Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 102 | Ano 11 | Mai 2006
ESPECIAL

A outra margem do Guaíba

Por Roberto Villar Belmonte

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Foto: Tânia Meinerz

Foto: Tânia Meinerz

A família de Salomão Oliveira tenta diariamente sobreviver da pesca no Guaíba, apesar da redução do estoque de peixes. Chamado de rio pela população, o lago é estudado pelo pesquisador Carlos Tucci há três décadas. As belezas da região, irrigada pelo Delta do Jacuí, inspiram as letras e o som de Paulinho Pires. A luta contra o caldo de poluição estruturou o movimento ecológico gaúcho e até hoje mobiliza o ambientalista Flávio Lewgoy. Para o irmão marista Antônio Cecchin, as ilhas são motivo de grande preocupação social. O pescador, o cientista, o músico, o ecologista e o religioso são unânimes em alertar: as águas que garantem a vida em Porto Alegre precisam de ajuda.

Manhã de pescaria em plena Capital

– Seu Salomão, vocês pescam até no feriado de Tiradentes?

– A rede já está no canal de navegação há duas noites. Temos que puxar esta manhã para não prejudicar a qualidade dos peixes – explica o pescador de 66 anos quase feitos. A sexta-feira do dia 21 de abril amanheceu com cara de inverno em Porto Alegre. Ainda era madrugada quando a chuva começou a cair. A força do vento no barco ameaçava causar estragos nos 1.400 metros de rede mergulhados a 20 metros de profundidade, bem na frente da Usina do Gasômetro. Se a malha, ao ser retirada, prendesse em alguma pedra ou “cachopa” de mexilhão dourado, a nova praga do Guaíba, ela seria rasgada. De dentro d’água, mal dava para avistar os prédios da cidade encobertos pela nebulosidade. Poucos carros circulavam nas avenidas centrais.

Por volta das 9h, o Paz no Vale, movido por um pequeno motor de popa, saiu da Ilha da Pintada em direção à bóia que mostra aos navios o lugar exato do canal de navegação. Em poucos minutos, o barco de chapa de ferro de apenas 7,40 metros chegou ao local de maior profundidade escolhido pelos pescadores. Dois jovens foram escalados para o trabalho na chuva, Douglas, de 21 anos, um dos seis filhos do seu Salomão, e um adolescente de 17 anos, amigo da família. Antes de conferir os peixes, eles lançaram ao fundo do lago mais 800 metros de rede de nylon, com malha de 75 mm e altura de 3,5 metros. Ela é formada por pedaços de cem metros, atados um ao outro. Para manter a rede submersa, são usadas pedras e uma espécie de âncora feita de ferro de construção, chamada por eles de fatecha. Pequenas bóias são colocadas na parte de cima para manter a rede em pé.

Salomão de Souza Oliveira nasceu na Ilha da Pintada em julho de 1940, dez meses antes da grande enchente que inundou Porto Alegre fazendo com que os moradores das ilhas fossem levados para Guaíba. Ele aprendeu a pescar com o avô e com o pai, e agora repassa os conhecimentos da família ao neto Vinícius, de 8 anos, que o acompanha faceiro e com ar de aventura nas andanças de barco, até mesmo nos dias de chuva. Salomão mora com a família em duas casas de madeira construídas próximas da água, bem pertinho do local onde o rio Jacuí, quase sem poluição, encontra o Guaíba, ajudando a diluir o caldo de poluentes químicos e orgânicos do lago que abastece a capital gaúcha. Do atracadouro do pescador, dá para ver os prédios do Centro, o Cais do Porto e a Usina do Gasômetro.

O vento impediu o fim do trabalho matinal dos jovens pescadores no feriado de Tiradentes. Após retirar alguns peixes da água, eles desistiram para não danificar a rede. Voltaram no dia seguinte, com céu azul, e puxaram 30 quilos de pescado, uma colheita gorda para os padrões do Guaíba. Entre os troféus, uma piava de quase quatro quilos, pescada bem na frente do centro de Porto Alegre. A maioria dos porto-alegrenses talvez não saiba, mas tem muita gente tentando sobreviver da pesca. Ainda existe vida no lago. Alguém arriscaria dizer até quando?

Subsistência ameaçada

Quatrocentas famílias ainda tentam sobreviver da pesca no lago e na região do Delta do Jacuí, calcula Salomão Oliveira, o pescador da Ilha da Pintada com nome bíblico de rei que faz parte da diretoria da Colônia Z5. A família dele, formada por seis pessoas, pesca por mês cerca de 450 quilos de peixe, o que lhes garante uma renda entre dois e três salários mínimos. Os filés, já limpos, são vendidos na porta de casa.

– Agora a gente não tem mais uma ligadura só com o Guaíba. Ao longo dos anos as coisas vêm mudando. Hoje temos que subir o Jacuí e descer a Lagoa dos Patos para pescar. E mesmo assim a sobrevivência está ameaçada. Dos anos 80 pra cá o peixe começou a escassear.

A principal razão da escassez de peixes, segundo Salomão, é a extração de areia. Nos meses de novembro, dezembro e janeiro, os pescadores não podem pescar por causa da desova. Nestes três meses, algumas espécies de peixes como a piava, o grumatã, o pintado, o jundiá e o dourado (que hoje já está praticamente extinto) sobem para botar os ovos nos areais e no cascalho, onde eles têm refúgio. Na piracema, as bombas de sucção dos mineradores não param. Elas sugam tudo em um diâmetro de 60 metros. A desova que passa por este processo não eclode, e o processo termina ali.

Além da mineração, o pescador identifica mais quatro motivos para o desaparecimento crescente do pescado. Um deles são as lavouras de arroz irrigado, que “de Porto Alegre até São Jerônimo vamos encontrar de 400 a 500 bombas. Elas puxam e matam os peixes pequenos”, constata Salomão. Outra causa do desaparecimento dos peixes é a pesca predatória. Alguns pescadores ainda usam redes ilegais, com malha de 30 mm, e assim pescam também os filhotinhos.

Tem ainda a poluição, principalmente o lixo jogado no Guaíba. Muitas das espécies, como a traíra e o cará, não estão conseguindo mais se reproduzir. O lixo, como garrafas e sacos plásticos, encosta-se nas margens e destrói o plâncton usado como refúgio das espécies para a desova. Por fim, há o impacto ambiental do mexilhão dourado, espécie invasora trazida para a região nos cascos dos navios.

– Quando a rede chega na cachopa dos mexilhões, ela entranha. Como eles têm uma enzima muita forte e não se desgrudam, a rede arrebenta. As autoridades estão tentando combater a praga com veneno. Só que os peixes também morrem.

Seu Salomão Oliveira, como a maioria dos pescadores, tem dificuldades para sobreviver só da pesca. Para complementar a renda, há quatro anos ele se dedica ao peixe na taquara, prato que oferece em eventos cobrando dez reais por pessoa. Na Semana Santa, a sua banca foi um dos destaques no Largo Glênio Peres pela qualidade dos peixes assados (tainha, enchova e piava) no centro de Porto Alegre. “Eu criei um tempero especial, e também um espeto adaptado”, conta o pescador-cozinheiro todo orgulhoso.

Serrote para fazer música

O serrote ganha vida na mão de Paulinho Pires. Quando o músico de 72 anos roça a lâmina de aço dentada com um arco de violino, ela produz um som infinito que parece vir do espaço sideral, é um lamento profundo, doído. É como se a natureza nesta hora falasse através do menino que passou a infância brincando entre as Ilhas da Pólvora e das Flores. E muitos anos depois, na Oitava Califórnia da Canção Nativa, em 1978, apresentou uma composição musical na forma de um pedido de socorro – Súplica do Rio – em nome do Jacuí, responsável por mais de 70% das águas que formam o Lago Guaíba.

Não deixem morrer meu rio
Me ajudem por favor
O biguá que mergulhava já morreu
Aguapé não dá mais flor

A estréia do serrote ocorreu no cinqüentenário do Colégio Rosário, há mais de meio século. De lá para cá, Paulinho Pires ganhou notoriedade no mundo nativista como serrotista, gaiteiro, compositor e defensor da natureza. É famoso também pelo nó criativo que dá no lenço gaudério usado nos momentos que exigem o traje a rigor. Este detalhe na vestimenta sintetiza o modo de ser minucioso e cuidadoso deste ex-ilhéu, que canta para colaborar com as pessoas para melhorar o mundo. “Dentro daquilo que eu escrevo, tu vais sempre encontrar o rumo de uma mensagem positiva.”

Hoje olhando as águas turvas a rolarem para o mar
Que vontade de voltar aos bons tempos que vivi
Ver mamãe lavando roupa com sorriso de bonança
No seu rosto a esperança dos meus cantos de guri

Sentado em um banquinho, Paulinho Pires coloca de lado o violão que usa quando canta suas músicas e pega o serrote. O cabo ele prende entre os joelhos para que o balanço das pernas ajude na vibração do aço. A outra ponta ele segura com a mão direita. A esquerda desliza o arco do violino e também “dedilha” a superfície plana da ferramenta de corte transformada em instrumento sonoro. Com o dedo anelar, ele bate, e com o dedo mínimo ele abafa o som. As notas dependem da posição do serrote, próprio para acompanhamentos e melodias de notas longas, extensas como o Jacuí, o Guaíba, a Lagoa dos Patos.

Sinto sede de água pura
Quando a natureza chora
O silêncio das barrancas
Me pedindo pra cantar

Paulinho Pires mora com a sua “baixinha”, a esposa-companheira com quem vive há 37 anos, em uma casa na zona leste de Porto Alegre, mais perto do Arroio Dilúvio do que do Lago Guaíba. O seu “rancho” é simples, aconchegante e com verde por todos os lados. “A natureza é música pra mim.” Quando precisa recarregar as energias, visita uma irmã que ainda mora em uma das 28 ilhas do Delta do Jacuí. Lá ele reencontra as memórias da infância e reafirma a sua convicção ambiental expressa também numa frase escrita com letras verdes no seu cartão de visitas: “Não serre a natureza, faça música!”.

Lago da razão, rio do coração

O Guaíba é um lago de 50 quilômetros de comprimento e até 14 quilômetros de largura, localizado no lado oeste de Porto Alegre, entre a Lagoa dos Patos e o Delta do Jacuí. A enorme caixa d’água da capital gaúcha é abastecida pelas águas do Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí. Qual a dinâmica hidrológica destes quatro rios? Para responder a esta pergunta, Carlos Eduardo Morelli Tucci, 58 anos, pesquisador do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Ufrgs, escreveu uma tese de doutorado em 1978.

Em seus estudos, ele descobriu que as águas do lago, além de descerem para o sul na maior parte do ano, também sobem em direção a Novo Hamburgo, principalmente no verão. Este fenômeno, chamado pelos especialistas de seiche, ocorre quando as estiagens reduzem a descarga dos quatro rios do sistema Delta do Jacuí. “Se não fosse a oxigenação do Guaíba, o Sinos, um dos rios mais poluídos da região, já estaria morto”, garante o Engenheiro Civil Carlos Tucci, com mestrado e doutorado na área de Recursos Hídricos.

O seiche, uma espécie de maré, é causado pelos ventos em contato com a enorme área da Lagoa dos Patos, com 200 quilômetros de extensão e uma distância de até 60 quilômetros entre uma margem e outra, e também com a grande superfície hídrica do Guaíba, que tem um volume de água de pelo menos 2 mil km³, o equivalente a 2 milhões de hectômetros, de acordo com cálculos aproximados feitos por Carlos Tucci para o jornal Extra Classe.

O principal problema a enfrentar é a falta de tratamento de esgotos. Os pesquisadores, segundo o professor Tucci, já conhecem bastante sobre o funcionamento hidrográfico do Guaíba, apesar da falta de melhores medidas em alguns pontos e a necessidade de mais conhecimento sobre o impacto humano.

– Não sabemos ainda o tamanho da carga de pesticidas usada pela agricultura, e nem os riscos da petroquímica. Quais os produtos químicos que estão sendo depositados no fundo do lago? Conhecer e diminuir os impactos ambientais é o que falta.

Para quem ainda duvida que o Guaíba é um lago, o Doutor das águas tem dois argumentos. No rio há predominância longitudinal do fluxo da água. No lago que banha Porto Alegre existem fluxos transversais e longitudinais. Além disso, ele tem uma grande superfície, pois a largura varia de um quilômetro, na Ponta da Cadeia, na altura da Usina do Gasômetro, até 14 quilômetros. Se dependesse apenas da hidrologia, o nome do estádio do Internacional deveria ser Gigante da Beira Lago. Estranho, né?

O detetive da poluição

Um maluco decidiu virar terrorista e começou a explodir bombas em Porto Alegre no início dos anos 50, até que um químico novato da polícia técnica gaúcha descobriu o tipo de pólvora, pouco conhecida e bastante instável, que estava sendo utilizada. A partir desta informação, o criminoso foi preso. Ex-aluno do curso técnico do Júlio de Castilhos, o trabalho do jovem Flávio Lewgoy, recém-formado em Química Industrial na Ufrgs, era colher indícios materiais que levassem a identificar os autores dos crimes.

Após 30 anos de serviços prestados à força policial, ele olha para trás e lembra com orgulho que foi o responsável pela prisão e soltura de muitas pessoas, mas principalmente pela criação do laboratório de química forense. Com personalidade científica, Lewgoy também especializou-se em Genética e passou a dar aulas na Ufrgs, onde trabalhou na estruturação do laboratório inicial do curso e criou, em 1990, a disciplina de Ecogenética, que hoje foi incorporada por outras matérias.

Foi em 1971 que o policial-geneticista descobriu elementos químicos muito poluentes no carvão gaúcho e passou a dar entrevistas e mais entrevistas sobre o assunto. Neste ano, estava nascendo em Porto Alegre a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, de José Lutzenberger. Três anos depois, Flávio Lewgoy reforçou os quadros da entidade com o seu olhar arguto de pesquisador. “As lutas que diziam respeito à poluição química sempre me empolgavam, pois aí eu podia dizer alguma coisa.”

As lutas químicas que empolgavam Lewgoy, até hoje engajado no movimento ecológico, ajudaram a estruturar o ambientalismo gaúcho e até brasileiro. Depois das denúncias solitárias sobre a poluição do carvão, veio a briga contra o cheiro de ovo podre da fábrica de celulose Borregard, em Guaíba, que depois passou a ser Riocell e agora Unidade Sul da Aracruz. Outro momento definitivo foi o anúncio da construção de um Pólo Petroquímico águas acima de Porto Alegre no final dos anos 70.

Os resíduos tóxicos do empreendimento seriam lançados primeiro no Guaíba e depois na Lagoa dos Patos através de um tubão. A grita foi tão grande que gerou a construção de uma central de tratamento de efluentes, hoje motivo de orgulho dos petroquímicos. Foi também por esta época que restos de agrotóxicos começaram a aparecer no Guaíba. Daí nasceu em 1982, com a ajuda do policial-geneticista, a primeira legislação estadual para regular o uso dos venenos agrícolas, que acabou inspirando a legislação nacional.

– Eu não tenho uma visão sentimental do ambiente. Eu vejo o lago como um patrimônio natural. O Delta do Jacuí é um manancial para Porto Alegre. O Guaíba já estava em estado muito ruim nos anos 70, hoje está pior. No entanto, ele ainda não é um caldo podre. Tem futuro. Rios em estado pior já foram recuperados. Eu nunca fui banhista. Mas o que me dói é ver este manancial aos poucos se convertendo em uma massa d’água que talvez um dia não tenha mais condições de uso.

Aos 80 anos, o perito policial aposentado Flávio Lewgoy ainda acompanha com grande interesse as ameaças químicas ao Guaíba. Ele participa de reuniões, estuda artigos científicos na internet, troca informações com outros ecologistas, e alerta que a presença de organoclorados, gerados pela indústria e pela cloração da água potável, é grande no lago. Meio resignado, constata: “O crime ambiental é diferente dos outros crimes. Todo mundo sabe quem são os criminosos. Mas eles nunca vão presos”.

Irmão comprometido com a purificação das águas*

Por André Pereira

– Não quero mais saber de reza, irmão. Me bastou o período em que fui seu aluno. O senhor me empanturrou de religião. Agora, chega – declara, sorridente, o jovem e bronzeado empresário, vestindo bermudas brancas, imaculadas como a camisa Lacoste e o alvo boné imitando quepe de oficial da Marinha, com aba azul e o dístico com monograma dourado.

Com olhar esperto, o velho irmão vasculha a cabine de comando do iate do ex-aluno do Colégio Rosário, em Porto Alegre, onde lecionou nos anos 60 antes de ser preso pelos militares que golpearam a nação em 1964. E encontra, ao lado do leme, a imagem da santa, pequenina mas que se impõe, colorida e impávida estatueta. Então, interroga o dono da embarcação com expressão irônica.

– Irmão, com ela eu me agarro quando estou no meio do rio e o tempo muda, inesperadamente, trazendo tempestade, susto e mau agouro. Aí, rezo mesmo com a santinha… – rebate o empreendedor, pego na contradição de maneira tão singela.

– Ah! Desgraçado. Nesta horas a reza te convém…- diz, em tom de severidade brincalhã que não surpreende mais o antigo estudante rosariense, o irmão Antônio Cechim, santa-mariense de 79 anos que veio para Porto Alegre com 10 anos para estudar no internato do Colégio Champagnat e, depois, virar religioso da congregação dos Irmãos Maristas.

Irmão Cechim está aproveitando para completar mais um passinho da missão a que se dedica desde 1985 trabalhando com comunidades nas ilhas do Guaíba, lutando pela preservação das águas e pela despoluição ambiental.

Em 1985, já afamado pelo trabalho de organização dos movimentos populares na Grande Porto Alegre, onde liderou ocupações urbanas em condomínios residenciais, irmão Cechim foi convidado pela freira belga Marie Eve para substituí-la na tarefa que executava com os moradores das ilhas. Com 90 anos, quase cega, a freira passou-lhe o bastão na Ilha Grande dos Marinheiros onde fazia trabalho de catequese e estimulava a geração de renda, ensinando a ciência do artesanato em lã. Sem os mesmos dotes, irmão Cechim viu que das toneladas de lixo que as águas carregavam – principalmente durante as enchentes antes costumeiras – os ilhéus poderiam retirar sustento e, ao mesmo tempo, contribuir para a despoluição. Foi assim que em 1987 nasceu a primeira associação de catadores, depois recicladores de lixo, de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Em 1989, quando o Partido dos Trabalhadores de Olívio Dutra assumiu a prefeitura da capital propôs ao irmão Cechim a transformação daquela prática em um elemento da política pública da municipalidade em relação às ilhas. Ali na Ilha Grande dos Marinheiros, entre o povo de recicladores, areeiros e pescadores, instalou-se o primeiro Centro Administrativo Regional (CAR) de Porto Alegre nos primórdios da descentralização administrativa que o governo dito da Frente Popular praticou por 16 anos com o sistema do orçamento participativo (OP). “Enxameei as ilhas com outros galpões de reciclagem que hoje somam 18 associações só na cidade e cerca de 100 no estado”, festeja Cechim.

Agora, diante do feliz proprietário do iate, como faz com todos potenciais cúmplices de jornada, especialmente aos que têm alguma ligação com o lago (de dependência, afeto ou lazer), também Cechim pede ajuda, para que se incorpore, da forma como puder, e propague a idéia de resgate do Guaíba que tem águas tão impuras hoje quanto sagradas na origem da vida. (“A gente não nasce de uma bolsa de água?” simplifica o religioso).

Do ponto de vista institucional, esse apelo à conciência ambientalista dos gaúchos com relação à importância do Guaiba, foi consolidado com a realização das Romaria das Águas no dia 12 de outubro, que é data consagrada à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

O evento nasceu em 1994 como uma espécie de afirmação da devoção ao lago, que a parte oficial da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes despreza no dia 2 de fevereiro, preferindo o percurso terrestre, desde a Igreja do Rosário no centro da capital até a igreja de Navegantes, no bairro da zona norte. Pois com outra santa, o irmão Cechim tratou de institucionalizar esta Romaria das Águas de outubro. Mas hoje já não tem o auxílio do atual governo estadual – que encontrava na gestão anterior em parcerias solidárias do Programa Pró-Guaíba. (Em 1999, a romaria do lago passou a abranger toda a Região Hidrográfica do Guaíba, com 84,7 mil km2, formada por nove bacias hidrográficas e mais de 250 municípios, beneficiando uma população de mais de seis milhões de habitantes.” De nada adiantaria se apenas o lago Guaíba fosse despoluído pois ele recebe diretamente as águas dos rios dos Sinos, Gravataí, Caí e Jacuí”, sentencia Cechim).

Mesmo assim renegado pelo poder público, ele vai realizar a Romaria das Águas, neste ano de 2006 com os recursos que obtiver e com o voluntariado que puder atrair. Conta que vai recorrer às dioceses da igreja católica que circundam as nove nascentes de rios Gravataí, Caí, Sinos, Pardo, Taquari, Antas e os baixo, médio e alto Jacuí que desaguam no Guaíba.

Vai pedir apoio para repetir o ritual feito na Usina do Gasômetro quando, no auge da cerimônia, na celebração ecumênica que reúne de católicos e a umbandistas, são misturados os líquidos límpidos recolhidos em cada uma das nove nascentes formando a água pura que então é jogada no escurecido e imundo Guaíba, simbolizando o compromisso de todos com a luta pela purificação do lago.

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