Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 097 | Ano 10 | Nov 2005
NEI LISBOA

Campeões do não

Então somos os campeões do não, em nossa velha e orgulhosa gauchice de resolver assunto à bala. Como algum matusco lembrou durante a campanha, gaúcho não dobra a esquina quando vê o perigo. Querendo dizer, é claro, que puxa o revólver.

E acha que com isso está sendo valente. Muito macho. Já no caso do trabuco engasgar, de faltar munição ou de lhe arrancarem a arma com uma pernada, não se sabe onde vai parar tão categórica orientação sexual.

Eu, que gaúcho também sou – embora da estirpe do Peninha Bueno, que declara não exercer o mandato –, encarei a boca da urna em dúvida por conta de um único argumento: o do direito do cidadão brasileiro à estupidez. Todos as outras estultices da campanha do não eu já havia dispensado, mas a idéia de se restringir direitos civis por definição nunca me agradou. Cada um tenha o canhão que melhor lhe aprouver, é o que me parecia certo no caso, resguardados os ritos e limitações que o estatuto do desarmamento já estabeleceu. Então, o que fazer?

Quem decidiu por mim foi o dedo indicador. Frente às teclas, na hora H, apertou o sim sem vacilar. É o que se pode chamar de total determinação inconsciente. O dedo, sem nenhuma ponta de dúvida – ou nenhuma dúvida na ponta –, deixou pra lá os argumentos de um lado e outro e sintonizou o coração, simplesmente. Votei com a minha turma. Votei contra a outra, porque não vou com a cara deles. Só isso.

Depois, revelados os percentuais de votação, descobri que boa parte, se não o grosso mesmo, do que eu chamava de minha turma havia se bandeado para o outro lado. Imagino que o tal argumento da liberdade de escolha tenha sido decisivo para muitos, como quase o foi comigo. Mas outros tantos, creio, endossam as teses do cidadão de bem a se defender do malvado, da iniciativa individual substituindo a inoperância do Estado no combate ao crime.

É algo assustador, porque de fato, uma reação ao desastre ou à virtual ausência de uma política de segurança do Estado, mas ao mesmo tempo reproduzindo, replicando, a pobreza de idéias que a norteia: bandido bom é bandido morto e fim de papo. Salve-se quem puder, ou pelo menos quem puder comprar uma arma. Defesa da propriedade privada, cárcere para quem atenta contra ela, e estamos conversados.

São teses que só vão nos trazer mais do mesmo que já temos e lamentamos, mais violência e insegurança. Tão inconscientes e impetuosas quanto o meu voto, quem sabe, mas o meu dedo, ao menos, estava apertando um botão, não um gatilho.

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