Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 108 | Ano 11 | Nov 2006
ESPECIAL

Os males do século 21

Por Roberto Villar Belmonte

Os milhares de peixes mortos que apareceram no rio dos Sinos no início de outubro causaram uma comoção pública e uma reação imediata do poder público. É sempre assim, depois dos desastres, sempre paramos para pensar sobre o custo ecológico do nosso conforto. A preocupação, no entanto, logo desaparece. Fazemos questão de esquecer a poluição atmosférica das nossas cidades, as substâncias químicas artificiais que nos contaminam, as bombas atômicas capazes de destruir o planeta sete vezes e o lixo radioativo que ameaça a vida na Terra. Até a próxima catástrofe ambiental.

Há anos os ecologistas gaúchos denunciam as péssimas condições ambientais do rio dos Sinos, contaminado por efluentes industriais e pelo esgoto doméstico. Apesar das advertências, só depois que as imagens do desastre dos dias 7 e 8 de outubro – que matou mais de 100 toneladas de peixes – foram mostradas para todo o Brasil é que as autoridades decidiram agir de forma enérgica. Seis empresas receberam multas, e 32 prefeituras estão obrigadas a apresentar um plano de saneamento.

Estratégias de fiscalização foram anunciadas pelo Governo do Estado, que também promete instalar uma estação automática de monitoramento da água dos rios dos Sinos e Gravataí, os dois mais poluídos da Região Hidrográfica do Guaíba, segundo diagnóstico realizado durante o primeiro módulo do Programa Pró-Guaíba, atualmente paralisado por falta de verbas. A causa da mortandade, segundo as autoridades ambientais, foi a falta de oxigênio ocasionada por poluição orgânica, “com predominância doméstica”.

O termo “predominância doméstica” da nota oficial sobre o desastre ecológico significa fezes e urina. Sim, somos os únicos animais que defecam e urinam na própria água que usamos para beber, apesar de já existir diversas tecnologias de tratamento desses resíduos. Pesquisa realizada por Luiz Roberto Malabarba, da Ufrgs, revelou, em meados de 1990, que existem peixes com deformações ósseas causadas pela poluição no lago Guaíba, contaminado pelo esgoto de Porto Alegre e por efluentes industriais.

Se a poluição é tão intensa a ponto de causar mortandades de peixes e até deformações ósseas, que tipo de resíduo pode existir nos peixes que sobrevivem e são usados para a alimentação humana? E na água que bebemos? Se a maioria dos poluentes químicos é cumulativa, que substâncias tóxicas existem na população que consome peixes contaminados, produtos vegetais com resíduos de agrotóxicos, vive em ambientes com todo tipo de produto químico e respira ares urbanos poluídos?

Apenas um estudo epidemiológico de grande escala poderia descobrir qual o grau de contaminação dos seres humanos que vivem no “civilizado” século XXI. Obviamente tal pesquisa nunca foi feita no Brasil. Engana-se quem acha que as autoridades ambientais dos ricos países europeus possuem esse tipo de informação, fundamental para orientar políticas públicas. Para mostrar a gravidade do problema, a organização não-governamental WWF, da Itália, acaba de divulgar estudo inédito realizado em sete países da Europa.

Dezenas de substâncias químicas produzidas pelo homem foram encontradas no sangue de três gerações (filhos, pais, avós e avôs) de sete famílias européias, oito personalidades e dezenas de outros voluntários. O relatório “Chain of Contamination – The Food Link” mostrou que há duas origens de contaminação: as residências (em função de substâncias químicas utilizadas em carpetes, cortinas, brinquedos, cosméticos e equipamentos eletrônicos) e alimentos consumidos diariamente.

O veneno nosso de cada dia

Mais de 60 substâncias tóxicas foram encontradas nas 27 amostras de alimentos de consumo diário coletadas em supermercados da Inglaterra, Finlândia, Suécia, Polônia, Itália, Espanha e Grécia. A carne bovina, o peixe e o queijo foram os mais contaminados. O nível de contaminação detectado variou entre 0,1 e 10 nanogramas/grama de alimento (1 nanograma é a bilionésima parte de 1 grama). O mesmo coquetel de poluentes foi achado em animais e no ambiente.

“Estamos expostos a níveis aparentemente baixos de contaminação. No entanto, essas substâncias são cumulativas. E há também um efeito coquetel. Juntas, elas podem potencializar o efeito tóxico. Quem come esses
alimentos pode não ficar doente; no entanto, os danos à saúde a longo prazo podem ser graves. Por isso, defendemos um uso mais sustentável dessas substâncias”, explica a bióloga Eva Alessi, coordenadora científica da campanha Detox do WWF Itália.

O estudo da entidade italiana foi feito em amostras de leite, manteiga, queijo, salsichas, bacon, galinha, carne de hambúrguer, salame, peixes, pão, mel e óleo de oliva. Como estamos no topo da cadeia alimentar, acabamos expostos a todo tipo de contaminação química do ambiente, das lavouras e dos animais que comemos. Muitas dessas substâncias interferem no nosso sistema endócrino, tornando-se um fator de risco para doenças como obesidade, diferentes formas de câncer, diabetes e redução da fertilidade.

Substâncias banidas há mais de 20 anos na Europa foram encontradas em diversas crianças pesquisadas pelo WWF italiano. Elas também apresentaram mais contaminantes do que suas mães. “Este estudo é inédito porque pela primeira vez se investigou três gerações de uma mesma família”, destaca Eva Alessi, uma das participantes do IV Fórum Internacional de Mídia sobre Proteção da Natureza, Proteção da Saúde, promovido pela associação cultural Greenaccord na Itália.

O principal objetivo do estudo feito pelo WWF é pressionar o Parlamento Europeu, que, em breve, votará uma legislação – Registro, Avaliação e Autorização de Químicos (REACH, na sigla em inglês) – para criar um sistema de informações sobre as substâncias químicas na Europa e estabelecer um elevado padrão de controle e segurança. No Brasil, não há legislação semelhante.

Atualmente estão em uso na Europa 30 mil substâncias químicas das 100 mil disponíveis para uso comercial. Somente a partir de 1981 um teste de toxicidade passou a ser exigido nos países europeus. De acordo com a bióloga e ecologista Eva Alessi, do WWF, a maioria destas substâncias foi lançada antes dessa data sem uma avaliação dos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. (Roberto Villar Belmonte)

Futuro roubado

“Esse novo estudo do WWF é importantíssimo não só porque de novo está uma ONG fazendo aquilo que as instituições públicas deveriam fazer, mas também pelo valor das informações. Esse trabalho é um desbravar de caminhos novos que terão de ser, dura e fortemente, reafirmados sempre e sempre”, avalia o Engenheiro Agrônomo Jacques Saldanha, ecologista gaúcho que há anos vem denunciando o risco das substâncias químicas artificiais através do site www.nossofuturoroubado.com.br. O ambientalista recorda que, quando a pesquisadora Ana Soto, da Tufts University, dos Estados Unidos, denunciou que o nonilfenol causava danos ao sistema endócrino, ela foi desacreditada pela indústria. Atualmente, o uso dessa substância está proibido na Comunidade Européia. “No entanto, essa molécula está sendo fartamente utilizada por uma empresa do Vale do Taquari. Ela é usada em diversos produtos de limpeza, às vezes disfarçado com o nome de tensoativo nãoiônico. Quem paga a conta por esta contaminação?”, questiona Jacques Saldanha.

Para explicar os riscos dos produtos químicos que usamos diariamente, o ecologista e educador ambiental Jacques Saldanha tem utilizado em suas palestras a reportagem de capa da edição de outubro de 2006 da versão brasileira da revista National Geographic, “O veneno dentro de você”. O jornalista norte-americano David Ewing Duncan submeteu-se a uma bateria de exames de sangue e urina para descobrir quais substâncias químicas tóxicas ele tinha acumulado em seu corpo e a origem da contaminação.

A análise, que custou 15 mil dólares pagos pela revista, revelou 165 substâncias tóxicas das 320 pesquisadas, quase três vezes mais do que as analisadas pelo WWF da Itália. “Para ser sincero, acho que agora estou sabendo bem mais do que gostaria”, reconhece o jornalista e escritor. Duncan relata que, nos Estados Unidos, não há regulamentação que determine a realização de testes desse tipo, pois são considerados caros e ainda não há tecnologia disponível para detectar os teores mais baixos de contaminação. (R.V.B.)

Coquetel de poluentes

Entre as substâncias químicas descobertas no estudo do WWF na alimentação dos europeus estão os ftalatos, utilizados para deixar os plásticos mais flexíveis. Eles são apontados como responsáveis por problemas no sistema reprodutor do homem, como a diminuição na quantidade de espermas. Substâncias químicas utilizadas em cosméticos e os compostos perfluorados usados nas panelas com Teflon também foram detectados nas amostras de sangue. Ambos causam danos à saúde.

As substâncias usadas em aparelhos eletrônicos, colchões, tapetes e carros, como retardadores de chamas, os éteres difenil polibromados (BDE, na sigla em inglês), apesar de salvarem muitas vidas ao evitar incêndios, causam grande preocupação aos ecologistas, pois elas se acumulam no corpo, relata a bióloga Eva Alessi, do WWF. Dos três tipos existentes, dois já foram banidos da Europa, octa e penta BDE, mas o deca BDE ainda continua sendo usado. A ecologista garante que existem soluções menos tóxicas.

Ela também defende um controle maior para os biocidas utilizados nos cascos de navio à base de tributil-estanho, pois essas substâncias tóxicas causam danos ambientais ao contaminar a fauna aquática. E também para os hexaclorobenzenos, um dos poluentes orgânicos persistentes listados pela Convenção de Estocolmo, estabelecida pela ONU em dezembro de 2000. Todas essas substâncias encontradas nos exames realizados pelo WWF da Itália são persistentes à degradação, com vida média longa nos tecidos orgânicos, e também são bioacumulativas. O seu potencial de bioacumulação depende das propriedades de cada substância, de fatores ambientais e bióticos, como idade, quantidade de gordura, metabolismo e posição na cadeia alimentar.

A bióloga Eva Alessi garante que uma alimentação rica em frutas e verduras ajuda a reduzir os efeitos dos contaminantes químicos encontrados em outros alimentos e até mesmo em aparelhos domésticos, roupas, cosméticos, produtos de limpeza, tintas e panelas de Teflon. A alimentação orgânica é recomendada para evitar a contaminação com agrotóxicos. (R.V.B.)

Revolução biológica

Enquanto os europeus estão cada vez mais preocupados com a qualidade dos alimentos que consomem, os países em desenvolvimento aumentam sem parar o uso de agrotóxicos e de fertilizantes químicos em suas lavouras.

Na safra 2003/2004, os países em desenvolvimento utilizaram 98,4 milhões de toneladas de fertilizantes químicos. No mesmo período, os países desenvolvidos aplicaram menos da metade: 44,2 milhões de toneladas. Em 1997/98, os volumes eram, respectivamente, de 83,1 e 54,1 milhões de toneladas.

Segundo dados da FAO, os países desenvolvidos utilizaram uma média anual de 1,55kg/ha de pesticidas entre 1998 e 2000, o que significou uma redução de 8,5% na comparação com a média utilizada entre 1989 e 1991.

Já nos países em desenvolvimento, os agricultores utilizaram 1,02kg/ha entre 1998 e 2000, o que significou um aumento de 25,1% na comparação com o aplicado dez anos antes. Além disso, os produtos menos tóxicos são os mais caros, e, por isso, os agricultores dos países pobres têm preferido os mais antigos e mais baratos; porém, mais tóxicos. Os dados são da diretora do Programa de Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da Tufts University dos Estados Unidos, Kathleen Merrigan.

A pesquisadora norte-americana informa que três quartos das frutas e vegetais consumidos pelas crianças nos Estados Unidos contêm resíduos de agrotóxicos. Por isso o interesse pela agricultura orgânica, sem venenos, cresce sem parar no mercado norteamericano. A venda desses alimentos aumentou cerca de 20% ao ano na última década. É o setor agrícola que mais cresce, apesar de apenas 2,7% dos agricultores do país estarem envolvidos com a produção de alimentos limpos.

“As lavouras orgânicas podem produzir mais do que as convencionais. Elas precisam, no entanto, de 12 a 15 anos para ter boa produtividade, segundo estudos recentes feitos nos Estados Unidos. Não podemos comparar uma lavoura química com uma lavoura orgânica recente”, explica Kathleen Merrigan.

Segundo ela, a humanidade está em uma encruzilhada. Ou continua no caminho da revolução verde jogando substâncias químicas tóxicas nos alimentos, ou toma o caminho da nova revolução orgânica. Para Kathleen Merrigan, da Tufts University, as lavouras sem veneno – e sem transgênicos – têm todas as condições técnicas de alimentar o mundo. (R.V.B.)

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