Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 128 | Ano 13 | Out 2008
ESPECIAL | QUALIDADE DE VIDA
ESPECIAL

Progresso e MEIO AMBIENTE, uma relação ainda conturbada

O Projeto Pontal do Estaleiro, na orla do Guaíba, em Porto Alegre, contrapôs ambientalistas e empresários na definição do que é progresso e o que ele tem a ver com qualidade de vida. O projeto prevê a construção de prédios de apartamentos, edifícios comerciais, bares, restaurantes e uma marina na área antes ocupada pelo Estaleiro Só. A empresa construtora de navios localizada no bairro Cristal faliu e seu terreno foi comprado em um leilão público pela BMPar Empreendimentos, que encomendou o projeto do Pontal.

Entidades de defesa do meio ambiente e associações de moradores organizaram um abaixo-assinado contra a implantação. Eles alegam que, além de problemas no trânsito da região, pelo aumento de fluxo de carros que vai coincidir com a inauguração de um shopping center próximo, os prédios previstos nos estudos arquitetônicos vão causar impacto no ambiente natural, formando uma barreira artificial à luz do sol e aos ventos, e um aumento na produção de esgoto cloacal. Segundo as entidades, o terreno foi adquirido em leilão por um preço mais baixo justamente porque uma lei municipal impedia a construção de prédios residenciais na área. “Caso a lei seja alterada (como pediram os empreendedores), o município estará sendo irresponsável com as pessoas que morarão ali, pois é área com risco de enchentes (…)”, afirmam.

Outra argumentação contra o projeto é de que “orlas são áreas de proteção permanente e não podem estar acessíveis apenas aos moradores e freqüentadores dos estabelecimentos ali localizados”.

O diretor da BMPar Empreendimentos, Rui Carlos Pizzato, explica que a área é e sempre foi privada, e a lei municipal atual permite seu uso comercial. “O público nunca teve acesso”, lembra. O estudo atual do Pontal do Estaleiro, segundo Pizzato, prevê a construção de residências, porque as diretrizes do Plano Diretor sugerem que haja áreas mistas, para que o local não fique deserto e às escuras após um determinado horário. “Se a Câmara aprovar a mudança da lei e permitir a construção de residências, vamos enviar o projeto à Prefeitura, e ele vai passar por todos os caminhos legais, com estudo de impacto ambiental”, informa. Pizzato diz ainda que esta é a chance de Porto Alegre receber uma belíssima esplanada pavimentada. “Não estaríamos devolvendo a orla à cidade, porque aquela parte nunca foi da cidade, mas estaríamos entregando uma parte da orla à população, com prédios sustentáveis”, argumenta.

Para a presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Edi Xavier Fonseca, ao edificar a área do antigo Estaleiro Só, o projeto do Pontal estará concretando a cidade. “Ele vai tirar das pessoas o direito de se beneficiar com o pôr-dosol e a vista do Guaíba”, reclama. “A orla não pertence a um grupo de pessoas, está no imaginário de todo gaúcho”, defende. Edi lembra que o Código Florestal de 1965 não permite construir na faixa junto às margens de rios, córregos e lagos e a lei orgânica do município prevê que aquela é uma área de preservação. “Queremos qualidade de vida para a população como um todo, ou é ser ecochato querer que as leis sejam cumpridas?”, reforça.

“Ninguém é insano em achar que a cidade tem que ficar parada no tempo”, afirma também a ambientalista Kathia Vasconcellos. “Mas tem que ser construções compatíveis com a orla, onde a paisagem é horizontal, porque tudo o que for vertical impacta”, acrescenta. Os ambientalistas querem uma outra forma de desenvolvimento, também gerando emprego, valor, mas não apenas seguindo o modelo de outros países, é preciso encontrar o caminho mais adequado para cada cidade, diz Kathia. “Temos que ocupar a orla respeitando o que já existe e garantindo o acesso a um maior número de pessoas – isso também é desenvolvimento. Não adianta colocar telhado verde num prédio de 20 andares que depende de ventilador e ar-condicionado e dizer que é sustentável”, enfatiza.

(CLARINHA GLOCK)

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