Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 128 | Ano 13 | Out 2008
ESPECIAL | QUALIDADE DE VIDA
YOGA

Evitando a NORMALIDADE

Aos 87 anos de idade, José Hermógenes de Andrade Filho, ou Professor Hermógenes, como é chamado, tem voz suave e saúda a todos com as mãos em prece cantando o gayatri mantra, uma das orações mais importantes da tradição espiritual da Índia. Considerado o “pai” da yoga no Brasil, com 31 livros escritos, sua história é exemplo do encontro com a qualidade de vida.

Aos 35 anos, era militar, quando teve tuberculose. Junto ao tratamento da medicina tradicional, começou a praticar os ásanas e pranayamas, posições e exercícios respiratórios da yoga, a partir de um livro em inglês que chegou às suas mãos. Curado, mergulhou nos estudos desta prática até então desconhecida no país. Tornou-se doutor em yogaterapia, título concedido pelo World Development Parliament, da Índia. Seu sistema está exposto em dois livros principais: Autoperfeição com Hatha Yoga, que este ano celebra sua 50ª edição e Yoga para Nervosos.

Em seus 50 anos dedicados ao estudo, ensino e prática de yoga descobriu que a humanidade sofre de uma doença chamada Normose, que apesar de ainda não estar nos tratados de Medicina, sua experiência comprova a existência. “Normose é a doença de ser normal, de viver ajustado a uma sociedade desajustada. É buscar a aprovação desta sociedade. O normótico é mesmificado, massificado, não se destaca e não se distingue, é uma peça do rebanho humano”.

Veja alguns outros conceitos do Professor Hermógenes

Crença e Religião – são duas coisas diferentes. Crença são os valores, noções ou filosofias que temos ou seguimos; já a Religião pressupõe a aceitação pacífica de certos dogmas, isso pode dar uma satisfação imediata, mas é muito transitória.

Respiração – A yoga dá importância à respiração, pois a respiração é própria vida. Quem respira pouco tem qualidade de vida precária. Faça exercícios para aumentar sua capacidade respiratória e também torná-la mais criativa. Qualquer pessoa pode fazer, mas a técnica aplicada de maneira errada (não-natural) é prejudicial à saúde. Procure ajuda profissional.

Autoconhecimento – “É nas quedas que o rio cria energia”, diz o professor, ou seja, é nas crises que nos descobrimos e nos conhecemos. Esse pensamento alivia o sofrimento e dissolve a impotência.

Prazeres transitórios – todos os prazeres na vida são transitórios. Você pode continuar gostando deles, mas não perca sua felicidade procurando.

(GRAZIELI GOTARDO)

Uma questão de metodologia
O World Health Organization Quality of Life Group (Grupo WHOQOL) desenvolveu uma metodologia dentro de uma perspectiva intercultural para medir qualidade de vida em adultos. O WHOQOL-100 e WHOQOL-bref, o primeiro com cem perguntas e o segundo com 26, usados como instrumentos de pesquisa e de propriedade da Organização Mundial da Saúde, utilizados por profissionais de saúde para avaliar a percepção de bem-estar. Para responder, é necessário ter como referência as duas últimas semanas da sua vida. O questionário tem sido aplicado para grupos específicos, sempre levando em conta seis domínios: físico, psicológico, nível de independência, relações sociais, meio ambiente e espiritualidade/religião/crenças pessoais. Informações e acesso ao questionário: www.ufrgs.br/psiq/whoqol-100.html (GG)

Se a gente respeitar as pessoas, a gente tem tudo
PAULO RICARDO DA SILVA*
“Qualidade de vida é a gente respeitar as pessoas. Se a gente respeitar as pessoas, a gente tem tudo o que a gente quer. ‘Tudo’, do modo como se diz na rua, significa que a única coisa que a gente não tem é uma casa, e é o que mais uma pessoa em situação de rua quer (não somos moradores de rua, porque ninguém nasceu na rua, estamos em situação de rua).

Para ter qualidade de vida, o dinheiro é importante, mas o dinheiro deixa as pessoas ambiciosas, elas mudam a fisionomia, ficam meio cegas, sem enxergar para frente e para os lados o que está acontecendo realmente no mundo. Mas eu sei que para alguma parte o dinheiro faz falta: para alimentação, para roupa. Ninguém vive sem dinheiro no bolso – a gente se sente ninguém, sozinho. Com dinheiro, se entra no meio das pessoas: num restaurante, num supermercado. Não se fica sentado olhando as pessoas saírem com um monte de comida e sem a gente poder comprar.

Mas tem pessoas que têm dinheiro e não têm saúde suficiente para viver, é muita discussão na família, às vezes até pelo próprio dinheiro. Fico sentado olhando as pessoas discutindo muito sobre negócios, valores. E eu acho que ter saúde é o mais importante de tudo, está em 1º lugar. E que Deus olhe para baixo.

Angústia é quando a gente quer ter alguma coisa e não consegue. É a pior coisa da vida do ser humano. Mas agradecemos por estarmos vivos na Terra. Desejo que tenha muita paz e felicidade para todo mundo, e que não se deixem levar por bens materiais. Um beijo e um abraço”.

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