, nos dois séculos seguintes. Na virada do século XVIII para o XIX ganha um novo caráter, ligado intimamente ao crescimento da imprensa. Neste sentido, é um fenômeno tipicamente moderno, segundo o professor John B. Thompson, da Universidade de Cambridge, da Inglaterra. “Uma vez que o escândalo político é inventado, torna-se um gênero narrativo e, logo adiante, uma arma na luta política, que ganha importância e fica cada vez mais forte a partir da década de 60 do século passado”, afirmou Thompson.

Não é difícil imaginar a razão. O escândalo como arma mortífera na arena política só é possível com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação, especialmente da mídia eletrônica, que transforma os agentes políticos em personagens de extrema visibilidade. “Tudo aquilo que, antes, permanecia oculto nos bastidores da ação política, vem a público com as novas tecnologias de vigilância e investigação – câmeras escondidas, fitas de gravação, grampos de telefone. Com isso, é possível captar, documentar e veicular o que está escondido. Neste sentido, a fronteira entre eventos públicos e privados torna-se obscura”, disse o professor de Cambridge, que concedeu entrevista ao Extra Classe em outubro de 2002.

Na política internacional não faltam exemplos de escândalos políticos. Um dos mais recentes é o do ex-presidente norte-americano Bill Clinton, capturado por uma mancha de sêmen no vestido de uma jovem estagiária da Casa Branca. “Nos Estados Unidos, o marketing investe fortunas na construção da imagem dos agentes políticos, buscando minimizar o risco de escândalos. O investimento é diretamente proporcional à fragilidade da figura pública dos líderes do país”, afirma o sociólogo e cientista político Gilson Lima, professor da FAPA e autor de Nômades de pedra – teoria da sociedade simbiogênica contada em prosas (Escritos Editora). Em contrapar-tida, já existem empresas es-pecializadas em fabricar escândalos, que cobram altos honorários para vasculhar a vida de lideranças políticas com o objetivo de destruí-las.

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Arte: Claudete Sieber

Arte: Claudete Sieber


O Brasil tem um vasto currículo de escândalos. “Faz parte da nossa história”, diz Lima. No período do Império, estavam relacionados a fofocas sobre desvios de comportamento, caracterizando heresias contra dogmas religiosos e valores morais da época. “Cartas de amantes que se tornavam públicas, por exemplo, desnudavam a intimidade de membros da Corte”, observa o professor da FAPA. O século XX assiste a uma transformação da natureza dos escândalos, que passam a ter conotação política e financeira.

Getúlio Vargas foi alvo de denúncias de corrupção e abuso de poder. As obras faraônicas de Juscelino Kubitschek foram construídas sob fortes rumores de malversação de verbas públicas. Ademar de Barros consagrou o lema “rouba, mas faz”. Mais recentemente, houve o impea-chment de Fernando Collor de Mello, o episódio dos Anões do Orçamento no Congresso Nacional e a queda de dois baluartes da política brasileira, acuados por escândalos no Senado – Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho. “Até mesmo o Judiciário, que é quase intocável, foi abalado com a prisão do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau”, lembra Lima.

O escândalo político ganhou tamanha dimensão que acabou transformando-se em objeto de estudos acadêmicos, a partir dos anos 80. Um dos principais expoentes dessa vertente do conhecimento é exatamente o professor americano, radicado na Inglaterra, John B. Thompson. “Na nova cultura política, o escândalo assume significação poderosa, porque coloca em questão a credibilidade dos líderes. Nas sociedades de democracia liberal, a aquisição e o exercício do poder político dependem do que eu chamo de poder simbólico. É a capacidade de persuadir e influenciar as pessoas, ou seja, conseguir que os outros acreditem em você, de modo a garantir a reputação, a credibilidade, a confiança”, afirmou Thompson.

Para o professor Gilson Lima, estamos hoje testemunhando o surgimento de uma nova elite, formada por “analistas simbólicos”, que se dedicam a fabricar a realidade, com base em todo um aparato tec-nológico. A constatação do cientista político tem como base teorias desenvolvidas por pensadores como o francês Jean Baudrillard, para quem o mais importante acontecimento da história moderna foi o desaparecimento da realidade. Bau-drillard considera que temos hoje uma fábrica de subjetividades, que injeta no mundo simulacros e simulações do real.

“Não mais se discute se os fatos são verdadeiros ou falsos, e sim se eles são verossímeis. O que está em jogo é o crédito simbólico”, afirma Lima. Em nosso escândalo doméstico, vale dizer que não há a necessidade de comprovação das denúncias que tomaram conta da arena política. A denúncia pode até ser desmentida mais tarde, mas mesmo assim ela não perde o crédito simbólico que ganhou ao ser divulgada. “Em outras palavras, se deu no Jornal Nacional, é verdade. Se ainda não deu, quem sabe temos a chance de salvar o dia”, brinca o professor da FAPA. Já ensinava o filósofo Nicolau Maquiavel, em sua obra-prima, O Príncipe, de 1513, que importante não é ser e sim fazer com que as pessoas acreditem que você é.

“Lula não é Collor”

Criador das revistas Veja, IstoÉ e Quatro Rodas (embora até hoje não saiba dirigir automóveis) e do Jornal da Tarde, de São Paulo, Mino Carta é um dos jornalistas de maior credibilidade do país. Em 1992, quando dirigia IstoÉ, a revista publicou o depoimento do motorista Eriberto França, comprovando que o tesoureiro Paulo César Farias depositava grandes somas de dinheiro na conta de Fernando Collor de Mello, o que resultou no impeachment do ex-presidente. Atualmente, Mino é diretor de redação de CartaCapital. Nesta entrevista ao Extra Classe, ele analisa a crise política e o comportamento da mídia na apuração das denúncias de corrupção.

Extra Classe – Qual é a sua avaliação do papel da mídia na crise política?
Mino Carta – Eu penso que o trabalho da mídia tem sido o de confundir as pessoas, e não o de apurar qualquer escândalo ou acusação com o maior rigor possível, como deveria ser feito. Querem manipular a opinião pública e impor como verdade o que precisa ser ainda comprovado. Por hora, o que há são tentativas, em parte bem-sucedidas, de imbecilizar e entorpecer as consciências para transformar o país em um rincão de idiotas. Imagine que o governo de Tony Blair ou de Jacques Chirac fosse acusado de manter corruptos debaixo do teto ou à sombra da bandeira, ou que houvesse algo similar ao mensalão na Inglaterra ou na França, embora seja difícil de acreditar que coisas assim aconteçam lá. O governo teria dito ao acusador: “Você tem provas? Não? Então, volte quando puder apresentá-las”. É simples.

Extra Classe – Como o senhor responde às acusações de que CartaCapital assumiu a defesa do governo?
Mino – Alguns afirmam que temos uma posição pró-Lula, mas a verdade é que somos a favor de uma investigação severíssima. Agora, se exigimos lisura de comportamento dos políticos, temos que exigir também lisura de comportamento da mídia, e não essa cobertura exaustiva, que privilegia o ruído pelo ruído e não faz sentido.

Extra Classe – De que forma o senhor analisa a situação atual do PT?
Mino – O PT teria a obrigação de apresentar um comportamento de lisura absoluta, até mesmo porque os demais partidos nós já sabemos como são. Durante anos a fio, o PT defendeu uma postura ética impecável. Se comprovadas as acusações, veremos que o partido afirmou coisas nas quais ele, na realidade, não acreditava. Tenho uma sensação forte de que petistas e gente do governo cometeram pecados graves. As caixinhas de campanha representam um pecado mortal, que, aliás, é cometido por todos os políticos do Brasil, talvez há 500 anos.

Extra Classe – O senhor imagina qual será o desfecho da crise política?
Mino – A mídia adoraria pegar o Lula. Esse é o desfecho que ela aguarda. Mas eu não acredito que Lula seja corrupto. Conheci vários presidentes, ministros, secretários, senhores do poder nas últimas cinco décadas, que eram corruptos. Lula não é um deles, embora nada impeça que haja perto dele gente corrupta. Mas Lula não é Collor de Mello.

Extra Classe – Em governos anteriores, houve interesse da mídia em investigar as denúncias de corrupção?
Mino – Em outubro de 1990, o jornalista Bob Fernandes fez uma reportagem para a IstoÉ, que eu dirigia, contando tudo o que estava acontecendo no governo de Fernando Collor. Houve uma tentativa de me comprar para que a matéria não fosse publicada. A Zélia (Zélia Cardoso de Melo, ministra da Economia de Collor) enviou um emissário para me oferecer alguns milhões de dólares em troca da não-publicação da reportagem. Mandei que ele se pusesse para fora da redação. A matéria saiu, mas a mídia não foi atrás. Seis meses depois, em abril de 1991, as elites resolveram dar um susto em Collor, porque o rapaz estava cobrando um pedágio muito alto. Então, saiu a entrevista do Pedro Collor na Veja. Era só para assustar o presidente, mas aí apareceu a figura do motorista Eriberto, que não é o Jéfferson ou a secretária do Marcos Valério, comprovando a ligação de Collor com a corrupção e aconteceu o que todo o mundo sabe. Da mesma forma, no governo FHC, não houve interesse da mídia em investigar as denúncias de corrupção. Ora, FHC comprou os votos para garantir a aprovação da emenda da reeleição. Além disso, quebrou o país três vezes. Ainda querem que ele ou outro tucano volte a governar.

Bem-vindo à humanidade

Principal alvo das denúncias de corrupção que varrem o país – pagamento de mesada a parlamentares para a aprovação de projetos do governo, empréstimos bancários para a formação de caixa 2 de campanha eleitoral, quantias milionárias de dinheiro escondidas na cueca de assessor, etc. –, o Partido dos Trabalhadores vive a pior crise de sua história de 25 anos. Para o professor Eduardo Corsetti, do Departamento de Ciência Política da Ufrgs, a perda de identidade do PT não é de hoje.

“O descompasso começou com elementos ideológicos, graças à aliança com setores da direita para ganhar a eleição presidencial e à implantação da reforma da Previdência Social, em oposição a aliados históricos, como o funcionalismo público. O PT agora só dá guarida ao setor financeiro, a quem condenou quando era oposição”, afirma Corsetti.

Professor da Universidade de Brasília e senador pelo PT/DF, o ex-ministro da Educação Cristovam Buarque defende que o partido adote atitudes concretas, como a nacionalização do poder interno e a incorporação dos movimentos sociais, garantindo assento às lideranças regionais e comunitárias em todas as direções partidárias. “Maquiagens e ações de marketing podem provocar o desaparecimento do partido”, adverte.

Roberto Romano, professor de Ética Política da Unicamp, entende que a crise não é só do PT, nem é do governo. “É do Estado brasileiro. Herdamos uma federação quase nominal, sem autonomia efetiva de estados e municípios, que define o padrão de relacionamento entre Legislativo e Executivo no plano federal.” Para ele, deputados e senadores entram no jogo do “é dando que se recebe” e criam uma fonte permanente de corrupção.

Em meio à crise política, o PT está desempenhando um papel pedagógico na esfera pública brasileira, ao desmontar seu próprio mito em praça pública, conforme o professor Gilson Lima, da FAPA. “Durante muito tempo, o partido apresentou-se à sociedade como detentor do monopólio da ética, como se estivesse acima dos conflitos. Agora, mostra-se frágil e impotente diante da vulgarização de um mundo mágico que acalentou. Bem-vindo à humanidade”, conclui Lima.

O ranking da corrupção

O Brasil ocupa o 70o lugar no ranking de honestidade no mundo, conforme pesquisa do Banco Mundial. É uma posição intermediária, ocupada também por Croácia, Sri Lanka, Letônia, Peru, Jamaica e Bielo-Rússia. Os campeões de honestidade são Finlândia, Suécia, Islândia, Cingapura, Holanda e Nova Zelândia. Os mais corruptos são Sudão, República Dominicana do Congo, Burundi e Afeganistão.

A estimativa é a de que, em todo o mundo, o custo econômico da corrupção gire em torno de US$ 1,5 trilhão, ou 5% do PIB mundial. No Brasil, o custo é de R$ 100 bilhões, ou 5,5% do PIB. O montante corresponde a um gasto anual per capita de R$ 800,00 ou R$ 67,00 por mês. Caso a corrupção fosse estancada, a renda per capita brasileira subiria de R$ 9.743,00 para R$ 16.394,80, com um crescimento de 68,27%. Inversamente, se a corrupção no Brasil atingisse patamares como os de Angola, a renda teria queda de 75%, passando para R$ 2.435,75.

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