Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 120 | Ano 12 | Dez 2007
ESPECIAL
SAÚDE

Da mão para a boca

Por Maurício Boff

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Pelo menos três em cada dez crianças que cursam o Ensino Fundamental em escolas privadas brasileiras estariam acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Inúmeras pesquisas desenvolvidas no país e no mundo apontam para essa realidade e indicam que a obesidade infantil tem aumentado de forma significativa, principalmente nas últimas quatro décadas. O problema – e muitos pais ainda não estão atentos a isso – é que uma criança acima do peso pode representar complicações sérias à saúde na idade adulta. A dificuldade de mães, pais e educadores em garantir uma alimentação equilibrada nessa faixa etária enfrenta barreiras como mudança de hábitos alimentares, influência dos meios de comunicação e resistência das próprias crianças. A busca de soluções para o crescimento da obesidade infantil requer, portanto, um esforço conjunto em casa e, mais do que nunca, das escolas e de políticas públicas.

O estudo Prevalência da obesidade em escolares de Salvador (2003), realizado por uma equipe médica baiana com estudantes de cinco a dez anos de idade em escolas das redes pública e privada indica uma realidade que pode servir de parâmetro para outras capitais brasileiras. Em Salvador, a pesquisa indica que os alunos obesos nessa faixa etária em escolas privadas chegam a 30%. Se comparado ao resultado em escolas públicas, que registraram 8% de obesidade na mesma faixa etária, o resultado é bastante superior. Estudos definem o nível socioeconômico como um dos fatores que influenciam a obesidade. Levantamentos da OMS apontam para o crescimento da obesidade infantil em torno de 10 a 40% na maioria dos países europeus nos últimos dez anos. Além disso, o aumento de peso ocorre com maior freqüência nos primeiros anos de vida, entre cinco e seis anos, e na adolescência (Obesidade infantil: como podemos ser eficazes? do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul / Famed-Ufrgs).

Obesidade infantil é um problema global que preocupa pais e educadores

Obesidade infantil é um problema global que
preocupa pais e educadores

O professor e endocrinologista Rogério Fridman, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), afirma que o risco de uma criança obesa continuar acima do peso na vida adulta é muito grande. Fridman indica estudos que afirmam que mais de 3/4 das crianças obesas irão se tornar adultos gordos. A nutricionista do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Raquel Dias, também concorda que a obesidade em homens e mulheres começa na infância. “Uma vez obesa, a criança adquire a propensão para doenças que se manifestam na fase adulta, como diabetes, hipertensão e problemas cardíacos”, diz. Fridman ainda ressalta que já existem adolescentes com diabetes tipo II, hipertensos e com níveis alterados de colesterol (doenças que até algumas décadas atrás só eram presenciadas em adultos). A obesidade também tem repercussão direta no desenvolvimento da infância. “Crianças obesas têm maior incidência para problemas de ordem psicológica”, explica o endocrinologista. A alimentação desequilibrada acaba gerando, indiretamente, problemas ao aprendizado. A diretora do Colégio Israelita, de Porto Alegre, Mônica Timm de Carvalho, diz que a criança acima do peso ideal pode ter dificuldades respiratórias, como a falta de fôlego, o que limita a participação em algumas atividades físicas. “A criança fica chateada porque não consegue participar ou não é escolhida pelos colegas por não corresponder ao exercício”, explica.

Educação alimentar na família e na escola

Os fatores que levam ao desequilíbrio alimentar são os mais variados – e não passam apenas pela comida oferecida dentro de casa. A professora do Ensino Fundamental do Colégio Rosário, Dinah Quesada Beck, afirma que a participação dos pais é essencial, mas defende o papel da escola em sua função social de educar. Essa, aliás, é a orientação do próprio corpo pedagógico da instituição de Ensino Fundamental e Médio da capital gaúcha. Uma proposta sugerida por professores – e aceita pelos pais de alunos – deu início ao ensino para uma alimentação saudável no segundo semestre de 2006. A educadora conta que tudo começou com a observação do que os estudantes compravam no bar da escola. A procura recorde era por balas e chicletes. “As crianças lidam cada vez mais com dinheiro, o que dá autonomia para elas comprarem o que querem”, afirma Dinah.

No primeiro ano, o resultado não foi positivo. A professora conta que o cardápio não levou em conta o que os alunos comiam dentro de casa. “Eles sugeriram batatas fritas e hambúrgueres, o que me fez abrir os olhos para o que comem em casa”, diz. Este ano, a proposta nasceu diferente. A idéia do projeto Educar para o Pensar, aplicada a 115 alunos de oito anos de idade da segunda série do Ensino Fundamental, é desencadear o pensamento dos alunos sobre o que eles comem em casa e, também, na escola. Os alunos produzem um cardápio para a alimentação diária durante o recreio, tanto para quem leva merenda, como para quem compra no bar da escola. Os pais aprovaram a iniciativa e uma lista diferenciada de lanches foi colocada em prática. “Exploramos o que os alunos gostam de comer, conversamos sobre os alimentos, a importância de uma alimentação com frutas, verduras, cereais e menos salgadinho”, conta. Há o dia da fruta, do carboidrato, do cereal, da sopa, do iogurte. Mas para a idéia do cardápio não parecer opressiva, dias de lanche livre foram implantados. “É quando elas comem pizza, salgado e salgadinhos”, diz.

Alunos das séries iniciais do Colégio Rosário, na capital, participam de atividade educativa

Alunos das séries iniciais do Colégio Rosário, na capital,
participam de atividade educativa

O que parece um dos grandes trunfos da iniciativa é como a professora consegue garantir o engajamento dos alunos. “Nossa combinação é através da conquista e não por obrigação”, afirma. O convencimento dos alunos é desenvolvido com atividades e brincadeiras. Uma delas é a produção de sanduíches saudáveis em sala de aula. A brincadeira de vedar os olhos, testar o gosto e a adivinhar uma fruta ou verdura dá bons resultados. “As crianças acabam aprendendo a gostar de comidas diferentes e os pais ficam surpresos”, aponta. A proposta do Colégio Rosário contou com o apoio do ecônomo do bar da escola. Um acerto entre eles levou o proprietário a oferecer produtos naturais aos alunos. Iogurte e salada de frutas são facilmente identificáveis. Porém, nem todo bar de escola oferece produtos definidos como saudáveis. E, muitas vezes, a não-oferta surge muito mais pelo desinteresse dos diretores de instituições de Ensino Médio e Fundamental que ainda não assumem o compromisso de enfrentar o combate ao desequilíbrio alimentar com propostas educativas. Fridman destaca que a educação para a saúde é a chave. “A criança não pode receber a informação na sala de aula, ir ao bar e ver a antítese do discurso do professor”, diz.

Fast food e brinquedos para seduzir as crianças

Um exemplo de política pública para tentar regular a venda de produtos menos saudáveis a crianças e adolescentes em bares e lanchonetes é o Projeto de lei 354/2007, de autoria do deputado estadual Fabiano Pereira (PT), que prevê a proibição à comercialização de alimentos que tenham atrelados a eles a venda de coleções, brinquedos ou presentes. O parlamentar defende que o alimento vem em primeiro lugar do que o brinde. “Crianças e adolescentes são mais vulneráveis aos apelos publicitários e, por isso, são mais facilmente atraídos por esses métodos”, coloca. A proposta tem como argumento o combate à obesidade, considerada um verdadeiro problema de saúde pública. O projeto de lei gaúcho, protocolado em setembro deste ano, se baseia na proposta do deputado estadual Roberto Felício (PT-SP) que, por sua vez, repete experiências de países como Espanha, Alemanha e EUA no combate a produtos de menor valor nutritivo, mas que encontram na publicidade um apelo ao consumo. O texto sugere que a multa ao proprietário por esse tipo de comércio chegue a quase R$ 10 mil, aumentando em até dez vezes no caso de reincidência. Nem bem iniciaram os debates dentro na Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa, o projeto de lei já encontra resistência fora do parlamento. O presidente do Sindicato da Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre (Sindpoa), Daniel Antoniolli, defendeu recentemente que um estabelecimento pode doar brindes e presentes desde que não ofereçam riscos à integridade física e emocional dos consumidores. Pereira pretende ampliar o debate nas audiências públicas da comissão. “Precisamos saber o que a sociedade pensa sobre isso”, alerta.

O contraponto ao resultado sugerido pela proposta legislativa, que prevê a restrição à venda de alimentos atrelados a brindes nos bares de escolas, pode ser avaliado no Colégio Israelita. Apesar de a direção estar trabalhando pela orientação a uma alimentação equilibrada, as resistências nascem, às vezes, no próprio interior das famílias. Há dois anos, a idéia foi implantada depois de a diretora enviar uma carta aos pais comunicando as mudanças em relação às ofertas no bar. Para a surpresa dos professores, alguns pais não apoiaram a iniciativa. Desde então, está sendo necessário bastante tolerância e jogo de cintura. “Não podemos tolher a liberdade das pessoas, mas é nosso dever oferecer uma proposta diferenciada de vida”, explica. Para isso, a proposta de uma vida saudável são temas correntes nas disciplinas de Ciências, Biologia e Educação Física.

A diretora lembra que no acerto com o ecônomo foi exigido que frutas, sucos, iogurtes e sanduíches naturais deveriam ter um maior destaque visual aos alunos na hora da compra. Durante o almoço, as frituras foram substituídas por alimentos grelhados ou assados; o bufê passou a oferecer diferentes tipos de saladas, frutas e grãos. As porções de salgados e doces foram reduzidas para tamanhos menores. A alimentação judaica casher (ou kosher), que prima por ingredientes saudáveis e numa preparação baseada nas leis sagradas da Torá e na Halachá, também passou a ser vendida aos alunos. Apesar das mudanças serem visíveis, polenta é vista ao meio-dia e balas e chocolates podem ser comprados. “Ainda não conseguimos fazer toda mudança que queremos”, aponta Mônica. Entre as metas para os próximos anos, a idéia é que o bar deixe de vender risolis, polenta e batata frita, e aumente a oferta de sucos e outros produtos naturais.

Propaganda também contribui para o problema

A propaganda que leva a criança ao consumo de produtos altamente energéticos, como hambúrgueres, bolachas recheadas com gordura hidrogenada (gordura trans) e refrigerantes, é ainda um adversário de peso frente às propostas de educar para uma alimentação equilibrada. Principalmente, a publicidade influencia as compras de famílias com menor taxa de escolaridade. Lançada no primeiro semestre do ano, a pesquisa da psicóloga Paula Carolina Barboni Dantas (USP-Ribeirão Preto) conclui que a televisão contribui para o aumento da obesidade entre crianças e adolescentes. Para chegar a essa afirmação, Paula traçou o perfil de 816 famílias com filhos entre sete e 14 anos que estudam em instituições municipais e estaduais da cidade paulista. O curioso é que os pais, que possuem apenas o Ensino Fundamental e ganham um salário mínimo, não planejam as compras. Em recente entrevista, a pesquisadora
afirma que eles compram porque assistiram na televisão. A psicóloga relacionou a obesidade infantil à quantidade de propaganda de alimentos ricos em gordura, açúcar, sal e óleo exibida na televisão. Para regulamentar a propaganda na televisão e em outros meios de comunicação impresso e radiofônico, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) lançou uma consulta pública sobre a regulamentação de publicidade com alimentos calóricos. A consulta pública n° 71 foi lançada em novembro de 2006 e encerrada em abril deste ano. A iniciativa, que prevê uma série de restrições à propaganda (como o veto à promoção dos alimentos nas escolas), ainda aguarda virar uma resolução.

Fridman destaca que apesar das propostas de políticas públicas e ações diretas de algumas escolas, não existe nenhum projeto educacional sobre alimentação saudável que interaja com a família. “O sedentarismo e o desequilíbrio alimentar da criança é a falta de exemplo na família”, defende. Em um período de final de ano, onde se prega o tempo de balanço quanto a conquistas e acertos do ano que logo termina, e se faz projeções e se estipula metas para 2008, pensar em como sua escola e pais podem enfrentar a incidência da obesidade infantil e juvenil vem a ser um excelente exercício de lição de casa.

 

 

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