Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 114 | Ano 12 | Jun 2007
ESPECIAL

Quando o bizarro supera a política

Por Caren Mello

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Montagem de Claudete Sieber sobre foto da Agência Brasil

Montagem de Claudete Sieber sobre foto da Agência Brasil

O fato de um cachorro morder um homem não é notícia, mas quando um homem morde um cachorro, aí sim é notícia. A frase foi dita em 1882 pelo editor do diário nova-iorquino The Sun, John B. Bogart, mas bem se aplica a este exato momento. Basta o leitor dar uma rápida olhada nos jornais diários à sua volta. A busca pelo extraordinário é a moeda corrente nas editorias de geral, esporte e cultura. Há algumas décadas, a editoria de política, antes refratária a essa linha de cobertura, terminou por se render à lógica de mercado reinante: o espetáculo da notícia vende jornal, dá audiência. A imprensa, para alguns teóricos da área, é vilã, para outros, fruto da própria sociedade em que está inserida.

A dita lógica determina que estará fadado à desgraça o veículo que se detiver ao trivial. Quanto mais diferente, inusitado ou espetacular, maior a venda e a audiência. Para o editor de política do Jornal do Comércio, Carlos Bastos, não falamos em modismo. O extraordinário sempre vendeu mais. Com 51 anos de jornalismo, sendo 48 deles em política, Bastos acredita que se trata de uma conseqüência do regime capitalista, e não propriamente da mão empresarial direta sobre a linha editorial. “Não chega a existir pressão do empresário ou do patrão. O jornalista quer que a sua matéria venda.”

A concorrência com a TV pode justificar o fato de o veículo impresso ter-se tornado mais superficial, como se estivesse reagindo à migração do consumidor das páginas para as telas. Na opinião do jornalista e coordenador do Programa de Pós-graduação em Comunicação da PUCRS, Juremir Machado da Silva, a pressa na publicação definiu a decadência da notícia bem-apurada. “A mediocridade está imperando nas coberturas de política. O que interessa é a fachada”, garante. “Os colunistas da área”, critica ele, “tornaram-se as pessoas mais fofoqueiras, tal qual colunistas sociais”.

A informação de bastidores cedeu espaço para o diz-que-diz, denuncia Juremir. Com a voracidade de publicar em suas colunas as notas mais apimentadas, os colunistas estariam lançando mão de todas armas. A fonte dita “fidedigna” é para ele o que de pior poderia existir na editoria. “Em nome delas, colunistas lançam balões de ensaio e competem entre si, como em uma fogueira das vaidades. Chegam a publicar que determinado político acha feio o nariz do outro”, comenta o jornalista e doutor em Sociologia da Cultura pela Universidade Paris V.

O processo se daria pelo modo inverso, na opinião do blogueiro e colunista de O Globo, Ricardo Noblat. Diante do atual cenário, seria difícil fugir do mediano. “A política virou um espetáculo. Governar virou um espetáculo. Faz-se política para consumo imediato via meios de comunicação. Uma cizânia alimenta outra. E aí a superficialidade ganha espaço.”

Ao ser questionado sobre o futuro da imprensa, o teórico da Comunicação Muniz Sodré revela incredulidade quanto à reação da própria imprensa. Tudo irá depender da cultura do país: “Enquanto uma nação for mais empresarial do que ética, mais tecnoburocrata do que promotora da liberdade cultural, nada vai acontecer. Na visão do sociólogo, é preciso que esse modelo de Estado esgote-se para depois encontrar rotas alternativas. “Aí, en a imprensa terá a cara desse novo Estado.”

O grotesco nosso de cada dia

Para explicar as preferências da mídia, Muniz Sodré parte dos conceitos do filósofo Antonio Gramsci sobre grande política – aquela que abriga causas reformistas ou que se destinam a ampliar as ações de Governo – e de pequena política – a parlamentar. É desta última, feita a partir de acordo de bancadas, que a mídia alimenta-se. “O noticiário vive dessas mesquinharias, dessa cobertura fragmentada, pouco educativa e que nada interessa à construção de uma nação.”

A notícia, diz o pesquisador e professor da UFRJ, pela lógica de mercado, passou a ser tratada como mercadoria. Assim, para vender, é preciso agradar o consumidor com um colorido especial. Sodré é autor, com Raquel Paiva, de Comunicação do grotesco (leia entrevista no Extra Classe – junho de 2002), obra que trata da exploração de escândalos e aberrações na TV. Sodré lembra que o noticiário político era restrito a pequenos grupos. Portanto, para angariar mais público, foi preciso a “roupagem de espetáculo”.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Do latim espectaculum, o conceito envolve determinada cena e um público que a assista. Nada será criado, recriado ou copiado sem que haja um consumidor que o aprove. É o que defende o cientista político Benedito Tadeu César. Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, César cogita, inclusive, a possibilidade de pesquisas promovidas de forma reservada pelos jornais para agradar ao seu público. “É apenas uma cogitação, mas o que explicaria o fim da hostilidade muitas vezes gratuita a Lula após a reeleição? Ou seja, se ele foi reeleito, é porque teve aprovação. Deve haver algum instrumento que detecte essa saturação do sensacionalismo”, diz. Para o professor de Ciência Política da Ufrgs, nenhum veículo bancaria profissionais como Diego Casagrande e Diogo Mainard, dois “poços de preconceitos”, se não tivesse a certeza de que eles agradam boa parte dos seus ouvintes ou leitores e, também, se a opinião deles não estivesse em harmonia com a ideologia do veículo.

Para o professor, o inusitado não é por si só garantia de sucesso. Tudo que chama muito a atenção passa por uma triagem, segundo critérios ideológicos e de recepção. “A mídia e a oposição vinham desde o início do governo Lula tentando levantar suspeitas até que veio a público a prática histórica da compra de apoio no Congresso. O espetáculo do mensalão colou, porque encontrou eco na população naquele determinado momento. E a mídia soube captar isso.”

A disposição dos veículos impressos de seguir a mídia eletrônica, sobretudo na espetacularização da notícia, não é um primazia nossa. Discute-se pelo mundo para onde irá a informação. Em entrevista para o monitor de desempenho da mídia Observatório da Imprensa, Pierre Bourdieu, titular da cadeira de Sociologia do Collège de France, um dos mais lidos e citados sociólogos do mundo, apontou para os veículos franceses. Pressões e interesses que antes pesavam sobre a TV estenderam-se aos jornais. Bourdieu cita um estudo publicado na revista Atos da pesquisa em Ciências Sociais, sobre a evolução da retórica do jornal Le Monde, citado nas cátedras de Comunicação como exemplo maior de jornal. As manchetes do diário passaram a atentar aos aspectos mais anedóticos, sendo que a agenda política está cada vez mais a cargo dos canais de TV.

Muniz Sodré não vê a tendência como uma determinação consciente, mas como fruto da transição de uma democracia clássica para uma democracia social e da separação entre Imprensa e Mídia. Imprensa, explica, é aquela que nasceu da Declaração Universal dos Direitos do Homem, a que garante o direito da livre expressão e, por conseqüência, todos demais direitos. Mídia, por outro lado, tem ligação direta com o intelectual coletivo das classes dirigentes. A democracia social ou “molecular”, como prefere chamar, é aquela preocupada com temas do tipo aborto, investimentos e segurança, “mais ligada ao consumidor do que com o cidadão” e que alimenta apenas a mídia. “A Mídia fica a reboque dos grandes serviços de interesse da sociedade. A Imprensa esqueceu que ela deve ser uma correia que liga o Estado e o povo”, avalia. Na medida em que imprensa e mídia se privatizam, vão atuar pela lógica empresarial. “Qual é a preocupação do empresário? Não ficar no vermelho no final do mês. Só.”

Para os jovens, só existe o que está na internet

Preocupado com a falta de vocação da nova leva de profissionais, Flávio Tavares, jornalista por mais de 40 anos, incluindo os 10 em que foi correspondente internacional durante o exílio político, cita o enclausuramento nas redações. A investigação vai, ressalta Tavares, até onde a internet pode levar. “Repórter tem de estar na rua. Eles deixaram de freqüentar o Congresso, as Assembléias, Câmaras e Executivos. Só sabem tirar informação da internet.” A “modalidade” de pesquisa, segundo ele, abre mais espaço para o espetáculo da notícia. “Aí, qualquer coisa que o Clodovil faça na tribuna, passa a ser manchete. A cobertura diária de política caiu na vulgaridade, parte por inércia do repórter ou do colunista, parte por interesse pessoal na promoção de determinadas figuras”, diz. A prática do jornalismo investigativo, na visão de Tavares, estaria migrando para a TV, em uma inversão dos antigos papéis. “O que de mais parecido temos com denúncias hoje está sendo feito por repórteres de TV, como o Cezar Tralli e o Caco Barcelos, que, inclusive, precisou se afastar um pouco porque estava sendo ameaçado por narcotraficantes.” Na visão do editor do JC, não existe mais a busca pela notícia aprofundada, da denúncia bem-embasada como forma de chamar atenção. “O jornalismo investigativo está morto”, decreta Carlos Bastos, excetuando apenas um nome da assertiva. “Eu só conheço um em todo o Rio Grande do Sul: o Giovanni Grizotti.” O custo de uma investigação para uma empresa seria a maior explicação para a falta de incentivo dos chefes de redação. Uma boa matéria pode exigir meses de dedicação exclusiva de um repórter.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O Golpe de 64 ainda reflete nos plenários

Não tão crítico em relação à espetacularização da notícia, o jornalista João Carlos Terlera vê as boas coberturas apenas em relação ao Executivo por estarem ligadas a interesses de uma grande maioria. Os projetos de lei que partem do Governo têm maior destaque porque mexem com toda a população. Dizem respeito a estradas, saúde, privatizações. “Mexendo com interesses da comunidade, pelo mérito ou demérito, por si só valem estar em uma página de jornal.”

Em relação à tribuna, no entanto, Terlera, que foi o primeiro setorista de política da Folha da Manhã, vê na tendência uma conseqüência dos tempos de exceção. Da Constituição Federal de 1967 para cá, os deputados e senadores perderam espaço. Não podem mais legislar sobre determinadas matérias. A grande maioria dos temas de projeto que o Executivo propõe, como, por exemplo, o que altera salários do funcionalismo ou mudanças no orçamento, são vetados. “Se antes os jornais reservavam enormes espaços para as sessões plenárias, reproduzindo até discursos inteiros, hoje, a cobertura se dá apenas em relação ao extraordinário”, comenta. Isso explica, ressalta ele, o fim dos setoristas pelos corredores da Assembléia Legislativa. “Por aqui, só se vê rádio. Os jornalistas de redação se pautam pelo que sai no ar, e os colunistas ficam nas suas mesas aguardando os releases. Hoje, colunista não cavoca mais notícia, engole o que o deputado quer,” diz o criador da coluna Bastidores, que manteve em Zero Hora de 1980 a 1993.

Com restrições de atuação em plenário, os deputados buscaram uma nova e inteligente forma de garantir espaço, explica Terlera. A saída foi a criação de comissões especiais, como as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). “São elas que vão tratar de temas polêmicos, como corrupção, desvio de verbas, improbidade administrativa. Cada acontecimento desses assegura uma ótima cobertura na imprensa, mantendo o deputado por meses com a cara na telinha. É do que ele precisa e é tudo o que a mídia quer!”

A arte de publicar o joio

Existe no anedotário jornalístico uma máxima que diz: “os editores são aquelas pessoas, dentro das redações, que têm por função separar o joio do trigo, só que invariavelmente tendem a publicar o joio”. A confusão entre opinião e informação aliada com a ideologia do veículo é que darão a tônica da exploração ou não do bizarro, segundo César. Uma revista como a Veja, cita, é o protótipo do veículo que busca a “satanização” de determinadas figuras públicas, assim como jornais como O Estado de São Paulo ainda se mantêm mais comedidos. Atuando no conselho do leitor do jornal Zero Hora, uma das bandeiras levantadas por Cesar foi de que o box com opiniões de repórteres e correspondentes estivesse caracterizado como sendo de opinião. A assinatura e o itálico tão somente indicavam o discurso opinativo apenas para quem detém a técnica jornalística. “O leitor comum”, segundo Cesar, “não entende essa sutileza”. “No momento em que se define o que é opinião do que é informação, a notícia fica com mais cara de notícia e quem comenta pode falar o que quiser.”

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Foto: Sérgio Amaral/divulgação

Foto: Sérgio Amaral/divulgação


De satanizar ou endeuzar figuras públicas entende bem Ricardo Noblat. Chefe de redação do Jornal do Brasil, durante a transição da presidência de José Sarney para Fernando Collor de Mello, Noblat conta sobre as restrições na época aos comentários de ambos os Governos. “Sarney era intocável”, revela. Mais tarde, o que antes era pressão, transformou-se em punição. Ele foi demitido por ter publicado uma série de artigos chamando de farsante o já eleito Fernando Collor. Hoje, para ele, não há mais como manter alguém inatingível ou atacar uma figura pública de forma gratuita. “Levando em conta os veículos mais importantes de comunicação de massa, dá pra dizer que a cobertura melhorou muito. Está mais comedida, mais responsável e mais profunda. Acho que eles (os jornalistas) aprenderam com a cobertura sensacionalista que fizeram dos escândalos do primeiro governo Lula.”

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