Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 098 | Ano 10 | Dez 2005
PALAVRA DE PROFESSOR

As pesquisas eleitorais e o resultado do referendo

Hélio Radke Bittencourt

Apesquisa eleitoral é aquela que mais expõe os institutos de pesquisa, especialmente quando realizada às vésperas do pleito. Explico: a pesquisa eleitoral é uma das poucas onde o valor do parâmetro (verdadeiro resultado da eleição) se torna conhecido, sendo geralmente divulgado nos mesmos veículos de comunicação onde os institutos apresentaram as suas estimativas. Baseado neste fato, conclui-se que este tipo de pesquisa facilmente se transforma em boa ou má propaganda para quem a realiza.

No último referendo, realizado em 23 de outubro, fomos surpreendidos por grandes disparidades entre o resultado oficial e as estimativas dos institutos. Há várias especulações sobre os motivos destas diferenças, mas façamos, primeiramente, uma análise do ponto de vista estritamente estatístico. Existem sólidas teorias de Probabilidade e Inferência Estatística que permitem a projeção de resultados amostrais para toda a população com níveis de confiança e margens de erro conhecidos, tornando viável a realização de pesquisas por amostragem como instrumentos de planejamento, avaliação ou previsão.

As pesquisas por amostragem nunca permitirão o uso da palavra certeza, mas deverão ter uma alta probabilidade de acerto associada à margem de erro informada. As pesquisas realizadas pelo Ibope e Datafolha entre 18 e 21 de outubro revelaram, respectivamente, percentuais de 55% e 57% dos votos válidos para o Não, ambas com margens de erro de 2%, confiança de 95% e tamanhos amostrais superiores a dois mil eleitores. Estes resultados podem ser mais bem avaliados quando contrastados com os 64% contabilizados pelo TRE. A estimativa que mais se aproximou do parâmetro foi fornecida pelo Datafolha que, somada à margem de erro, atingiu 59%. A diferença de 5 pontos percentuais em relação ao TRE dá a impressão de ser pequena, mas quando calculada estatisticamente descobrimos que a probabilidade de o instituto produzir estimativas inferiores a 59%, com uma amostra de 2086 eleitores, é estimada em 1:1 milhão. Isso quer dizer que é pouco provável que haja uma diferença tão grande entre a pesquisa e o resultado final da eleição. Para tal, há três explicações possíveis: 1a) mudança súbita de opinião por parte dos eleitores; 2a) uma grande falta de sorte do instituto de pesquisa na seleção da amostra; 3a) … deixo a cargo da imaginação do leitor.

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