Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 127 | Ano 13 | Set 2008
ESPECIAL

Sustentabilidade vem de berço

Por Clarinha Glock

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Arte: Luciano Lobelcho sobre foto de René Cabrales

Arte: Luciano Lobelcho sobre foto de René Cabrales

Em meio ao marketing do Dia da Criança, pare e pense: que jogos da sua infância você lembra com mais carinho? O videogame que era o último modelo, ou o jogo da amarelinha num pátio arborizado? O carrinho de lomba feito com a tábua improvisada, ou o importado, que funcionava quase sozinho? Na onda de preservação do meio ambiente em que cuidar do planeta Gaia é a necessidade antiga mais urgente, os adultos conscientes buscam na própria natureza os motivos para brincar. E as empresas de brinquedos vislumbram aí um novo mercado de consumidores.

A indústria da brincadeira se rendeu ao marketing do respeito ao meio ambiente. Um dos jogos mais tradicionais da Estrela, o Banco Imobiliário, criado em 1944, foi relançado este ano com uma versão intitulada “Sustentável”. Em vez de bairros e ruas, as casas do tabuleiro são reservas naturais como Pantanal, Rio São Francisco, Chapada dos Veadeiros, Serra da Mantiqueira e locais de produção de cana-de-açúcar ,como Ribeirão Preto (SP), Três Lagoas (MS), Teotônio Vilela (AL). No lugar de companhias tradicionais de transporte, há a Companhia de Reciclagem Energética, a Companhia de Reflorestamento, de Agricultura Orgânica, a de Reciclagem Mecânica.

Mais inovador, no entanto, não é nem o tema do Banco Imobiliário da Estrela – jogos e brinquedos sobre ecologia têm se multiplicado ao longo dos últimos anos –, mas sua proposta desde a origem. As peças do jogo são feitas de plástico verde, à base de cana-de-açúcar desenvolvida pela Petroquímica Braskem, que se gaba de ser um “ divisor de águas no mercado de polímeros” por conter matérias-primas 100% renováveis. O tabuleiro, a caixa e as cartas são feitos com papel reciclado. “O jogo tenta traduzir o que a sociedade está vivendo no momento na área de utensílios, moda e tecnologia”, explica Aires Leal Fernandes, diretor de Marketing da Estrela. A intenção é expandir essa idéia para outros produtos. Em agosto, começou a ser distribuído o Novo Mundo, da Estrela, com perguntas e respostas sobre meio ambiente, também feito em papel reciclado.

Empresas nem tão conhecidas da mídia quanto a Estrela já apostam no mercado dos ecológicos com qualidade e criatividade há mais tempo, dentro da linha dos brinquedos educativos. O Coleta Correta, da Toyster, por exemplo, tem um tabuleiro dividido com as cinco cores de acordo com o padrão mundial de recipientes da coleta seletiva. A Carimbrás lançou o Jogo Eco, com uma trilha ecológica – quando se cai no verde, é porque se está contribuindo com a natureza. A Carlu tem a Ecoteca, composta por duas maletas com 22 jogos, entre eles o quebra-cabeças dos Elementos da Natureza, o jogo de tabuleiro “Para onde vai nosso lixo?”, jogo de seqüência lógica sobre Desperdício, Poluição, Aquecimento Global.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O diferencial atualmente é a preocupação com o material de produção destes brinquedos, tanto por parte de grandes, como de pequenos fabricantes. Zaira Machado, diretora da Editora Verdeperto, de Porto Alegre, e sua sócia, Taís Vicari, apostam na mudança de visão dos consumidores para lançar em breve uma linha de brinquedos de animais ameaçados de extinção e outra de mitos regionais produzidos a partir de papel reciclado, plástico reaproveitado das garrafas PET e madeira de reflorestamento. Está em estudo também o uso do bambu como nova fonte de matéria-prima. Zaira e Taís seguem uma tendência internacional.

Em todo o mundo, começam a pipocar notícias de “brinquedos ecológicos”. No blog de Brinquedo (http://blogdebrinquedo.com.br/category/ecologicos/) há informações sobre jogo de xadrez com peças de carro recicladas, quebra-cabeças de madeira atóxica, robôs e carros movidos à luz solar. O crescimento deste segmento de mercado é tamanho, que os brinquedos educativos (nos quais se incluem os ecológicos) foram o destaque da Feira de Brinquedos deste ano em Nuremberg, na Alemanha, considerada uma das maiores, em negócios, do mundo.

Ainda que extremamente positiva, a defesa da ecologia por meio dos jogos não elimina a necessidade de um acompanhamento dos adultos para ajudar a desenvolver nas crianças o espírito crítico. Nas cartas de Sorte ou Revés do Banco Imobiliário Sustentável, por exemplo, o jogador é multado porque a empresa dele poluiu demais, ou ganha pontos por proteger terras do desmatamento. No lugar do dinheiro, valem os Créditos de Carbono. Muito louvável. Mas o marrketing derrapa no texto de descrição do jogo no site da Estrela, onde dá a entender que não é só pelo respeito ao meio ambiente que vale a pena ganhar a partida: “Versão Especial do Banco Imobiliário produzida com material reciclado – adquira reservas naturais, regiões produtoras de cana-de-açúcar e proteja suas terras para poder ganhar dinheiro com o turismo”!

Legislação rígida e impostos altos

O que mais chamou a atenção da gaúcha Eunice Ferreira Ehlers Duarte, proprietária da Be-abá Brinquedos Educativos, ao visitar a Feira de Brinquedos de Nuremberg, em fevereiro deste ano, foram os reciclados de madeira seringueira. “Hoje a maior parte das fábricas de madeira da Ásia usam a seringueira, e não o pinho, porque ela tem uma vida útil para retirada do látex e depois precisa ser abatida – é uma madeira leve, macia e não tem os refugos do pinho”, explica Eunice. “É uma visão mais européia, de longo prazo, porque a seringueira leva anos para ficar no ponto de corte, e o pinho tem um crescimento muito rápido”, avalia.

Foto: René Cabrales

Eunice: destaque para os brinquedos de seringueira em Nuremberg

Se as empresas no exterior têm a preocupação de divulgar que seus produtos são elaborados com madeira certificada e oferecem selo de garantia, isto ainda é um problema no Brasil. Em parte, pelo custo. Eunice ressalta a dificuldade dos artesãos de conseguirem a aprovação do Inmetro. “Para fazer o teste de qualidade anual é preciso pagar entre R$ 600 a R$ 800 por produto”, informa. Além disso, as regras que funcionam no Brasil não são as mesmas do exterior. “Na Europa, são permitidos brinquedos de madeira para bebês, no Brasil, não. Sem falar que não há incentivos na área de impostos – eletrônicos e educativos pagam as mesmas taxas”, reclama Eunice.

A questão da reciclagem ainda é, portanto, não só um desafio do ponto de vista técnico, como de legislação. “A norma brasileira não permite, aliás proíbe, a fabricação de brinquedos com quaisquer materiais reciclados – podem contaminar as crianças”, diz Synésio Batista da Costa, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). Ele prevê inclusive um mercado restrito para estes produtos: “O ambiente da ecologia nacional não tem encantado muito as crianças. No passado houve experimentação de produção de Saci Pererê, foquinhas, antinhas, oncinhas (em pelúcia), mas não venderam. Prejuízo total”, informou, por e-mail, à reportagem do Extra Classe.

A norma da ABNT que rege os brinquedos é a NM (Norma Mercosul) 300, explica Mariano Bacellar Netto, diretor técnico do Instituto Brasileiro de Qualificação e Certificação (IQB). Esta norma indica que o material com o qual são produzidos brinquedos não pode estar contaminado. “Como se pode garantir isso? Só usando material novo”, observa. “A Anvisa autorizou o uso de PET reciclado para alimentos, desde que seja verificado que o lote não contém impurezas, mas para brinquedos não há mecanismos de controle”, informa Netto. Ele lembra que é difícil obter uma garantia da origem do material reciclado.

Ao mesmo tempo, critica a legislação atual, que não protege tanto quanto devia. Um exemplo: a Lei 11.762, de 1º de agosto deste ano, proíbe a comercialização de produtos com concentrado de chumbo. “Mas essa lei faz tantas exceções de uso – em estruturas metálicas, eletrodomésticos etc. – por pressão de terceiros, que têm interesses econômicos, que a proteção é falha”, enfatiza. “Por acaso as crianças também não têm acesso a estas coisas? Se estes produtos podem ter chumbo, então não pode haver reciclagem de nada”, alerta.

Na opinião de Netto, “brinquedos de madeira são ecológicos e deveriam ser valorizados, com isenção de impostos, usando material nacional, acessível, com madeira corretamente plantada”. Mas como os impostos são muito altos, é mais conveniente e barato importar os brinquedos de plástico da China. Além disso, ele cita outro problema: no Brasil há restrições de usar madeiras de reflorestamento ou de manejo aprovado porque são utilizados alguns preservativos venenosos para evitar as manchas provocadas por fungos. “No mundo todo, começa-se a usar produtos que não contenham arsênico, ou pó da China, mas no Brasil ainda se usam estes venenos”, explica. Por estas e outras, o país não consegue exportar seus produtos.

É crescente também a preocupação de educadores e escolas com a questão ambiental. Brinquedos e brincadeiras com mote da sustentabilidade fazem parte de um contexto e não precisam estar restritos a nenhuma classe social, defende a pedagoga Gislaine Machado, fundadora da Escola Arco-Íris, de Porto Alegre. A escola trabalha com a Pedagogia Waldorf, que defende a percepção do ser humano de forma integral, antroposófico – “ um ser que se cura e cura a Terra”.

Uma das primeiras coisas que a escola fez ao adotar esta pedagogia foi substituir os materiais industrializados dos brinquedos. Um cesto de toras de madeira tiradas da natureza informa mais aos pequenos sobre textura, calor, forma, que os de plástico, e pode ser um substitutivo para os caros jogos de montar, ensina Gislaine: “A cada estação, a natureza nos traz uma riqueza de sementes e formas que, ao brincar, a criança vai vivenciando e absorvendo por todos os seus sentidos”. Na contramão do uso cada vez mais freqüente de DVDs e vídeos, Gislaine argumenta que é no movimento e na fantasia que se desenvolve a brincadeira até os sete anos de idade.

Portanto, um bonequinho feito de retalhos de pano macio, enfeitado apenas com uma manta de tricô feita pela professora no recreio, e recheado de lã de ovelha, é um convite e tanto para um aconchegante abraço infantil e uma história a ser inventada. “Nós, educadores, estamos pecando, correndo para comprar tanto material pronto, quando a própria criança pode desenvolver seus filtros sobre o que é matéria viva e morta”, diz a educadora.

Stella Branco: as brincadeiras em casa seguem a linha do colégio

Foto: René Cabrales

Stella Branco: as brincadeiras em casa
seguem a linha do colégio

Foto: René Cabrales

Hoje a Arco-Íris tem continuidade na Escola Querência, de Ensino Fundamental, em que os pais fazem parte do conselho gestor. Nas escolas há horta, jardim, e as crianças participam cuidando. Stella Maria Correa Branco, mãe de Julia e Pedro Chaves, gêmeos de nove anos de idade, faz parte da turma de pais fundadores da escola. As brincadeiras com os filhos em casa seguem a mesma linha do colégio. Um pequeno papelão pode virar um carrinho para descer o morro. Ela considera que os brinquedos de material natural proporcionam uma noção de verdade e realidade que nenhum de plástico pode dar. E isso faz diferença na independência e criatividade dos futuros adultos. “Tenho amigos com filhos apáticos, que até para brincar precisam de ajuda”, compara.

Experiências como a da Escola Municipal Areias de Palhocinha, de Garopaba, Santa Catarina, ensinam também que a criatividade e a participação das crianças vale mais do que muito jogo bonito e caro. Os alunos e professores foram estimulados pela Mostra Professor José Lutzenberger – um evento anual que envolve todas as escolas da região e movimenta mais de 5 mil pessoas na cidade famosa por suas praias – a se engajarem em projetos ligados ao meio ambiente. O professor de Educação Física Amauri dos Santos Rodrigues não teve dúvida: aproveitou o material reciclado coletado pelos pais e estudantes como parte das atividades da Mostra e sugeriu criar brinquedos. Os alunos contribuíram com idéias, e desde então os jogos reciclados são a salvação nos dias de chuva, quando não podem sair para jogar no pátio.

Escola utiliza matéria-prima encontrada na natureza

Foto: René Cabrales

Escola utiliza matéria-prima
encontrada na natureza

Foto: René Cabrales

Foi assim que surgiu, entre outros, o Pebolim Ecológico, construído com restos de madeira de tapume de construção, cabos de vassoura (para os bonequinhos) e uma bolinha de desodorante do tipo Rolon. As mudanças não aconteceram somente ao reutilizar materiais velhos e sem uso. Estimulados pela idéia, os alunos ajudaram a recuperar a entrada da escola, colocando floreiras e transformando a relação entre brincadeiras, natureza e educação. Os exemplos de iniciativas nesse sentido são inúmeros em todas as redes de ensino e níveis.

 

Na carona das crianças,
surgem novos jogos para adultos

Fábio Ferreira Carralo é funcionário público, tem 38 anos, duas filhas pequenas, e um hobby que traz dos tempos de criança: adora brincar com a inteligência. Aos oito anos, costumava jogar xadrez com o avô. Agora, fim de semana sim, outro não, ele divide a mesa com a mulher, que é dermatologista, o irmão e a namorada para disputar no tabuleiro jogos que têm sua origem nos vikings, como o Tablut e o Brandubh.

As brincadeiras modernas que trazem em sua história uma parte da cultura dos povos da Índia, China, África, Egito, entre outros, fazem a delícia dos marmanjos. Além de incentivar o convívio, mexem com o raciocínio. Carralo descobriu sua nova mania ao visitar uma loja em busca de brinquedos educativos para suas filhas.

Este pai moderno não pretende se deixar levar por nenhuma tendência ou modismo. Por estar mais familiarizado com os jogos, na hora de escolher os próximos brinquedos de suas crianças, está seguro: “Comprarei não por ser reciclado, mas se for interessante mesmo”.

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