Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 103 | Ano 11 | Jun 2006
PALAVRA DE PROFESSOR

Para que quebrar o barraco?

Joselma Maria Noal

A música popular brasileira tem Elis Regina e Tom Jobim, mas, infelizmente, também tem Tati Quebra-Barraco. A começar pelo nome artístico escolhido, revelador, mostra a que veio Tati – para quebrar, romper, com o quê? O Barraco seria o Brasil? A intenção me parece a de terminar com a qualidade musical de nosso país.

Não se trata de modo algum de preconceito, seja ele racial ou social. Reconheço o talento vindo da periferia. Bezerra da Silva cantou a favela com primazia, denunciou os problemas sociais, as barbaridades, os preconceitos, representou com dignidade o seu povo. Sem falar em Zeca Pagodinho! Não sou fã de rap, mas sei que Marcelo D2 tem talento. MV Bill, além de músico e autor do livro Cabeça de porco, foi premiado pela Unicef e Unesco por seu engajamento social na ONG Central Única das Favelas – projeto que atende a jovens de comunidades carentes. Este sim exerce sua cidadania e é um brasileiro do qual podemos nos orgulhar! Quanto à chamada Black Music, temos Tim Maia e Sandra de Sá, entre outros tantos músicos deste país.

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Arte: Rodrigo Vizzotto

Arte: Rodrigo Vizzotto

Voltando à Tati Quebra-Barraco, conheci a sua “música” em um aniversário de quinze anos e fiquei chocada, não só pela letra, pelo ritmo, mas também pela coreografia. Tive a certeza de meu envelhecimento. Entristeci-me ao ver as adolescentes cantando felizes o fato de serem “cachorras” e os meninos entusiasmados se sentindo “tigrões”! As letras são discriminatórias, preconceituosas. Vão muito além do machismo, são depreciativas, vulgares, rudes.

Cabe destacar que, antes da escrita deste artigo, li todas as “letras de músicas” de Tati Quebra-Barraco, pois gostaria de fazer uma análise mais minuciosa, mas como não encontrei fragmentos possíveis de serem publicados em um texto de opinião, farei apenas algumas referências de minha leitura atenta. As letras são repetitivas, versam sobre a banalização e a violência sexual, estimulam a infidelidade, em uma linguagem absolutamente grotesca, ofensiva. Talvez seja interessante para estudiosos da linguagem vulgar e para o aprendizado de novas nomenclaturas para posições sexuais e para membros genitais. Sem dúvida, Tati quebra o barraco e o sucesso a ela atribuído é vergonhoso no país da Bossa Nova e do Tropicalismo.

Finalizo com minhas desculpas aos fãs de Tati Quebra-Barraco. Confesso que sou jurássica, saudosista e me orgulho de ter vivido minha adolescência cantando e dançando Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Ira, Titãs e Barão Vermelho.

 

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