Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 121 | Ano 13 | Mar 2008
ESPECIAL

2008: o ano dos recifes de coral

Por Clarinha Glock

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Foto: Banco de Imagens/SXC

O mundo está de olho nas notícias sobre os desmatamentos de florestas e os danos do aquecimento global, mas pouca gente sabe que há outros ecossistemas sob ameaça, com uma biodiversidade tão grande quanto a das florestas, e cuja destruição pode alterar a vida do planeta. São os recifes de coral, estruturas rochosas e rígidas existentes em regiões de águas quentes e claras, formados pela deposição de esqueletos calcários e organismos como corais, algas e moluscos. Os estudos globais mostram que 10% dos recifes do mundo inteiro já foram degradados de forma irreversível e, se nada for feito, a perda poderá chegar a 40% até 2010. Para chamar a atenção sobre o problema, a Iniciativa Internacional para os Recifes de Coral (Icri) declarou 2008 como o Ano Internacional dos Recifes de Coral.

Calcula-se que uma de cada quatro espécies marinhas vive nos recifes, incluindo 65% dos peixes, e que 500 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento dependem de alguma forma destes ecossistemas. Os recifes fornecem alimentos e protegem as praias da erosão, além de atrair milhares de visitantes para o turismo. Mas esses paraísos naturais estão sofrendo com a ação dos seres humanos.

A pesca predatória ou seletiva (direcionada a poucas espécies) é uma das maiores ameaças. A mineração de areia e rocha e o uso de explosivos e cianeto na pesca também provocam o que os especialistas chamam de “estresse” nestes ecossistemas. O problema, que geralmente se repete em maior ou menor grau em nível mundial, tem agravantes no Brasil. “Não existe uma fiscalização efetiva, embora existam penalidades descritas na Lei de Crimes Ambientais nº 9605/98”, admite Ana Paula Leite Prates, Coordenadora do Núcleo da Zona Costeira e Marinha do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Além disso, em alguns casos há políticas conflitantes entre os órgãos gestores da pesca e os de fomento – alguns bancos financiam redes sem ouvir o Ibama, por exemplo.

Da mesma forma, o turismo sem limites e o mau uso do solo, com desmatamento, queimadas e incêndios florestais ao longo das bacias hidrográficas, têm ajudado a destruir os recifes em várias partes do mundo. Os sedimentos resultantes do corte de á rvores, da agricultura sem planejamento e de resíduos de indústrias, principalmente junto à foz dos rios, impedem a entrada da luz, que é importante para a fotossíntese das algas que alimentam os recifes de coral.

Os recifes ainda sofrem os efeitos provocados pelas mudanças climáticas globais. À medida que a temperatura da água do mar sobe e que fenômenos como o El Niño são mais freqüentes, se tornam comuns os “branqueamentos” – os corais expelem as algas que os habitam e que produzem alimento, e acabam morrendo.

O 1º Ano Internacional dos Recifes de Coral, decretado pela Iniciativa Internacional para Recifes de Coral (Icri) em 1997, era justamente para aumentar a conscientização e o conhecimento sobre o tema. Participaram mais de 225 organizações em 50 países e territórios, e surgiram novas áreas marinhas protegidas. Mas os números atuais da depredação indicam que a mobilização anterior não foi suficiente. A Icri foi formada em 1994 numa parceria entre governos, organizações internacionais e ONGs para promover a conservação dos recifes e ecossistemas associados conforme o capítulo 17 da Agenda 21, que estabeleceu o comprometimento dos países na busca de soluções sócio-ambientais.

No Brasil, o Ano Internacional dos Recifes de Coral em 1997 foi celebrado com a realização de um workshop em Tamandaré (PE), que reuniu especialistas internacionais e resultou na criação da Área de Proteção Ambiental (APA) da Costa dos Corais, a maior área de proteção dos recifes costeiros do país. O workshop também resultou numa declaração na qual uma das recomendações foi a adesão do Brasil ao Icri. Mas o país só se integrou oficialmente à Iniciativa em 2006.

Brasil abriga os únicos exemplares do Atlântico Sul

No Brasil, os recifes se distribuem por cerca de 3 mil quilômetros ao longo da costa nordestina, do sul da Bahia até o Maranhão – são os únicos do Atlântico Sul –, e a maioria das espécies formadas ali não ocorre em nenhuma outra parte do mundo. Parte deles estão, teoricamente, protegidos em Unidades de Conservação – áreas definidas por lei, em que é permitido o uso sustentável dos recursos sob algumas condições. Mas representantes do próprio governo admitem que a fiscalização é precária.

Para garantir a conservação e o uso sustentável destes ecossistemas, o Brasil criou o Programa de Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil em 2002. O programa usa a metodologia internacional do protocolo Reef Check, uma rede internacional criada pelas Nações Unidas. Este monitoramento é executado no país pelo Instituto Recifes Costeiros, localizado em Tamandaré, e coordenado pelo Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco.

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Fotos: Regério Nolasco

Projeto Coral Vivo, que possibilita conhecer mais sobre a biologia e a ecologia dos corais no Brasil e ainda promove a educação ambiental. O projeto começou na década de 90, quando os professores associados do Museu Nacional e Universidade Federal do Rio de Janeiro Clovis Barreira e Castro, Débora de Oliveira Pires e sua equipe começaram a estudar o ciclo reprodutivo de corais do Brasil e quais as taxas de recrutamento (quando se estabelecem as bases para reprodução) na região de Abrolhos. Ao longo do tempo, conta Castro, o grupo percebeu que era importante educar e sensibilizar a sociedade para preservar os recifes de coral que ainda estão em boas condições, e que são visitados turisticamente.

Um dos focos de pesquisa é o Parque Municipal Marinho do Recife de Fora, em Porto Seguro (BA). Ali está sendo feito o monitoramento e o mapeamento dos recifes de coral para eventualmente aplicar a tecnologia de recrutamento. Paralelamente, Castro, que é membro do Comitê Gestor e Coordenador do Projeto Coral Vivo, e sua equipe, capacitam, em Arraial d’Ajuda (BA), agentes de turismo, professores do Ensino Fundamental, universitários e outros profissionais interessados em se aprofundar no tema. A idéia é evitar que o ambiente chegue ao nível de degradação. “Uma vez degradado, a recuperação é muito lenta”, lembra Castro.

Atividades estão programadas para este ano

Dentro da programação do Ano Internacional dos Recifes de Coral, o Reef Check está coletando assinaturas em sua página na Internet para firmar uma Declaração Internacional dos Direitos dos Recifes de Coral. Uma cópia do documento será entregue aos governantes de cada país em janeiro de 2009.

Em território brasileiro, está sendo intensificada a Campanha de Conduta Consciente em Ambientes Recifais desenvolvida pela Diretoria de Áreas Protegidas do MMA junto com o Instituto Recifes Costeiros e o Programa Nacional de Educação Ambiental. A campanha tem apoio do Ibama e financiamento da National Fish and Wildlife Foundation. O objetivo é a conscientização dos visitantes para que colaborem na manutenção do estado original destas áreas.

“A campanha visa atingir às pessoas que recebem os turistas na praia: funcionários de parques nacionais, jangadeiros, operadores de mergulho, donos de restaurantes e pousadas”, explica Ana Paula, do MMA. “Não temos ainda um viés voltado especificamente para o pescador, no entanto, alguns jangadeiros de Porto de Galinhas e Tamandaré que trabalham na pesca e com o turismo já foram capacitados e pretendemos ampliar a campanha para este público também”, anuncia. Um antigo pescador da região da Ilha de Itaparica (BA), por exemplo, virou gestor ambiental, e uma de suas principais ações no início foi a divulgação dos princípios da campanha.

A Secretaria de Biodiversidade e Florestas do MMA lançou também um calendário 2008 com fotos e textos sobre os principais programas de conservação do Brasil para marcar a data, e programou exposições nos aeroportos de Salvador, Maceió, Recife e Natal e nos centros de visitantes dos Parques Nacionais de Abrolhos e Fernando de Noronha. Ao longo do ano, vídeos, folhetos e cursos vão difundir pelos cantos do país a importância dos recifes de coral.

Mergulhadores fazem monitoramente

Há recifes de corais em mais de cem países, principalmente em mares tropicais, nas regiões onde as águas são claras, quentes e rasas – porque os corais precisam da luz solar para sobreviver. E todos eles estão a perigo. Uma idéia divertida pode contribuir para a preservação dos recifes. O programa chamado EcoAction foi desenvolvido pela Fundação Reef Check e aplicado na República Dominicana, Austrália e Indonésia. Está para ser desenvolvido também no Brasil. A idéia é inserir o EcoAction no programa normal das escolas de mergulho.

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Foto: Eco Action/divulgação

O programa tem cinco níveis. O primeiro inclui um livro para crianças chamado Aventuras Reef Check. O segundo traz um guia à prova de água para o turista identificar mais de 40 animais e plantas dos arrecifes e um kit com uma aula de 45 minutos sobre introdução à ecologia e monitoramento dos recifes. Há ainda um curso de monitoramento para o usuário recreacional fazer o levantamento das condições atuais dos recifes e se sentir parte do movimento para evitar sua destruição. “As escolas ensinam a mergulhar, a respirar embaixo da água com segurança, a chegar até os recifes, mas não dão informações sobre o ecossistema – o EcoAction vem preencher este vazio”, observa Rubén Torres, diretor do Reef Check na República Dominicana e coordenador da entidade no Caribe e Atlântico.

Jean Pierre Fang, mergulhador de Aruba, esteve em Bayahibe, na República Dominicana, para fazer o treinamento do EcoAction com Rubén Torres, e considerou o projeto altamente positivo. “Ao participar do curso, percebi que os recifes de onde vivo estão ameaçados, e alguma coisa deve ser feita logo”, disse Fang. Também em Aruba, afirma Fang, a proteção ainda é um problema, e recém se começa a cogitar a possibilidade de fazer um parque para preservação.

Curiosidades

– Muitas vezes, os corais são confundidos com pedras ou plantas, porque são formados por uma espessa camada morta de material calcário, com uma fina camada de tecido vivo na superfície. Os corais são justamente estes animais e os esqueletos que eles deixam, mesmo depois que morrem. Nem todos os corais constroem recifes, só os que apresentam esqueleto calcário maciço.

– Os dados geológicos indicam que os ancestrais dos modernos ecossistemas de coral foram formados pelo menos há 240 milhões de anos. Esses corais que existem hoje começaram a crescer há pelo menos 50 milhões de anos.

– Os corais são animais solitários ou coloniais. Cada indivíduo numa colônia de coral é chamado de pólipo, que são invertebrados pequenos e frágeis – podem ter o tamanho de uma cabeça de alfinete ou até 30 cm. Cada colônia pode ter centenas ou milhares de pólipos. Um recife de coral é coberto de milhares destes animais.

– A maioria dos pólipos tem os tecidos dos corpos claros ou transparentes e seus esqueletos são brancos como os ossos humanos. Ficam coloridos pela presença das algas zooxantelas, que vivem dentro dos tecidos, cujos pigmentos são visíveis através do corpo dos pólipos.

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